• Apostolado FERR

A Última Ceia do Senhor (Homilia)




HOMILIA PARA A QUINTA-FEIRA SANTA

IN CENA DOMINI

Cœpit Iesus lavare pedes discipulorum.


Admiremos o amor infinito de Nosso Senhor ajoelhado aos pés dos Apóstolos, Ele, a Majestade soberana, Ele, seu Senhor e Mestre. Quis assim dar-lhes, e a nós também, uma tríplice lição: 1.º, de humildade; 2.º, de caridade; 3.º, de pureza.


I - Uma lição de humildade.

“Talvez vós, diz S. Bernardo, vos envergonheis de imitar a humildade dum homem; ao menos imitai a humildade dum Deus, porque é isto que faz a humildade tão recomendável”.


Vejamos como o Salvador se dispõe, por humildade, a executar um mister tão modesto.

1.º Faz tudo por si mesmo: depõe a capa, cinge-se com a toalha, deita a água na bacia;... com suas mãos divinas e onipotentes, que já operaram coisas tão prodigiosas e tantos milagres, faz ações vulgares... Em seguida ajoelha aos pés dos Apóstolos, lava-lhos e limpa-lhos...


2.º Prodígio de humildade! Quem é este que vemos assim curvado?

É precisamente o mesmo que Pedro confessara o Cristo, Filho de Deus vivo,... de cujas sandá-lias João Batista dissera ser indigno de desatar as correias... É Jesus, o Verbo de Deus, o esplendor do Pai, Deus como Ele e por consequência seu igual, Aquele que os Anjos adoram tremendo...


É diante das suas criaturas que se humilha do modo que vemos!... Mas que digo eu?

E já ajoelhado diante de Judas traidor que o vendeu de Judas cuja melhor sorte fora não existir!...


3.º Senhor, porque tanto abatimento? para nosso exemplo, para que não sentíssemos vergonha de praticar a humildade perante o exemplo da sua prática: Ego Dominus et Magiser... exemplum dedi vobis, ut,... ita et vos faciatis... Qual de nós, depois de tal lição, terá ânimo de ensoberbecer-se, de ostentar aspecto de altivez e arrogância, de usar de dureza com o seu semelhante? Não podem razoavelmente pretender ser discípulos de Jesus aqueles cristãos que não só se não dignam falar com mansidão aos criados e aos pobres, mas os tratam com desprezo e consideram seres inferiores. E contudo bem curta é a distância natural que medeia entre nós todos, às vezes, só a da riqueza!...


4.º Dignos de louvor os cristãos que, dóceis aos ensinamentos de Jesus, se esforçam por praticar em todas as circunstâncias a humildade, a modéstia, a mansidão: honore invicem prœvenientes,... se mostram serviçais com toda a gente, sem distinção de classes e sobretudo são bondosos com os infelizes e lhes prestam mesmo os cuidados que parecem vis. Si hæc scitis, beati eritis, si feceritis ea.


As vidas dos Santos estão repletas desses exemplos edificantes.


II - Uma lição de caridade.

1.º Ao lavar os pés dos Apóstolos, Nosso Senhor igualmente nos dá uma lição de caridade, porque nos constitui na situação de devedores do próximo e dum mode especial dos pobres e enfermos, obrigando-nos a servi-los e aliviá-los.


2.º A todos lava os pés, para que saibamos que a caridade não há-de ser exclusivista. Lava-os até ao pérfido e ingrato Judas, tentando, à força de mansidão, triunfar da sua nefasta obstinação. Tem por ele a mesma condescendência, a mesma ternura, indicando-nos a conduta a adotar com os próprios inimigos: pagar-lhes o mal com o bem e assim os trazer a melhores sentimentos; vincens in bono malum... Fazei bem àqueles que vos perseguem... A caridade é paciente e suave.


3. Muitas almas admiráveis, abrasadas no fogo da caridade, têm, na Igreja, procurando a humildade e uma vida de dedicação ao alívio das misérias alheias. Difícil seria enumerar a maravilhosa fecundidade da caridade em inventar as formas mais variadas de dedicar-se: S. João de Deus e seus religiosos, S. Vicente de Paulo e Irmãs da Caridade com as Conferências Vicentinas, S. Pedro Claver, as Irmãzinhas dos Pobres, o heroico Apóstolo dos leprosos de Molokai!... Santa Catarina de Sena que cuida, com o mais maternal carinho, dois infelizes enfermos que à caridade correspondem com o ultraje, a injúria e a calúnia! In hoc cognoscent omnes quia discipuli mei estis, si dilectionem habue-ritis ad invicem...


4.º Mas causa dor que, em contraste com este deslumbrante espetáculo de amor ativo e gracioso, haja cristãos, tão indignos do nome, de coração duro e insensível ao sofrimento e à desgraça alheia!... Deixam friamente Lázaro morrer de fome e de miséria diante da sua porta... e se por acaso prestam algum serviço a alguém, ao pobre, fazem-se pagar, valem-se dele para outros fins ou refertam-no toda a vida... Eadem mensura qua mensi fueritis, remetietur vobis... E Nosso Senhor, no dia de Juízo, recusar-se-á a reconhecê-los: Amen dico vobis: quamdiu non fecistis uni de minoribus his, nec mihi fecistis...


III - Uma lição de pureza.

1.º Quis ainda Nosso Senhor fazer compreender, aos Discípulos e à Igreja inteira, a pureza que exige dos que se dispõem a receber o seu Corpo e o seu Sangue.


Não ter mais a lavar que os pés, indica terem já sido purificados, isto é, perdoados os pecados graves, permanecendo contudo a obrigação de penitenciar-se pelos pecados veniais, os afetos demasiados terrenos e, enfim, na medida do possível, destruir as imperfeições.


Que é isto, pensando bem na dignidade do Hóspede que desejamos receber em tão grande intimidade?


Os sacerdotes da antiga Lei deviam lavar os pés e as mãos antes de exercerem as santas cerimônias e hoje ainda os sacerdotes da Nova Lei lavam as mãos antes de subirem ao Altar e ao Lavabo como símbolo da pureza completa, quer interior quer exterior, que lhes é exigida.


2.º A humildade de S. Pedro opõe dificuldade... Mas Jesus insiste e diz-lhe: Se te mão lavar os pés, não terás parte comigo. Isto significa que uma alma, que não procura purificar-se, não receberá todas as graças e consolações que Jesus quer dar-lhe na Comunhão... Importa, pois, preparar-se para ela, quer por atos de caridade e contrição quer pela absolvição sacramental, como o praticavam muitos santos diariamente, não tanto por necessidade, mas por devoção e para alcançarem maior pureza de alma.


3.º Quer ainda Nosso Senhor indicar-nos que, enquanto não estivermos totalmente limpos das mais pequenas manchas, não compartilharemos com Ele a herança celeste, na qual não pode entrar alguém maculado... Se não tivermos o cuidado de purificar a nossa alma durante a vida, deverá ela sê-lo no fogo do Purgatório, “quasi per ignem”...


Contudo evitemos a falsa humildade que poderia levar-nos a evitar a comunhão, embora Jesus nos convide e estejamos em paz de consciência... Nisi manducaveritis carnem Filii hominis... non habibitis vitam in vobis...


4.º Assim, donde provêm tantas comunhões sem fruto? É que as almas se não desembaraçam da multidão de ligações sensíveis que as prendem, das imperfeições voluntárias, do afeto a certos pecados veniais... Quanto mais completamente vazio está um vaso, maior quantidade de líquido leva; Jesus também só se dá com a plenitude das suas graças às almas imaculadas, puras...


Ah! quantas vezes Jesus que tudo conhece, poderia hoje ainda repetir às almas que dele se aproximam: vós estais puros, mas não todos!...


Sem a hesitação doentia dos escrupulosos, examinemos sempre com cuidado a nossa consciência. É S. Paulo que o diz: Probet autem seipsum homo; e oxalá que entre nós se não encontre nunca algum infeliz compreendido na exceção do Senhor: Vós estais puros, mas não todos.


Conclusão. - Cristãos caríssimos, que o dia de hoje seja de ação de graças ao amantísimo Jesus pelas preciosas lições, que se dignou dar-nos na edificante cena do lava-pedes e sobretudo, por aquele dom inefável de que foi introdução.


Resolvamos com sinceridade não perder ocasião de exercer com humildade as virtudes da caridade e do amor do próximo.


Levemos para a Mesa Santa aquela pureza de consciência, que Jesus mesmo preparou na alma dos Apóstolos e assim ele nos cumulará de todas as suas graças e deixará frutificando em nós o germe da vida de glória: “O sacrum convivium, in quo... futuræ gloriæ nobis pignus datur”.



Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIAS.


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