• Apostolado FERR

A Comunhão Espiritual



SERMÃO SOBRE

A COMUNHÃO ESPIRITUAL

In me manet et ego in illo

(Jo 6, 57)


Padre Jorge Luís


Caríssimos irmãos, a Liturgia deste segundo Domingo da Quaresma é riquíssima tanto na Epístola com os conselhos e advertências de São Paulo, sobretudo, o apelo à pureza, como também pelo episódio do Evangelho em que Nosso Senhor numa maravilhosa transfiguração trata com Moisés e Elias, diante de alguns Apóstolos, como que conferindo na Lei e nos Profetas os detalhes da Sua Paixão próxima. Entretanto, hoje é necessário que falemos sobre Nosso Senhor sob um outro aspecto.


I – Desenvolvimento da Sagrada Comunhão


Como veremos ainda nesta Quaresma, Jesus já tinha Se dado aos homens como Mestre, como Modelo e como Vítima; restava-Lhe somente que se desse como Alimento, a fim de fazer-se uma só coisa conosco. É o que fez instituindo a Santíssima Eucaristia, como nos afirma Santo Afonso.


Jesus nos amou até o fim, como Ele mesmo disse. O efeito principal do amor é procurar a união com o objeto amado. Exatamente para se unir com as nossas almas foi que Jesus Cristo instituiu a sagrada Comunhão, e na comunhão Jesus une-se com a alma e a alma com Jesus, e esta união não é de mero afeto, mas verdadeira e real.[1]


Desde o princípio de nossa santa Religião, os cristãos foram compreendendo aos poucos a realidade de Jesus presente nos sacramentos, dentre os quais sempre se sobressaiu o Santíssimo Sacramento do Altar, pois enquanto que os outros sacramentos contêm a graça de Nosso Senhor, graça da qual são canais, o Santíssimo Sacramento contém o próprio Autor e fonte da graça, Nosso Senhor Jesus Cristo.


Da reverência ao Santíssimo Sacramento são testemunhas as mais belas frases de Santos. Por exemplo, Santo Agostinho disse: “Ninguém coma aquela Carne, se antes não a adorou. Pecamos se não a adoramos”.


E São Cirilo ensinava: “Não estendas as mãos, mas com um gesto de adoração e veneração aproxima-te do Cálice do Sangue de Cristo”. E mais: “Sê vigilante a fim de que não percas nada do Corpo do Senhor. Se deixasses cair alguma coisa, deverias considerá-lo como se tivesses cortado um dos membros do teu próprio corpo”.


Na Liturgia copta se lê: “Todos se prostrem ao chão, pequenos e grandes, e assim se comece a distribuição da Comunhão”.


Comunhão na mão

Na Igreja antiga antes da Comunhão os homens deviam lavar as mãos, as mulheres não lavavam porque não tocavam na Hóstia, cobriam as mãos com uma espécie de véu. Ao receber o Santíssimo Sacramento o fiel se inclinava profundamente, recebia o Corpo do Senhor e o levava diretamente na palma da mão direita (não da esquerda), sem tocar na Hóstia de outro modo, usando a mão direita como uma espécie de patena (para os homens) ou de corporal (para as mulheres). Desse uso nos dá notícia um sermão de São Cesáreo de Arles (470-542): “Todos os homens que desejam comungar devem lavar as próprias mãos. E todas as mulheres devem trazer um linho, sobre o qual recebem o Corpo de Cristo”.[2] Depois da Comunhão os homens lavavam as mãos novamente.


Portanto, quando se fala de Comunhão na mão na Igreja antiga, era algo bem diferente do que se pratica hoje.


São Francisco de Assis advertia em sua época dizendo que o descuido e irreverência para com o Corpo do Senhor deveria meter medo tanto em quem distribui quanto em quem o recebe deste modo, pois, um dia cairemos nas mãos do Senhor.


Comunhão na boca e de joelhos

Por isso, a Igreja, consciente da grandeza e importância do momento da sagrada Comunhão, procurou a melhor forma ritual para expressar sua , amor e respeito neste momento único em nossas vidas. Assim, naturalmente foi surgindo já no século VI a prática que hoje nos é tão cara de administrar a sagrada Comunhão diretamente na boca dos fiéis. E isso foi logo acompanhado pelo gesto de ajoelhar-se nesse momento sagrado. Com isso se deu fim a várias preocupações: que os fiéis tivessem com as mãos limpas, que não se perdesse nenhum Fragmento da Hóstia consagrada e a necessidade de purificar as mãos depois da Comunhão... Na Liturgia da Comunhão a Igreja acrescentou ainda a patena e a toalha da mesa de Comunhão, expressão do cuidado devido ao Corpo do Senhor.


Assim chegamos a forma definitiva da sagrada Comunhão no Rito Romano, que é a lei até hoje, mesmo nas duas Formas, Ordinária e Extraordinária. “Esse método de distribuição da Santa Comunhão deve ser conservado, levando-se em consideração a situação atual da Igreja em todo o mundo, não apenas porque possui por trás de si muitos séculos de tradição, mas especialmente porque expressa a reverência do fiel pela Eucaristia [...]. Por fim, através dessa maneira de agir que deve já ser considerada tradicional, assegura-se mais eficazmente que a santa comunhão seja administrada com a reverência, o decoro e a dignidade que lhe são devidos de sorte que seja afastado todo o perigo de profanação das espécies eucarísticas, nas quais, ‘de uma maneira única, Cristo total e todo inteiro, Deus e homem, se encontra presente substancialmente e de um modo permanente’”. [3]


É esta a forma de comungar da Liturgia tradicional. Nosso Missal, de 1962, desconhece qualquer outra forma, para não dizer ignora. E por quê? Porque “uma mudança em matéria de tal importância, baseada em uma antiga e venerável tradição, não afeta somente a disciplina. Carrega certos perigos consigo, que podem surgir de uma nova maneira de administrar a Santa Comunhão: o perigo da perda de reverência pelo augusto sacramento do altar, de profanação, de adulteração da verdadeira doutrina”.


Mesmo quando alguns Bispos nas décadas de 60 e 70 insistiram para obter uma permissão para fazer em alguns casos a Comunhão na mão, mesmo assim a Comunhão na boca permaneceu como a normal e a lei, sendo a outra uma exceção, embora hoje, na Forma Ordinária, ela seja a mais comum.


Obrigação da Comunhão

Estritamente falando, quem comungasse tão só à hora da morte teria cumprido a ordem formal de Nosso Senhor de comer Sua Carne e beber o Seu Sangue, pois Ele não determinou quantas vezes se deve receber a sagrada Comunhão. Mas, como este Sacramento foi confiado à Igreja para que o dispensasse a seus filhos, e ela reconhece a necessidade que temos do alimento sobrenatural, por isto, a Igreja obriga que todos os fiéis comunguem sacramentalmente uma vez por ano. O que fazemos a mais, vai de acordo com nossas necessidades e devoção.[4]


Portanto, não peca quem omite a Comunhão sacramental fora daquela ordenada pela Igreja. E, como é sabido, para comungar deve-se cumprir com as devidas exigências, especialmente estado de graça, o jejum eucarístico e a preparação, interior e exterior.


II – A Comunhão Espiritual


Além da Comunhão sacramental a Igreja conhece e aconselha outro tipo de comunhão aos fiéis: A Comunhão espiritual.


Tipos de Comunhão

O Concílio de Trento ensina que podemos receber o Santíssimo Sacramento de três modos: 1º - Sacramentalmente; 2º - Espiritualmente; 3º - Aos mesmo tempo sacramentalmente e espiritualmente.


Receber Jesus sacramentalmente é o que qualquer fiel pode fazer, mesmo nas Comunhões sacrílegas. Receber Jesus sacramentalmente e espiritualmente é próprio de quem comunga devidamente, ou seja, em estado de graça. Já o receber Jesus espiritualmente é adequado àqueles que, por algum motivo, se veem impossibilitados de receber sacramentalmente o Corpo de Nosso Senhor, e “o recebem em espírito, fazendo atos de fé viva e ardente caridade, e com um grande desejo de se unirem ao soberano Bem, e, por meio disto, se põem em estado de obter os frutos do Divino Sacramento”.[5]


Tudo o que disse até agora foi para chegar nesse exato ponto e explicar brevemente para os senhores esta prática tão antiga e tão nova na Igreja.


Vemos na vida dos Santos que, por razões medicinais (como a penitência) muitos foram proibidos de comungar, e houve tempos em que a Comunhão sacramental era mesmo dada com longos intervalos. Foi comum no passado que para comungar o fiel devesse pedir permissão ao seu Confessor ou Diretor espiritual. Então, como os fiéis cultivavam a devoção eucarística nesses tempos? Além das adorações, visitas, assistência a muitas Missas, eles praticavam com frequência a Comunhão espiritual.


Hoje em dia a Comunhão espiritual é pouco praticada devido a demasiada facilidade da Comunhão sacramental, o que, querendo ou não, pode trazer um certo esfriamento da devoção.


Diferença entre Comunhão sacramental e Comunhão espiritual

Comungar “Sacramentalmente” é unir-se a Jesus Cristo pela recepção física do Sacramento do altar, à maneira de alimento. Já comungar “Espiritualmente” é ativar em si o piedoso desejo de unir-se a Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento.


Notemos que a Comunhão Espiritual exige as disposições necessárias para que a Comunhão Sacramental seja frutuosa.


Como sabemos a recepção física do sacramento pode vir a ser até sacrílega se a alma não tiver as disposições espirituais indispensáveis. Não será frutuoso este Sacramento a quem não se dispuser para torná-lo fecundo. E esta disposição é o desejo de unir-se mais e mais a Cristo. Vemos assim que a Comunhão Espiritual é disposição para a Comunhão Sacramental.


Sintetizando, podemos dizer: a Comunhão Sacramental nos une sacramentalmente a Cristo; a Comunhão Espiritual nos une a Ele espiritualmente; mas não será possível a alma aproveitar os frutos de uma união simplesmente sacramental se não chegar a união espiritual perfeita.[6]


O que é a Comunhão espiritual?

Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática.


Santo Afonso de Ligório diz que Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta Comunhão. E diz o Santo:


Um dia apareceu Jesus a Irmã Paula Maresca e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental.


A Bem-aventurada Ângela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite.


Por isso, irmãos, em nossas visitas ao Santíssimo Sacramento, em nossas orações mentais, em cada Missa que assistimos, no momento da comunhão do celebrante e, sobretudo, quando as ocasiões externas tentarem nossa consciência, façamos uso da comunhão espiritual.[7]


Como se faz a Comunhão Espiritual?

Quando a ocasião se apresentar, para facilitar essa prática tão excelente, façam a Comunhão como ensina São Leonardo de Porto-Maurício: No momento em que o sacerdote se dispõe para comungar na Santa Missa, recolhei-vos no vosso íntimo, tomando a mais modesta posição; formulai em seguida, em vosso coração, um ato de sincera contrição e, batendo humildemente no peito, em sinal de que vos reconheceis indignos de tão grande graça, fazei todos os atos de amor, oferecimento, humildade e os demais que costumais fazer quando comungais sacramentalmente: Desejai, então, vivamente receber o adorável Jesus, oculto por vosso amor, no Santíssimo Sacramento.


E para suscitar em vós o fervor, imaginai que a Santíssima Virgem ou um de vossos santos padroeiros vos dá a Santa Comunhão: suponde recebê-la realmente e, estreitando Jesus em vosso coração, repeti-Lhe muitas e muitas vezes com ardente amor: “Vinde, Jesus adorável, vinde ao meu pobre coração; vinde saciar meu desejo; vinde meu adorado Jesus, vinde ó dulcíssimo Jesus!” E depois ficai em silêncio, contemplando vosso Deus dentro de vós, e, como se tivésseis todos os atos que habitualmente fazeis depois da Comunhão sacramental.


E continua o Santo explicando: Sabei que esta santa e bendita Comunhão espiritual, tão pouco praticada pelos cristãos de nossos dias, é um tesouro que cumula a alma de bens incalculáveis; e, no sentir de muitos autores, é de tal modo eficaz que pode produzir as mesmas graças que a comunhão sacramental.


Nosso Senhor ama tanto este modo de fazer a Comunhão espiritual, que muitas vezes se dignou atender com milagres visíveis os piedosos desejos de seus servos, dando-lhes a Comunhão ou por sua própria Mão, como fez à bem-aventurada Clara de Montefalco, a Santa Catarina de Sena, e a Santa Lidvina; ou pela mão dos Santos Anjos, como aconteceu a São Boaventura e aos santos bispos Honorato e Firmino; ou ainda, mais frequentemente, por meio da augusta Mãe de Deus, que se dignou dar a Comunhão ao bem aventurado Silvestre.


Não vos admireis desta condescendência tão terna, pois a Comunhão espiritual abrasa a alma no Amor a DEUS, une-a Ele, e dispõe-na a receber as graças mais insignes. Em resumo, quantas vezes fizerdes a Comunhão espiritual, outras tantas vos enriquecereis de graças, de méritos e de toda sorte de bens.[8]


Eis, portanto, um meio precioso para comungar, sem invenções, sem coisas estranhas à Liturgia, modo este experimentado pelos Santos e recomendado pela Igreja ainda hoje. Hoje, sobretudo, devemos considerar a possibilidade desta Comunhão espiritual, dentro e fora da Missa, para conservarmos a devoção eucarística e alimentar o amor devido ao Rei de nossas almas, Jesus. Em muitos casos (secura, aridez, algum dever de obediência ou mesmo o pecado) a Comunhão Espiritual será a solução mais apropriada para o bem de nossas almas e consciências.


E para que essas comunhões espirituais nos sejam mais proveitosas, unamos cada uma delas àquelas que fizeram todos os Santos e em particular a nossa querida Mãe do Céu. Quantos frutos colheremos desta forma para nossas almas! Pensemos que cada uma de nossas comunhões será uma pedra preciosa que ornará a nossa coroa no céu, como diz Santo Afonso.[9]


E que Deus nos ajude!




[1] Santo Afonso, Meditações. [2] Sermão 227,5. [3] Instrução Memoriale Domini, da Congregação para o Culto Divino, de 29/5/1969. [4] Padre Antônio Miranda: Doutrina Eucarística. [5] Concílio de Trento, Sess. XIII, c. 8. [6] Padre Antônio Miranda: Doutrina Eucarística. [7] Cf. Santo Afonso, Meditações. [8] Cf. São Leonardo de Porto-Maurício. [9] Cf. Santo Afonso, Meditações.




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