• Apostolado FERR

As três vindas do Senhor e a mística do Advento



MÍSTICA DO ADVENTO

Ano Litúrgico - Dom Gueranger


O TRIPLO ADVENTO

Depois de detalharmos as características que distinguem o tempo do Advento de qualquer outro tempo, agora queremos penetrar nas profundezas do mistério que ocupa a Igreja durante esse período, descobriremos que o mistério do Advento de Jesus Cristo é simples e triplo. Simples, porque é o mesmo Filho de Deus que está vindo; triplo, porque vem três vezes e de três maneiras.


“No primeiro advento, diz São Bernardo no quinto sermão do Advento, vem em carne e fraqueza; no segundo, vem em espírito e poder; no terceiro, vem em glória e majestade; o segundo advento é o meio pelo qual se passa do primeiro ao terceiro”.


Este é o mistério do Advento. Ouçamos agora a explicação que Pedro de Blosio nos dá desta tripla visita de Cristo, em seu terceiro sermão do Advento: “Existem três vindas do Senhor, a primeira em carne, a segunda na alma, a terceira no dia do julgamento. A primeira aconteceu no meio da noite, de acordo com a frase do Evangelho: Um grito foi ouvido no meio da noite: Eis o Esposo. Este primeiro advento já passou: porque Cristo apareceu na terra e viveu com os homens. Agora estamos no segundo advento: mas enquanto formos dignos de vir até nós, porque Ele disse que se o amamos, ele virá até nós e fará em nós sua morada. Portanto, este advento não é para nós algo completamente seguro, porque quem, senão somente o Espírito divino, conhece os que são seu? Aqueles a quem o desejo das coisas celestiais os faz sair de si mesmo sabem quando isso acontece, mas não de onde vem e para onde vai. Quanto ao terceiro advento, é certo que ocorrerá; mas muito incerto quando ocorrerá: já que não há nada tão certo quanto a morte, mas nada tão incerto quanto o dia da morte. No exato momento em que se fala de paz e segurança, diz o Sábio, a morte aparecerá repentinamente, à medida que as dores do parto aparecem na mulher, e ninguém poderá fugir. A primeira vinda foi, então, humilde e oculta, a segunda misteriosa e cheia de amor, a terceira será resplandecente e terrível. Em seu primeiro advento, Cristo foi injustamente julgado pelos homens; no segundo, nos torna justos pela graça; no terceiro, julgará em justiça todos os servos: no primeiro advento foi um Cordeiro, no último será um Leão, no segundo um Amigo transbordante de ternura”.[1]


O PRIMEIRO ADVENTO

A Santa Igreja aguarda, portanto, durante o Advento, com lágrimas e impaciência, a vinda de Cristo em seu primeiro advento. E assim, se faz eco das expressões ardentes dos Profetas, às quais acrescenta suas próprias súplicas. Os desejos do Messias não são, na boca da Igreja, uma simples lembrança dos anseios do povo antigo: eles têm um valor real, uma forte influência no grande ato de generosidade do Pai celestial, que nos deu seu Filho. Desde toda a eternidade, as orações reunidas dos povos antigos e as da Igreja cristã estiveram presentes ante o divino acatamento; e foi depois de ter ouvido e escutado a todas elas, que Ele se decidiu enviar em seu devido tempo à terra este celestial orvalho que fez germinar o Salvador.


O SEGUNDO ADVENTO

A Igreja também almeja o segundo advento, uma consequência do primeiro, e que consiste como acabamos de ver, na visita que o Esposo faz à Esposa. Este advento ocorre todos os anos na festa do Natal; um novo nascimento do Filho de Deus liberta a sociedade dos fiéis, do jugo da escravidão que o inimigo queria impor-lhe.[2] Durante o Advento, a Igreja pede, portanto, que seja visitada por Aquele que é Chefe e Esposo, visitada em sua hierarquia, em seus membros, vivos e mortos, mas que pode retornar à vida; e em todos aqueles que não estão em comunhão com ela, nos próprios infiéis, para que se tornem a verdadeira luz, que também os olha. As expressões da liturgia, que a Igreja usa para pedir esse advento amoroso e invisível, são os mesmos para os quais solicita a vinda do Redentor na carne; porque proporcionalmente a situação é idêntica. Em vão, o Filho de Deus teria vindo, dezenove séculos atrás, se não voltasse novamente para cada um de nós e em todos os momentos de nossa existência, para buscar e promover em nós a vida sobrenatural cujo princípio é Ele e o Espírito Santo.


O TERCEIRO ADVENTO

Mas esta visita anual do Esposo não cumpre os desejos da Igreja: ainda suspira pelo terceiro advento que será a consumação de tudo e abrirá as portas da eternidade. Guarda em sua memória a última frase do Esposo: Eis que venho ao seu tempo[3]; e diz com fervor: Vinde, Senhor Jesus![4] Tem pressa de se libertar da sujeição do tempo; suspira ao ver o número completo dos eleitos e por ver o sinal de seu Libertador e Esposo aparecer sobre as nuvens do céu. Até lá, então, estende o sentido dos desejos que expressa em sua liturgia do advento; essa é a explicação da frase do discípulo amado em sua profecia: Eis aqui as núpcias do Cordeiro, e a Esposa está preparada[5].


Mas, o dia da chegada do Esposo também será um dia terrível. A Santa Igreja treme frequentemente com o único pensamento da tremenda corte diante da qual o mundo inteiro aparecerá. Ela descreve esse dia como “o dia da ira, que Davi e a Sibila disseram que reduziriam o mundo a cinzas; dia de lágrimas e espanto”. E não é que tema por si mesma, tendo que colocar-se sobre sua frente naquele dia a coroa de Esposa de modo definitivo; mas seu coração maternal treme com a ideia de que muitos de seus filhos estarão à esquerda do juiz e que, privados de toda a sociedade com os eleitos, serão jogados para sempre, com os pés e as mãos atados, na escuridão, onde não haverá nada além de choro e ranger de dentes. Eis aqui a razão pela qual a Igreja se detém com tanta frequência, na Liturgia do Advento, a considerar o Advento de Cristo como uma vinda terrível e, nas Escrituras, escolhe as peças mais apropriadas para despertar um salutar terror na alma daqueles de seus filhos que talvez estejam no sono do pecado.


FORMAS LITÚRGICAS

Este é, então, o triplo mistério do Advento. Agora, as formas litúrgicas das quais se acha revestido são de dois tipos: consistem nas orações, leituras e outras fórmulas nas quais as palavras são usadas para traduzir os sentimentos que acabamos de apresentar; os outros consistem em ritos externos característicos deste tempo sagrado e destinados a completar a expressão dos cantos e palavras.


Por causa da cor de sofrimento de que se cobre, a Santa Igreja quer tornar a tristeza que domina seu coração sensível aos olhos das pessoas. Exceto pelas festas dos Santos, a Igreja usa apenas a cor roxa; o diácono deixa as dálmatas e o subdiácono a túnica[6]. No passado, o preto era usado em vários lugares, como Tours, Mans, etc. Esse sofrimento da Igreja indica claramente quanta verdade está associada aos verdadeiros israelitas que esperaram o Messias em cinzas e no cilício, e choravam a glória eclipsada de Sião, e o “cetro arrebatado de Judá, até que venha Aquele que deve ser enviado, o esperado das nações”[7]. Significa também as obras de penitência para as quais o segundo advento é preparado, cheio de doçura e mistério, que se realiza nos corações na medida que aqueles se mostram sensíveis à ternura que lhes manifesta este divino Hóspede que disse: Minha delícia é estar com os filhos dos homens[8].


Finalmente traduz o desconsolo desta viúva, aguardando o Esposo que tarda em chegar. Tal como a pomba, geme sobre o alto da montanha, até ouvir a voz que lhe dirá: “Vinde do Líbano, Esposa minha; vinde e serás coroada, porque feristes meu coração”[9].


A Igreja também suspende durante o advento, fora das festas dos Santos, o uso do hino angélico: Gloria in excelsis Deo, et in terra pax hominibus bonae voluntis. De fato, esta música maravilhosa foi ouvida pela primeira vez em Belém na gruta do Deus Menino; a linguagem dos anjos ainda é muda; a Virgem ainda não depositou sua divina carga; ainda não é tempo de cantar, ainda não é apropriado entoar: “Glória a Deus nas alturas! Na terra, paz aos homens de boa vontade!”


Nem deixa o diácono, no final da Missa, ouvir aquelas palavras solenes com as quais dispensa a assembleia dos fiéis como no tempo ordinário: Ite, Missa est. Em vez disso, ele exclama: Benedicamus Domino![10] como se a Igreja tivesse medo de interromper a oração dos fiéis, que não deveria nunca ser demasiado longa nestes dias de espera.


No Ofício Noturno, a Santa Igreja também suspende, durante esses dias, o jubiloso cântico do Te Deum laudamus. Ela espera humildemente o dom divino e é por isso que, durante essa expectativa, não pode fazer nada além de pedir, implorar e esperar. Chegará a hora solene em que o Sol da justiça aparecerá repentinamente nas trevas mais escuras: então ela recuperará sua voz de ação de graças; e o silêncio da noite fará eco, por toda a terra, a este clamor de entusiasmo: “A vós, ó Deus louvamos; nós vos exaltamos, ó Senhor. Ó Cristo, Rei da glória, eterno Filho do Pai! Vós não tivestes horror do seio de uma pobre Virgem”.

Os dias de féria, antes de terminar cada hora do ofício, as rubricas do Advento prescrevem preces especiais que devem ser feitas de joelhos; nesses mesmos dias, o Coro também deve permanecer nessa posição por boa parte da Missa. Sob esse aspecto, as práticas do Advento são idênticas às da Quaresma.


No entanto, há uma característica que distingue esses dois momentos: o canto da alegria, o jubiloso Aleluia não é suspenso durante o Advento, exceto nos dias da feira. Continua sendo cantado na Missa dos quatro domingos, contrastando com a cor sombria dos paramentos. Existe até um domingo, o terceiro, em que o órgão recupera sua voz larga e melodiosa e a triste cor roxa é substituída algumas horas pela cor rosa.


Essa lembrança de alegrias passadas, que é bastante frequente nas santas tristezas da Igreja, também é eloquente o suficiente para significar que, embora se junte ao povo antigo para implorar a vinda do Messias e, assim, pagar a grande dívida que a humanidade contraiu com a justiça e bondade divinas, apesar de tudo, não esqueceu que o Emmanuel já a procurou, que está ao seu lado e que, antes de mover os lábios pedindo redenção, já está resgatada e nomeada para a união eterna com seu Esposo. É por isso que o Aleluia se mistura com seus suspiros e as alegrias com as tristezas, esperando que a alegria supere a dor naquela noite sagrada, que será mais radiante que o dia mais esplêndido.

[1] De Adventu, Sermão III.

[2] Colecta do dia da Natividade.

[3] Apocalipse 22.

[4] Ibid.

[5] Apocalipse 19,7.

[6] N.T.: Alusão ao costume mais antigo, excluído das novas rubricas (1962), mas que aos poucos volta aos Institutos tradicionais.

[7] Gêneses 49,10.

[8] Provérbios 8,31.

[9] Provérbios 8,31.

[10] N.T.: Outra alusão às rubricas mais antigas.



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