• Apostolado FERR

A morte e Assunção de Maria (sermão)



SERMÃO DA ASSUNÇÃO

MORTE E ASSUNÇÃO DE MARIA

Fecit mihi magna qui potens est.


Diz Santo Agostinho: “Chegou enfim, caríssimos irmãos, este dia tão venerável para nós; este dia que excede todas as festas com as quais solenizamos em honra dos Santos; este dia tão célebre; este claríssimo dia em que cremos que a Virgem Maria passou deste mundo à glória celestial.” Neste dia a Santíssima Virgem pode repetir estas palavras do seu Cântico, com mais alegria ainda do que no dia da sua Visitação: Minha alma glorifica ao Senhor porque fez em mim grandes coisas.


A festa da Assunção é uma das festas mais antigas da Santíssima Virgem. Já antes do ano 430 encontramos esta festa. O imperador Maurício (582-602) fixou a data atual. Até os Nestorianos, separando-se da Igreja, continuaram celebrando-a. No Ocidente é São Gregório de Tours († 573) o primeiro que fala da Assunção corporal de Maria ao céu. Em Roma, o Papa Sérgio I (687-701) ordenou que se fizesse uma procissão no dia da festa. No século X surgiram dúvidas e apareceram escritores aconselhando cautela no assunto. Mas tinham em vista as provas históricas e não as razões teológicas. Assentadas estas últimas, cessou o receio e hoje o mundo universo canta, jubiloso e convicto: Assumpta est Maria in caelum. No Ano Santo de 1950 veio a definição desta verdade como dogma de fé.


O dogma da Assunção diz que Maria subiu ao céu em corpo e mais, porém, embora não diga claramente, é comum e racional pensar que Maria, de fato, morreu (embora de modo diferente).


O que celebramos hoje?

Neste dia a Igreja nos propõe a celebração de duas solenidades em honra de Maria: seu feliz trânsito desta terra, e sua gloriosa assunção ao céu.


Como sabemos, a morte uma pena do pecado. Ora, sendo Maria toda santa e isenta de toda mancha, parece que não devia ser sujeita a padecer a mesma desventura dos filhos de Adão, atingidos todos pelo veneno do pecado. Entretanto, querendo Deus fosse Maria bem semelhante a Jesus, convinha que morresse a Mãe como tinha morrido também o Filho. Queria o Senhor dar aos justos um exemplo da morte preciosa que lhes está preparada e por isso determinou que morresse a Virgem, mas de uma morte toda doce e feliz.


Vida de Maria Santíssima

A opinião mais comum na Igreja, baseada na tradição, é que, depois da Ascensão do Salvador ao céu e da vinda do Espírito Santo, a Virgem viveu vinte e três anos e mais alguns meses neste mundo. Embora o desejo que a Senhora tinha de seguir seu amado Filho ao céu fosse tão ardente e vivo, ela consentiu em ficar na terra para o conforto dos fiéis e atender às necessidades da Igreja recém-nascida, concordando que sua presença supriria de alguma forma, a ausência corporal de Jesus Cristo. A Virgem era para a Igreja o seu oráculo, o seu suporte e todo o seu refúgio. Doctricem doctorum, magistram apostolorum.


Durante estes vinte e três anos, a vida da Santíssima Virgem foi um exercício contínuo do mais puro amor e um modelo perfeito de todas as virtudes; uma oração ininterrupta, e esta mesma oração um êxtase perpétuo. Ela frequentemente visitava os lugares sagrados que o Salvador havia santificado com sua presença, cumprindo os mistérios de nossa redenção. Embora esta divina Mãe vivesse na terra, seu coração nunca se separou de seu filho amado, que vivia no céu. Poucos dias se passaram sem que Jesus Cristo aparecesse a ela, e nenhum dia em que ela não conversasse familiarmente com os anjos, singularmente destinados ao seu serviço; e embora distante da Jerusalém celestial, enquanto durou sua morada na terra, ela desfrutou abundantemente de todas as suas delícias.


A Santíssima Virgem vivia em Jerusalém há quase doze anos, quando os Apóstolos e discípulos foram forçados a retirar-se daquela cidade por causa da perseguição dos judeus contra os fiéis. Quando a Virgem saiu de Jerusalém, ela foi para Éfeso na companhia de São João por volta do ano 45 do Senhor; mas com a perseguição um pouco calma, ela voltou para a cidade santa e aí permaneceu pelo resto de sua vida.


Morte de Maria

Três coisas costumam tornar amarga a morte: o apego à terra, o remorso dos pecados e a incerteza da salvação. Mas a morte de Maria foi totalmente isenta dessas amarguras, e, ao contrário, acompanhada de três belíssimas graças que a tornaram sumamente preciosa e suave. Morreu, como sempre vivera, completamente desapegada dos bens mundanos; morreu com suma paz de consciência; morreu na certeza da glória eterna.


Primeiro devemos lembrar que os Santos morrem desapegados das coisas do mundo, por isso a morte não lhes é amarga, mas doce, amável e preciosa: “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” (Ap 14,13). São João viu Maria figurada naquela mulher vestida de sol, que tinha a lua debaixo dos pés. Pela lua significa-se o mundo e seus bens caducos, sujeitos a inconstâncias, como o é a lua. Todos estes bens, Maria nunca os teve no coração, mas sempre os desprezou e teve debaixo dos pés.


Em segundo lugar a paz de consciência faz preciosa a morte dos justos. Desde o primeiro instante da sua imaculada Conceição no seio de Santa Ana, a Virgem começou a amar o seu Deus com todas as forças. E assim continuou sempre, adiantando-se cada vez mais na perfeição e no amor em toda a sua vida. Todos os seus pensamentos, desejos e afetos, só a Deus tinham por objeto. Não disse palavra, não fez movimento, não deu uma vista de olhos, não respirou que não fosse por Deus e para glória sua, sem jamais separar-se um momento do amor divino.


Em terceiro lugar a segurança da eterna salvação faz doce a morte. A morte chama-se trânsito, porque por ela se passa de uma vida breve a uma vida eterna. É muito grande a alegria dos santos em acabar a vida. Pois com firme confiança podem esperar pela posse de Deus no céu. Então, qual não deve ter sido a alegria da Divina Mãe ao receber a notícia da sua morte? Ela, tão certa e segura de possuir a graça divina, estava também ciente das chamas de divino amor, em que lhe ardia o coração continuamente. E mais: por singular privilégio ela amava e estava sempre amando a Deus, em cada instante de sua vida. E isso com tanto ardor, que, segundo São Bernardo, só por um contínuo milagre lhe foi possível viver no meio de tão vivo incêndio de amor.


Maria morreu não de velhice, mas de amor. Não houve movimentos extraordinários, nem convulsões nesta morte tão suave. Como um sopro ligeiro desliga da árvore um fruto já maduro, como uma chama que se eleva, desprende e voa por si mesma, assim foi colhida esta alma bendita para logo ser transportada ao Céu; assim morreu a Virgem Santíssima num impulso de amor. Vindo Jesus buscá-la, num êxtase de amor e reconhecimento, ela entrega-lhe a sua alma e repete: ecce ancilla Domini. No céu recebe a coroa preparada por Deus.


Os santos Padres observam seis circunstâncias, cada uma mais prodigiosa que a outra, na Assunção da Santíssima Virgem: Primeiro, sua morte, que muitos deles e alguns martirologistas chamam de sonho: Dormitio; segundo, a glorificação de sua alma no momento de sua separação; terceiro, o sepultamento de seu corpo sagrado no lugar do Getsêmani; quarto, sua gloriosa ressurreição três dias depois; quinto, sua vitória triunfante em corpo e alma ao céu; sexto, sua coroação em glória pela Santíssima Trindade.


As tradições antigas

A piedade popular, apoiada em apócrifos e nos escritos de Santos antigos, celebrou sempre essa festa repassando piedosas histórias que detalham o mistério deste dia glorioso.


Conta-se que alguns dias antes da morte de Maria Nosso Senhor enviou o arcanjo São Gabriel que lhe disse: Minha Senhora e Rainha, Deus já ouviu os vossos santos desejos e mandou-me a dizer-vos que vos prepareis para deixar a terra, porque ele vos quer consigo no paraíso. Maria comunicou depois a São João a revelação. Ela visitou de novo os santos lugares de Jerusalém, despedindo-se deles com ternura, especialmente do Calvário, onde o amado Filho deixou a vida. Retirou-se depois à sua pobre casa, preparando-se para morrer. Durante todo esse tempo não cessavam os Anjos de visitar frequentes vezes a sua amada Rainha, consolando-se em saber que brevemente a veriam no céu.


Muitos autores dizem que os Apóstolos e também uma parte dos discípulos vieram das diversas partes, onde estavam dispersos, reunindo-se no quarto de Maria, antes da sua morte. E muitos Apóstolos, como estavam longe pregando o Evangelho, foram transportados por Anjos ao leito de Maria. Só São Tomé não estava presente. Acenderam muitas velas ao redor de Maria que trazia nas mãos uma palma que o Anjo lhe trouxera quando lhe anunciou a morte. E como mãe, deu seus conselhos, os consolou e disse: “Vou ao paraíso rogar por vós”. Grandes foram as lágrimas e os lamentos daqueles santos discípulos, pensando que em breve tinham de separar-se de sua Mãe.


São João Damasceno coloca na boca de Nossa Senhora as seguintes palavras: Deixando-vos, não vos abandono. Pelo contrário, hei de socorrer-vos ainda mais com a minha intercessão junto de Deus no céu. Ficai contentes! Porque um dia nos veremos de novo reunidos no céu, para jamais nos separarmos por toda a eternidade.


Dito isto, rogou-lhes que dessem sepultura ao seu corpo e abençoou-os. Ordenou a São João que depois de sua morte entregasse duas vestes suas a duas virgens, que a tinham servido por certo tempo. Depois se acomodou em seu leito decentemente, onde se pôs com alegria a esperar a morte, e com ela o encontro do Divino Esposo.


Vendo os santos Apóstolos que Maria já estava próxima a sair deste mundo, renovando o pranto, puseram-se de joelhos ao redor do leito. Uns lhe beijavam os santos pés, outros lhe pediam a bênção, alguns lhe recomendavam as suas particulares necessidades. Todos, enfim, choravam copiosamente e sentiam o coração transpassado de dor, porque tinham de separar-se para sempre, nesta vida, de sua amada Senhora. A Mãe amantíssima de todos, entretanto, se compadece e procura consolá-los. A uns promete o seu patrocínio, a outros abençoa com especial afeto, e anima outros no trabalho da conversão do mundo. Especialmente chamou junto de si São Pedro, e como chefe da Igreja e vigário de seu Filho, a ele recomendou principalmente a propagação da fé, prometendo-lhe uma especial assistência. Por fim chamou singularmente São João, lhe agradeceu pelo tempo que a servira e lhe deu uma bênção especial.


Mas a morte de Maria já está próxima. As ardentes chamas do amor divino já haviam consumido quase todas as forças vitais. Os Anjos em multidão baixavam à terra, prontos para o grande triunfo com que deviam acompanhá-la ao paraíso. Muito se consolava Maria com a visita daquela multidão de espíritos.


Chega, finalmente, o termo da vida de Maria. Ouve-se, no quarto em que morre, uma celeste harmonia. Um grande esplendor ilumina o aposento, conforme uma revelação feita a Santa Brígida. Aos sons dessa harmonia, aos clarões desse esplendor, compreenderam os Apóstolos que era chegada a hora do trânsito de Maria. Uma luz, que se vai apagando, trêmula, atira vivos lampejos e clarões, e depois se extingue. Assim também a Virgem, formosa borboleta, convidando-a o Filho a segui-lo, imersa na chama de sua caridade e no meio de seus amorosos suspiros, dá um maior suspiro de amor, expira e morre. E deste modo aquela grande alma, aquela formosa pomba do Senhor, se desprendeu dos laços desta vida e voou à glória eterna, onde permanece e permanecerá Rainha por toda a eternidade.


Depois da morte da Santíssima Virgem, todos os fiéis que estavam em Jerusalém e ao redor correram para venerar aquele santo corpo, santuário do Verbo Encarnado e arca do Novo Testamento. Ao seu toque se curaram todos os enfermos; e São João Damasceno diz que até os próprios judeus sentiram os efeitos de seu poder e participaram de seus milagres.


Depois o corpo santo foi levado ao local onde seria sepultado. Os santos apóstolos carregaram o caixão, e os demais fiéis os seguiram com velas acesas. O santo corpo foi depositado com grande respeito no sepulcro que foi preparado, e este foi fechado com uma pedra grossa. Numa carta que Juvenal, Patriarca de Jerusalém, escreveu ao Imperador Marciano e à Imperatriz Pulqueria, ele diz que os apóstolos, como os demais fiéis, passavam dias e noites ao lado do túmulo, sucedendo-se, e misturando suas vozes e suas canções com os anjos, cujas canções muito suaves não deixaram de ser ouvidas nesses três dias.


No terceiro dia de sepultura o mandamento de honra pai e mãe foi cumprido por Nosso Senhor, pois tendo ele poder para preservar o corpo de sua mãe da corrupção, quis e, de fato, o preservou. Como?


Diz São João Damasceno com a maioria dos padres gregos e latinos, que São Tomé foi o único dos apóstolos que não assistiu à morte da Santíssima Virgem. Assim como por misteriosa providência de Deus só São Tomé não estava presente e até não acreditou na ressurreição de Jesus para confirmar nossa fé, de modo semelhante quis Deus que São Tomé não estivesse presente na morte e enterro de Nossa Senhora, para nos manifestar sua gloriosa ressurreição. Quando ele chegou já fazia três dias que estava sepultada. Como ele se lamentasse e desejava ansiosamente ver o corpo sagrado, pareceu muito justo aos outros apóstolos dar-lhe este consolo de ao menos abrir a tumba; mas todos ficaram alegremente surpresos ao encontrar dentro dela apenas os panos e os vestidos com os quais o corpo sagrado havia sido coberto, exalando uma fragrância deliciosa.


São João Damasceno explicando aquela palavra do Profeta: Surge, Domine, in requiem tuam, tu et arca sanctificationis tuae, diz: Quem não vê que a ressurreição de que fala o Profeta é a do Salvador e a da Santíssima Virgem, aquela arca misteriosa que encerrou no seu seio a fonte da santidade?


São Pedro Damião diz que, tirando a divindade, a pompa e o aparato da Assunção de Maria foram maiores que da Ascensão do próprio Jesus, pois na Ascensão do Salvador somente os Anjos vieram ao seu encontro, mas na Assunção Maria, além de todos os Anjos, veio o próprio Filho de Deus ao encontro de sua Mãe e a conduziu até o mais alto do céu.

Conclusão

Caríssimos irmãos, a solenidade deste dia deve despertar nossa devoção, dar nova vida à nossa fé e despertar nossa confiança. Como diz São Bernardo, esta festa nos lembra de que temos uma Rainha no céu, que ao mesmo tempo é nossa Mãe; uma medianeira toda poderosa com o soberano Mediador; e uma advogada junto ao Redentor, que não lhe pode negar nenhuma graça. Maria assunta ao céu é a escada para nós, pobres pecadores, é nossa esperança e fundamento de toda nossa confiança. Concluamos com Santo Agostinho dizendo a Maria: Vós sois, ó Virgem Maria, a única esperança dos pecadores; por Vós esperamos o perdão dos nossos pecados; em Vossa intercessão colocamos a esperança da nossa recompensa (eterna).


E assim como na Ascensão de Jesus, Maria deixou seu Coração subir com o Filho, assim também hoje peçamos a Maria que sobe ao céu que leve consigo nosso coração para que onde esteja nosso tesouro, Jesus, aí esteja também nosso coração. Desse modo poderemos responder na santa Missa com toda propriedade ao Sursum corda (corações ao alto): o nosso coração já está em Deus!



Por Padre Jorge Luís


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