• Apostolado FERR

A mudez espiritual (Homilia)



O MUTISMO ESPIRITUAL

Erat Iesus eiiciens dœmonium et illud erat mutum.


Este homem, que o demônio tornou cego e mudo, é a imagem triste, mas verdadeira, de muitas almas enganadas pelo demônio e cativas por ele nas cadeias do pecado e dos maus hábitos... Primeiramente o demônio cega-as para que não se lembrem de Deus, nem possam ver a gravidade do seu deplorável estado nem as suas funestas consequências, bem como as faltas que cometem...


Depois torna-as mudas. Ora convêm advertirmos que este mutismo espiritual é um perigo não só 1.ºpara a oração, como também 2.º para o cumprimento dos deveres de caridade e 3.º para a acusação dos pecados na confissão.


I. - É um perigo para a oração.

1. - Assim como o lobo, ao apanhar uma ovelha, a toma pelo pescoço, e o ladrão, ao agarrar a vítima, começa por amordaçá-la, assim o demônio torna as almas mudas para que não ore, isto é, para que não gritem pelo socorro divino. Quase podemos dizer que ele fascina as almas e é este um dos maiores perigos em que pode lançar-nos... Porque a oração, feita com fé, é a melhor arma do cristão para combater e vencer Satanás, pois por ela alcançamos todas as graças: clamabit ad me et ego exaudiam eum. Sem oração não pode haver virtude sólida, nem santidade, nem salvação. Aquele que não está desarmado torna-se inevitavelmente presa do demônio.


2. - Satanás, que sabe tudo isto, emprega todos os esforços para nos desviar da oração e no-la tornar aborrecida. Quando quis tentar Eva, começou por dificultar-lhe este refúgio, enchendo-a de orgulho. Quando nos quer tentar, enche o nosso espírito e o nosso coração de muitos e variados pensamentos e desejos terrenos, de preocupações mundanas e de amizades perigosas e desordenadas: e torna a nossa alma escrava de hábitos e paixões más. Daqui vem o aborrecimento e, muitas vezes, o desprezo da oração e das coisas divinas... Infeliz da alma que assim está muda para Deus e não sabe, nem quer orar. Por falta do orvalho celeste, que é a graça, torna-se um verdadeiro deserto, árido e povoado de animais ferozes, isto é, de pecados e de demônios. Se a morte encontrasse um cristão neste terrível estado, qual seria sua sorte futura?


3. - Quantos cristãos há que nunca oram, nem a sós nem em família, nem mental nem vocalmente! E, se alguma vez se dão à oração, fazem-na tão mal, com tantas distrações, com tanto tédio, que nem Deus é louvado, e o demônio alegra-se! É, pois, necessário pedir a Deus que o expulse este demônio mudo e que nos dê o dom da oração: Domine, doce nos orare, para sermos salvos. Já dizia Santo Agostinho: “novit recte vivere, qui recte novit orara”.


II. - É um perigo para os deveres de caridade e para os do nosso estado.

1. - Isto diz respeito principalmente aos deveres de instrução e correção fraterna que pertencem aos párocos, pais, patrões e outros superiores encarregados de corrigir e educar os que lhes estão confiados. O direito que tais pessoas têm de mandar, proibir, aconselhar, etc., é para elas um dever, um talento que Deus lhes deu e de que lhes pedirá contas rigorosas. Nestas condições, o silêncio pode tornar-se pecado, uma traição armada a Deus e às almas dos que lhes foram confiados. Se elas se tornam cúmplices do demônio e das paixões, contraem perante Deus uma grave culpabilidade, segundo as circunstâncias, e tornam-se responsáveis pela perda das almas: Vœ vobis, canes muti!... Sanguinem eorum de manu tua requiram... Olhemos o triste exemplo do Sumo Sacerdote Heli.


2. - Mas podemos, em certo modo, dizer que este dever é geral para todos, segundo as ocasiões: Mandavit unicuique de proximo suo... Cada um tem obrigação de avisar caridosamente o seu próximo e de o preservar de pecado, podendo; e igualmente de trabalhar para a sua conversão e reconduzi-lo ao bom caminho, se dele se afastou. Foi o que fez Santo Inácio por S. Francisco Xavier. Tivesse-se o Santo calado e seria S. Francisco o Santo Apóstolo que nós hoje veneramos?


Somos ainda obrigados, observando contudo as regras de prudência cristã, a defender a religião contra os ataques dos seus inimigos; evitar as calúnias e maledicências, se nos for possível; advertir o próximo, se está ameaçado de qualquer desgraça.


Calar-se em todas estas diferentes circunstâncias pode chegar a ser uma violação grave do preceito da caridade.


3. - Sob o pretexto de que não têm encargo de almas, de que isso pertence aos Sacerdotes ou a qualquer outra pessoa diferente quantos cristão vivem mudos! Este silêncio é indício, muitas vezes, de respeitos humanos ou da falta de caridade e de zelo por Deus e pelo próximo. Não é a verdadeira humildade que prende a língua, mas o demônio que fecha a boca. Quantos pecados não podíamos evitar, quantas almas não podíamos conduzir à salvação ou tornar mais perfeitas!


Eis uma obra de verdadeiro e piedoso apostolado, obra santa e salutar, que fica bem neste tempo da Quaresma.


Digne-se Deus iluminar o nosso espírito, para compreender estes graves deveres e dar-nos força para os cumprir fielmente, dum modo especial o de nada calarmos que mereça correção... e que nos conceda a felicidade de trazer ao santo tribunal da Penitência, tal ou tal alma que ande afastada.


III. - É perigoso para a obrigação da confissão.

1. - É aqui principalmente que o demônio triunfa! É aqui que, no dizer de S. Leonardo do Porto Maurício, “muitas confissões, em vez de expulsarem o demônio, lhe abrem ainda mais as portas”. “Porque muitos destes mudos, continua o mesmo santo, quando falam, não falam bem, julgam-se mais inocentes do que na verdade são, ou julgam-se penitentes sem o serem, isto é, ou não fazem uma confissão íntegra, ou não tem a dor suficiente”.


Ah! quantas almas Satanás conserva encadeadas pela cegueira da consciência ou pelo mutismo! Começa a iludi-las, como iludiu Eva, para as fazer cair no pecado e depois torna-as mudas, isto é, excita nelas a vergonha pela falta ou faltas cometidas para que as não confessem e, portanto, não participem deste remédio salutar instituído por Deus. E se alguma vez acontece aproximarem-se dele, a quantas ainda não encadeia com confissões mal feitas, mudando assim o remédio em veneno pela profanação sacrílega do Sacramento? Se soubéssemos o número dos desgraçados que ele, por esta forma, precipita no inferno?...


2. - Um grande número de almas, por tentação do demônio, ocultam os seus pecados em confissão, ou porque se envergonham deles, ou porque não querem corrigir-se.


Meu pobre irmão, para que és assim mudo em todas acusações?


Porquê este mutismo, de que o confessor não suspeita, mas que a tua consciência censura e Deus conhece e reprova?


Para que desconfiar assim da misericórdia divina e desprezar a justiça de Deus?


Pensem tais almas seriamente: Liber scriptus proferetur, in quo totum continetur, unde mundus iudicetur. Temam assemelhar-se a Caim ou a Judas.


Eu tenho medo, dizem, que o Sacerdote me despreze, me envergonhe, ou me considere menos...


Tudo isto são ilusões do demônio, tirano cruel das almas em tais condições. O Sacerdote, que ouve os pecados, faz as vezes de Jesus Cristo, tem para elas um coração de pai; não se admira porque sabe as misérias em que o homem pode cair; não as envergonha nem despreza, mas ama-as, ajuda-as, consola-as e cura-as. Pergunte-se a Santa Angela de Foligno a paz que encontrou abrindo o seu coração para reparar o mal das suas confissões mal feitas.


3. - Outras almas, então, são mudas porque as suas confissões são sumárias, incompletas, inválidas em virtude de descuidos ou negligências no exame, no reconhecimento das faltas e em virtude de se não acusarem como devem.


Ocultam-se os pecados de omissão contra os deveres próprios; alegam-se escusas e desculpas, culpam-se outras pessoas. É o mesmo que Adão e Eva fizeram: Serpens me decepit... Mulier quam dedisti mihi...


Não se tem em conta pensamentos, desejos e tudo quanto sejam pecadores interiores, nem o número e espécie de pecados; não se desce até ao fundo do coração para manifestar as verdadeiras causas das faltas cometidas.


Um exame superficial leva o penitente, no ato da confissão, a dizer esta frase, tantas vezes repetida, depois da acusação de alguns pecadilhos: meu padre, não me recordo de mais nada... Ao passo que um exame sério, pondo a consciência a descoberto, inspira um profundo sentimento de terror à vista das multidão das nossas iniquidades: comprehenderunt me iniquitates meæ, et non potui ut viderem; multiplicatæ sunt super capillos capitis mei.


4. - Estas confissões assim feitas são nulas e sacrílegas. As pobres almas, vítimas do demônio mudo, longe de se libertarem das cadeias em que estão presas, apertam-nas mais e vivem numa estreita escravidão, qual é a do infernal tirano. Devemos atender a que, a estas confissões, falta ainda a necessária contrição e o propósito eficaz.


Meu Deus! quantas almas perdidas por causa do mutismo no santo Tribunal...


5. - Meus irmãos, não haverá entre vós quem não tenha sua alma em paz? quem queira morrer no estado em que se encontra?


As recaídas tão frequentes a que sucumbis, não serão resultado das más disposições com que recebeis o sacramento da Penitência, ou de terdes ocultado tal ou tal pecado grave? Oh! por amor de Deus, não consintais por mais tempo sobre vós o jugo do demônio; ele procura o momento oportuno de vos arrastar ao inferno.


Mas não vos lanceis também no desespero, como Caim e Judas. Vinde antes, como Pedro e Madalena, lançar-vos aos pés de Jesus Cristo, vosso doce Salvador, que vos chama, vos espera e receberá como ao filho pródigo: Venite ad me, omnes qui onerati estis et ego reficiam vos.


Descobri-lhe, na pessoa do seu sacerdote, as chagas mais secretas e mais vidas da vossa alma. Aí encontrareis o perdão, o remédio para tais males. Expulsareis o demônio mudo e cantareis os louvores de Deus: benedictus Dominus Deus meus qui allevat omnes qui corrunt, et erigit omnes elisos... Anima nostras erepta est de laqueo venantium, laqueus contritus est et nos liberati sumus.


Conclusão. - Fazei, pois, um exame sério de consciência sobre as três obrigações enumeradas, durante este tempo da Quaresma em que a Igreja nos convida ao arrependimento.


Desconfiai dos sofismas do demônio, pedi a Deus a luz e força para que, livres da escravidão do demônio, sejais fiéis a Deus em tudo, servindo-o e amando-o como filhos queridos e esperando a eterna recompensa. Amém.



Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIAS.


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