• Apostolado FERR

A Paixão de Jesus e os nossos pecados (Homilia)





HOMILIA PARA O I DOMINGO DA PAIXÃO


A PAIXÃO DE JESUS E OS NOSSOS PECADOS

Nolite flere super me, sed super vos ipsas flete.


A Igreja, insistindo sobre a lembrança dos sofrimentos do Senhor, pretende e quer excitar em nós, a contrição verdadeira e sincera, um grande horror contra toda a espécie de pecado. Por quê? Porque foi o pecado que, de fato, 1.º causou a Paixão de Jesus; 2.º é ele que a renova incessantemente e 3.º é ainda o pecado que a torna estéril, isto é, que a impede de produzir os seus efeitos salutares... Propter scelus populi mei percussi eum... Attritus est propter scelera nostra...


Certamente que estas três considerações hão-de emocionar o nosso coração e converter-nos sinceramente: Hodie si vocem Domini audieritis, nolite obdurare corda nostra...


I - O pecado causou a Paixão do Salvador.

1.º Todos nós fôramos condenados à morte eterna por causa dos nossos pecados... A ofensa feita à majestade divina era, em si mesma, infinita e, para expiá-la e repará-la, seria precisa uma satisfação infinita...


Mas que satisfação poderia jamais o homem culpado oferecer ou dar a Deus? Desde que, no paraíso terrestre, Adão caiu, em vez de humilhar-se imediatamente para apaziguar a cólera do Senhor, agravou ainda a sua falta, pretendendo alegar em sua desculpa uma atenuante miserável!...


2.º O Filho de Deus faz-se homem e oferece-se à Justiça do Pai para expiar por nós e nos livrar dos castigos que havíamos merecido...


Ele, que reptava os seus inimigos a apontarem na sua vida a mínima falta;... Ele, que não conhecia o pecado, como diz S. Paulo, fez-se pecado e foi tratado como pecado por amor de nós. Para quê, Senhor? A fim de que, diz o mesmo Apóstolo, nele, nós nos tornássemos justiça de Deus, isto é, fossemos reconhecidos justos por Deus.


Tomou sobre si todas as nossas dívidas e o eterno Pai condenou-o a morrer na Cruz por nós, para as expiar e nos libertar delas: Vere languores nostros ipse tulit. Submeteu-se à maldição, que justamente nos tinha sido lançada, para nos absolver dela: Apagando a cédula do decreto promulgado contra nós, que nos era contrário, aboliu-o, afixando à cruz. É por isso que, voluntariamente, toma sobre si os nossos crimes, é por isso que esta sentença de morte, proferida contra nós, se executa na sua pessoa adorável...


3. - Mas quem poderá narrar o número e a atrocidade dos tormentos, que os nossos pecados infligem a esta santa e divina Vítima? Vejamos o nosso amável Salvador no Jardim das Oliveiras - uma tristeza mortal se abate sobre todo o seu ser e de todo o corpo lhe goteja suor de sangue. “Toto corpore flevit”, diz um Santo Doutor. A causa, Senhor, de tão cruel angústia, desta tremenda agonia?... Jesus está diante de seu pai, carregado com todas as abominações dos homens: Torrentes iniquitatis conturbaverunt me... Posuit Dominus in eo iniquitatem omnium nostrum...


Ah! Jesus, cheio de confusão, esmagado de dores por causa dos nossos pecados, Jesus vê correr de seu corpo sagrado suor de sangue e... nós, os verdadeiros culpados, levantamos a cabeça e, sem medo nem vergonha, continuamos a pecar, temos a ousadia de disso nos vangloriarmos! Triste e la-mentável loucura, ingratidão inominável!...


4.º Vamos a casa de Caifaz e veremos os ultrajes que suporta;... entremos no Pretório de Pilatos e... assistiremos à incrível flagelação que cobre Jesus de chagas a planta pedis usque ad verticem capitis, porque na Lei estava escrito que o número de açoites seria regulado pela qualidade do pecado. Fixemos os nossos olhos na sua cabeça divina e vê-la-emos escorrer sangue - circunda-a uma coroa de espinhos: Ecce homo! Verdadeiramente non est ei species, neque decor.


A todos estes sofrimentos corporais, que lhe fazem suportar, associa o furor dos verdugos, as humilhações mais odiosas: escarros, injúrias, bofetadas, genuflexões escarninhas, zombarias insultantes. É-lhe até preferido Barrabás!... “O novissimum et altissimum, exclama S. Bernardo com o coração penetrado de dor, o humilem et sublimem! o opprobrium hominum et gloriam Angelorum! Nemo illo sublimior, nemo humilior”...


Com este Santo Doutor, reconheçamos em Jesus estas duas naturezas e estes dois estados; mas confessemos igualmente que foram os nossos pecados a reduzi-lo à condição de acusado e de criminoso, desprezado tal como Pilatos o apresentou no Pretório...


Verdadeiramente se não compreendemos ainda quão horrenda coisa é diante de Deus o pecado, quando o compreenderemos então?


5. - E esta pesada cruz que Jesus teve de levar aos ombros já pisados até ao Calvário!?... São ainda e sempre os nossos pecados: Supra dorsum meum fabricaverunt peccatores!... E estas marteladas que enterram os pregos nas suas mãos e pés?... Crucifixerunt eum... Frase curta para exprimir tão intoleráveis sofrimentos! Porque tão parco é, Senhor, o vosso cronista? “Ut pia consideratio, diz S. Bernardo, non expressa per atramentum, pia meditatione ad meritum fidelium remaneret”. É, sim, de fato, o coração que, mais que as palavras, deve, aqui no Calvário, gemer com Jesus que sofre e morrer e chorar o maldito pecado, causa de tantas dores e de tal morte - agonia cruel de três horas no alto da Cruz: Consummatum est!


Eis, irmãos caríssimos, o castigo das nossas inumeráveis ofensas... Quem de nós será tão duro de coração que permaneça insensível às dores e à morte de Jesus?... Choremos ao menos pelos nossos


pecados que as provocaram: Nolite flere super me, sed super vos flete! e que do fundo do coração nos saia o grito de Santo Inácio de Antioquia: “Amor meus crucifixus est”!...


II - O pecado renova a Paixão do Senhor.

1.º Depois da cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, quando disse aos três discípulos: Ecce appropinquavit hora, et Filius hominis tradetur in manus peccatorum, quantas vezes, do seu Tabernáculo de amor, ao ver a malícia dos homens persegui-lo por toda a parte, não tem Jesus repetido a mesma lamentosa queixa!... Pode até dizer-se que cada pecado nosso entrega, de novo, Jesus nas mãos dos seus inimigos, renova os seus tormentos e repete a sua crucifixão: Rursum crucifigentes Iesum in semetipsis...


Quantos cristãos indignos se obstinam hoje em reproduzir os diferentes suplícios, as várias circunstâncias da Paixão!... Quantos covardes fugas e renúncias e apostasias!... quantos Judas diariamente o traem recebendo-o num coração impuro!... quantas blasfêmias, insultos e ultrajes de toda a espécie!... quantos infelizes o flagelam com a torpeza vergonhosa da sua vida!... quantos Herodes, por orgulho e estupidez, o ridicularizam!... quantos Pilatos, por covardia ou politica e respeito humano, o condenam à morte!... quantos cegos e insensatos a preferir Barrabás e a gritar: Nolumus hunc regnare super nos! Crucifige, crucifige eum!...


2.º Qual de nós, irmãos caríssimos, ousará considerar-se inocente e dizer que nunca renovou nenhuma das dores do nosso boníssimo Salvador?... Innocens ego sum a sanguine Iusti huius...


Ó meu Jesus, misericórdia!... Eu choro não só por amor de Vós, mas, sinceramente arrependido, também por mim mesmo, conforme a vossa exortação: Super vos ipsas flete,... e a do vosso servo São Boaventura: “Potius debet peccator flere vulnera animæ, pro quibus patitur Christus, quam vulnera quæ corpus Christi patitur”. Concedei-me, Senhor, a graça de detestar todos os meus pecados e de antes morrer que ofender-vos de novo.


III - O pecado neutraliza-os frutos da Paixão.

1.º Nosso Senhor queixa-se, pela boca dos Profetas, da inutilidade dos seus sofrimentos quanto a muitos infelizes pecadores: Quæ utilitas in sanguine meo, dum descendo in corruptionem?... In vacuum laboravi sine causa, et vane, fortitudinem meam consumpsi! (Salmo XXXIX, 10; Is., XLIL, 4)...


Seguramente que não foi das suas menores dores ver que inúmeras almas haviam de resistir às preferências de amor que o seu coração lhes oferece e abusariam dos méritos da sua Paixão... Ierusalem, Ierusalem, exclama ele de novo, quoties volui congregare filios tuos,... et noluisti! (Mat., XXIII, 37).


2.º E a multidão das almas endurecidas?!... São milhões de infiéis aos quais, há séculos, é oferecida a luz do Evangelho e a repelem, que se recusam a ouvir a palavra divina para se não converterem e adorarem Jesus!... Tota die expandi manus meas ad populum non credentem et contradicentem!...


3.º Mais doloroso é ainda que, entre os povos cristãos, haja tantos hereges, cismáticos, apóstatas, e renegados que preferem o jugo férreo de Satanás ao jugo suave e leve de Jesus: Quem vultis dimittam vobis?

- Barabbam!

- Quid igitur faciam de Iesu?

- Crucifigatur!...


Quantos pecadores, obstinados, surdos a todas as advertências da graça, a todas as exortações dos ministros do Senhor, mesmo até à ação fulminante que a Justiça divina exerce junto deles!...


... E continuam a entregar-se desenfreadamente a todos os excessos da paixão, a calcar o sangue de Jesus: Sanguis eius super nos et super filios nostros!...


Desgraçados insensatos, que terão um juízo tanto mais severo quanto maior tiver sido o abuso da graça e da paciência de Deus...


Ah! quantos párocos, a respeitos dos fiéis confiados à sua solicitude pastoral, poderão com o Apóstolo lamentar que há muitos de quem muitas vezes vos falei e também agora vos falo com lágrimas, os quais procedem como inimigos da cruz de Cristo; o fim deles é a perdição, cujo Deus é o ventre; e fazem consistir a sua glória na sua própria confusão, gostando somente das coisas terrenas (Filip., III, 18, 19).


Conclusão. - Irmãos caríssimos, que poderá dizer-se de nós?... Seremos nós do número daqueles que, pela sua má vida, renovam a Paixão de Nosso Senhor ou que, pelo seu endurecimento, inutilizam o valor dos seus sofrimentos?... Pensemos um pouco e seriamente no perigo de perder-se e nas contas tremendas que esses tais terão de prestar no tribunal de Deus!... Usquequo non vis subici mihi? (Ex., X, 3).


Que nós, ao menos, não tomemos parte em rebelião tão perigosa e nos convertamos sinceramente. Com Pedro e Madalena choremos a vida passada, peçamos perdão, como o Publicano e o bom Ladrão; reparemos pelos nossos irmãos.


E hoje, aos pés de Jesus, formemos a resolução firme de viver santamente, de maneira digna de Deus, para que os méritos de Nosso Senhor nos sejam aplicados e abram as portas do Céu. Amém.





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