• Apostolado FERR

A parábola do semeador explicada



DOMINGO DA SEXAGÉSIMA

A parábola do Semeador



EVANGELHO

(Lc 8,4-15)

Sequéntia sancti Evangélii secúndum Lucam

IN illo témpore: Cum turba plúrima convenírent, et de civitátibus properárent ad Jesum, dixit per similitúdinem: «Exiit, qui séminat, semináre semen suum: et dum séminat, áliud cécidit secus viam, et conculcátum est, et vólucres cæli comedérunt illud. Et áliud cécidit supra petram: et natum áruit, quia non habébat humórem. Et áliud cécidit inter spinas, et simul exórtæ spinæ suffocavérunt illud. Et áliud cécidit in terram bonam: et ortum fecit fructum céntuplum.» Hæc dicens clamábat: «Qui habet aures audiéndi, áudiat.» Interrogábant autem eum discípuli ejus; quæ esset hæc parábola. Quibus ipse dixit: «Vobis datum est nosse mystérium regni Dei, céteris autem in parábolis: ut vidéntes non vídeant, et audiéntes non intélligant. Est autem hæc parábola: Semen est verbum Dei. Qui autem secus viam, hi sunt qui áudiunt: deínde venit diábolus, et tollit verbum de corde eórum, ne credéntes salvi fiant. Nam qui supra petram: qui cum audíerint, cum gáudio suscípiunt verbum: et hi radíces non habent: qui ad tempus credunt, et in témpore tentatiónis recédunt. Quod autem in spinas cécidit: hi sunt, qui audiérunt, et a sollicitudínibus, et divítiis, et voluptátibus vitæ eúntes, suffocántur, et non réferunt fructum. Quod autem in bonam terram: hi sunt, qui in corde bono, et óptimo audiéntes verbum rétinent, et fructum áfferunt in patiéntia.»


Continuação do Santo Evangelho segundo São Lucas.

NAQUELE tempo, tendo-se reunido muito povo, e como os habitantes de várias cidades tivessem ido a Jesus, propôs-lhes Ele está parábola: Saiu o semeador a semear sua semente; e ao semeá-la, parte caiu junto ao caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra parte caiu sobre a pedra, e quando nasceu, secou logo, por não haver umidade. Outra «parte caiu entre os espinhos, e os espinhos, nascendo com ela, a sufocaram. E outra parte caiu em boa terra, e depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Seus discípulos perguntaram-Lhe, pois, que significava essa parábola. E Ele lhes respondeu: A vós é dado conhecer o Mistério .do Reino de Deus, porém aos outros se fala em parábolas, para que, olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. Este é, pois, o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho, são os que a ouvem, mas vindo depois o diabo, tira-lhes a palavra do coração, para que se não salvem, crendo nela. Os de sobre a pedra, são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram; porém estes não têm raízes; até certo tempo creem, mas no tempo da tentação, desviam-se. A que caiu entre os espinhos: são estes os que ouviram, porém indo, afogam-se com cuidados, riquezas e deleites da vida e não dão fruto. E a que caiu em boa terra: são os que, ouvindo a palavra, guardam-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência.



EXPLICAÇÃO


I - Que notais neste Evangelho?

É extraído de S. Lucas e contém a bela parábola da semente que S. Mateus (XIII, 3) e S. Marcos (IV, 2) nos dão também com algumas variantes de pormenor muito ligeiras. Pode dividir-se em três partes, das quais a primeira contém a exposição da parábola; a segunda a pergunta dos Apóstolos, e a razão pela qual N. Senhor se serve deste gênero de ensino; e a terceira a explicação que o próprio Salvador dá desta parábola a seus discípulos.


II - Que quer dizer: “Cum turba multa convenirent, etc.”?

Admiremos o entusiasmo deste povo em seguir a Jesus para ouvir a sua doutrina. As multidões eram tão numerosas que, segundo S. Mateus e S. Marcos, o Salvador teve de subir a uma barca, e de lá falar a todo o povo aglomerado sobre a margem; era perto de Cafarnaúm.


Bela lição para os cristãos de hoje, muitas vezes tão negligentes e preguiçosos em ir ouvir a palavra de Deus e aprender os seus deveres mais graves! N. Senhor instrui também os seus ministros a não desprezarem ocasião nenhuma de se fazerem ouvir, para esclarecerem e alimentarem as almas.


O Salvador, falando em parábolas e acomodando os seus discursos ao alcance dos ouvintes, faz lembrar, segundo o piedoso Ludolfo Cartuxo, o pai de família, prudente e magnífico, cuja mesa, abundantemente servida, oferece a todos os comensais alimentos sadios e variados. Aproximemo-nos, também nós, como aquele povo, aproximemo-nos do Verbo encarnado, da Sabedoria divina e infinita que, exprimindo-se sob a forma misteriosa das parábolas, nos exporá verdades que o mundo não conhecia.


III - Que dizer desta parábola da semente?

É, de todas as parábolas de N. Senhor, uma das mais importantes e instrutivas; porque contém em figura o mistério da Encarnação, a obra da pregação evangélica, e toda a economia da nossa salvação. Faz-nos ver, de um lado, a bondade inefável de Deus abaixando-se até nós, e semeando a sua palavra e a sua graça com uma liberalidade sem limites; e, do outro lado, a dureza e ingratidão dos homens, dos quais a maior parte são infiéis e inutilizam os dons de Deus. - Mostra ainda a sua importância o cuidado caritativo de N. Senhor em explicá-la por si mesmo aos seus discípulos, o que só fez com esta e com a parábola da cizânia (5.º domingo depois da Epifania).


IV - Que significam as palavras: “Hæc dicens clamabat: Qui habet aures audiendi, audiat”?

Ao terminar a exposição da sua parábola, N. Senhor pôs-se a clamar: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!


E clama assim para chamar a atenção dos seus ouvintes e fazer-lhes ponderar a gravidade da lição que acaba de dar sob o símbolo da semente. Também quer, segundo S. Jerônimo, levar-nos a aprofundar a sua narração, tão simples na aparência, para dali deduzirmos doutrina exata e vivificante; porque da compreensão desta parábola dependem a perfeição e a salvação.


Por estas palavras ensina-nos Nosso Senhor a pôr: 1.º grande zelo em vir ouvi-lo; 2.º religiosa atenção em escutá-lo; 3.º grande fervor em pedir-lhe a compreensão da sua palavra e a graça de tirar bom proveito dela.


V - Qual foi a pergunta dos Apóstolos?

Primeiramente, note-se que foi pelo fim da tarde, depois de Jesus ter entrado em casa, que os Apóstolos pediram lhes desse algumas explicações. - Segundo S. Mateus (XIII, 10), perguntaram ao Salvador por quê falava em parábolas: Quare in parabolis loqueris? E, segundo S. Marcos (IV, 10), e S. Lucas (VIII, 9) desejaram somente que lhes explicasse a parábola da semente: Interrogabant quæ esset hæ parabola. Estas duas perguntas foram evidentemente feitas ao mesmo tempo, pois que, segundo os três Evangelistas, N. Senhor responde a ambas.


À primeira, porque se servia de linguagem parábolica, Jesus responde: A vós foi dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas quanto aos outros, não se lhes fala senão em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não compreendam? Que quer dizer N. Senhor com isto?


N. Senhor não dá uma das razões gerais que o levam a recorrer às parábolas, a qual era insinuar-se mais suavemente na alma dos simples e humildes, excitar mais vivamente a atenção e o desejo de conhecer o sentido misterioso, tornar mais sensíveis e mais fáceis de saborear as verdades ocultas sob aquele invólucro. Este método de exprimir-se em figuras nunca o abandonou. Encontramo-lo até no Sermão depois da Ceia, mesmo no caminho do Calvário, nas poucas palavras dirigidas às piedosas mulheres e, depois da sua Ascensão, quando deita por terra Saulo no caminho de Damasco.


Mas dá aqui uma razão particular que o induz a falar em parábolas, quando se dirige a ouvientes endurecidos que desprezam a sua palavra e que lhe resistem, não se aproveitando dela. (Ver sexto domingo depois da Epifania).


A vós, que tendes fé e desejo sincero de aprender, diz o Salvador a seus discípulos, é dado penetrar na ciência do reino dos Céus e admirar desde este mundo o esplendor desse reino. Mas os outros, orgulhosos e endurecidos, tornaram-se indignos do mesmo favor, porque, por culpa sua, não têm fé, nem mesmo o desejo de conhecer a verdade: Vobis est datum, illis non est datum. E este véu, lançado sobre o seu espírito, esta privação da graça é justa punição da sua infidelidade: Qui enim habet, dabitur ei, et abundabit; qui autem non habet, et quod habet auferetur ab eo (Mat., XIII, 12).


Grave resposta, que nos explica o mistério do endurecimento dos pecadores, castigo dos que desprezam a palavra santa, dos que fecham os olhos à luz e resistem à graça, e não querem ver bem compreender com medo de se converterem e de serem curados! Deus pune o desprezo da sua graça, retirando-a; e a infidelidade e a condenação hão-de ter por causa verdadeira a obstinação desdenhosa e soberba: Despexistis omne consilium meum, et increpationes meas neglexistis; ego quoque in interitu vestro ridebo et subsannabo (Prov., I, 25 e 26).


À segunda pergunta: Quæ est hæc parabola? o Salvador responde com bondade e condescendência infinitas, dignando-se dar uma explicação tão clara e tão justa, “que carece de qualquer comentário”, diz S. Gregório. “O Senhor, acrescenta o mesmo Santo, digna-se explicá-la, a fim de que nós aprendamos a encontrar por nós mesmos, o sentido das coisas que ele não nos explicou com a sua boca”.


Familiarizados desde a nossa infância com as parábolas do Evangelho, cuja significação nos foi dada muitas vezes, estranhamos que os discípulos não tenham compreendido imediatamente os mistérios ocultos sob o véu da semente. Mas, se estivéssemos no lugar deles, havemos de concordar que não teríamos avançado mais do que eles e também teríamos pedido ao Senhor que se dignasse esclarecer-nos.


Ó Jess ajudai-nos a ouvir, com atenção, fé e amor, estas palavras de vida tão abundante e tão capazes de estancar a sede das nossas almas; dai-nos a graça de as compreender bem e de as aproveitar para nosso progresso espiritual e para a nossa eterna salvação: Si quis sitit, veniat ad me, et bibat... Verba quæ ego locutus sum vobis, spiritus et vita sunt... Domine, verba vitæ æternæ habes... Os meum aperui, et attraxi spiritum.


VI - Que significam estas primeiras palavras: “Exiit qui seminat, seminare semen suum”?


Para respondermos, consideremos quem é o semeador, e que semente é esta.

1. - Quem é o semeador? é Deus: Multi fariam multisque modis olim Deus loquens patribus in Prophetis, novissime in diebus istis locutus est nobis in Filio (Hebr., I, 1 e 2).


É portanto o próprio Verbo, o Filho de Deus que, quando chegou o tempo marcado, saiu do seio do Pai e desceu ao meio de nós: Exivi a Patre et veni in mundum... “Verbum supernum prodiens, nec Patris liquens dexteram, ad opus exiens venit...” Desceu à terra, in terris visus est;... et habitavit in nobis, para semear em nossos corações e fecundá-los, para lançar neles a semente do seu Evangelho, isto é, para reverlar-nos os mistérios do reino dos Céus, para derramar em nós as suas graças e as suas misericórdias, e para transformar os homens, de terrenos e estéreis que eram, em homens celestes, capazes de produzirem frutos de santidade dignos da vida eterna.


2. - Qual é a semente? Jesus no-lo diz: Semen est verbum Dei. É a palara de Deus, é N. Senhor, pois que o Verbo de Deus é, ao mesmo tempo, semeador e semente depositada nos sulcos das nossas almas. ”O res mirabilis”! Ele se semeia por assim dizer a si mesmo em nós, pela sua doutrina divina, pela comunicação da sua vida e pelas suas santas inspirações, pelos seus Sacramentos, sobretudo pela adorável Eucaristia. Com efeito, na obra prima do seu amor, dá-se todo a nós e torna-se para as nossas almas, um princípio de santificação, de divindade, de imortalidade: Divinæ consortes naturæ.


Nosso Senhor é ainda semeado pela pregação dos Apóstolos e de todos os seus sucessores legítimos de todos os tempo e de todos os lugares, isto é, pelo ensino, legislação e Liturgia da Igreja católica e apostólica; pelos bons livros, pelos exemplos dos santos, numa palavra, pela multidão dos meios que a sua sabedoria sabe empregar em fertilizar as almas, e fazer-lhes dar frutos de santidade e de salvação.


Semen est verbum Dei. Quem poderia exprimir o preço e a virtude desta divina semente? que graça e que força íntima e oculta ela possui para regenerar o mundo e santificar os homens!... Foi por esta palavra que Deus tudo criou do nada: Omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil. Foi ela que extirpou os vícios grosseiros do paganismo, purgationem peccatorum faciens, e que fez florir por toda a parte as belas virtudes do Cristianismo: Iam hiems transiit... flores apparuerunt in terra nostra. Ela conserva sempre a mesma eficácia soberana; e, se é mais ou menos frutuosa, isso provém das nossas disposições.


Santo Agostinho e muitos outros doutores ilustres chamam à pregação um grande sacramento; “Verbum Dei... magnum sacramentum”. Não quer isto dizer que seja um sacramento no sentido teológico da palvra, mas participa muito da sua natureza.


Eis como: tendo o Verbo incarnado descido à terra para instruir e salvar os homens, devia necessariamente manifestar-se a eles por toda a parte e sempre. Ora, não podendo permanecer sempre na terra, nem estar em toda a parte, tal como viveu entre os Judeus, conversando com eles, deixou à terra três espécies de sacramentos: a Eucaristia, pela qual habita no meio de nós na verdade da sua carne; o Batismo, a Penitência e os outros sacramentos propriamente ditos, pelos quais habita no meio de nós na verdade da sua graça; e a pregação, pela qual habita no meio de nós na verdade da sua palavra. (Cardeal Pie, Oeuvres sacerdotales).


Ó maravilhas de Deus! Quão imensa é a bondade do divino Semeador, que não se cansa de espalhar a sua celestial semente! Qual não deveria ser, por consequência o nosso reconhecimento, e a efusão do nosso amor? E, todavia, a maior parte dos homens é rebelde à sua palavra e às suas graças, e recusa aproveitar-se delas!...


VII - Porque razões compara N. Senhor a palavra de Deus à semente?

O doutor Carnélio a Lapide apresenta várias, fundadas em certas analogias entre a cultura, o crescimento e as condições de desenvolvimento da semente, e a recepção, atuação e frutos da palavra divina nas almas. Eis as principais dessas razões:

1. - A palavra de Deus é espalhada e semeada pela boca do pregador, como a semente é semeada pela mão do lavrador.

2. - É recebida no coração daqueles que a ouvem, como a semente no seio da terra, para ali germinar e frutificar.

3. - Produz as boas obras como a semente os frutos.

4. - Sem ela, a alma do homem não pode produzir senão frivolidades e vícios, como a terra sem a semente não produz senão silvas e espinhos.

5. - Não frutificar senão nas almas puras, humildes boas, como a semente não dá frutos senão na terra úmida, profunda e desembaraçada dos espinhos e de todas as ervar ruins.

6. - Para que frutifique, é necessário preparar a alma pela penitência, mortificação e desapego, do mesmo modo que é necessário preparar e adubar a terra para que a semente aí germine se desenvolva.

7. - Além disso, a alma precisa do rócio da graça e dos santos ardores da caridade, do mesmo modo que a terra precisa de chuva e de sol.

8. - Enfim, a palavra de Deus produz na alma trinta, sessenta ou cem, segundo a abundância das graças recebidas, ou segundo o grau de fidelidade e de generosidade da alma, como a semente produz em boa terra mais ou menos, segundo a qualidade do solo ou o cuidado do trabalhador.


Recordemos que S. Paulo se serve também desta figura célebre da semente para rpvoar (I Cor. XV, 36) o dogma da ressureição dos corpos: Tu quod seminas non vivificatur, nisi prius moriatur. Do mesmo modo que, diz ele, a onipotente palavra divina deu à semente a virtude de produzir uma vida nova, no seio da podridão em que primeiro se desfaz na terra: assim, esta mesma palavra, por sua onipotência, pôs em nossos corpos a virtude, o germe da mortalidade, para que possa, no fim dos tempos, ressuscitar do seio do pó a que eles foram reduzidos.


VIII - Que significam os diferentes terrenos em que cai a semente?

Significam os corações dos homens que receberam a palavra divina, com muito diversas disposições, como Nosso Senhor no-lo faz ver na sua própria explicação.


IX - Qual é a primeira espécie de terreno?

Aliud cecidit secus viam, et conculnatum est, et volucres cœli comederunt illud. “A semente que cai ao longo do caminho, segundo a própria interpretação de N. Senhor, designa aqueles que ouvem a palavra; mas em seguida vem o demônio que lhes retira essa palavra do coração com medo de que, crendo, se salvem”.


Secus viam. Esta classe de homens é a das almas dissipadas, levianas, frívolas, preguiçosas; corações indiferentes, semelhantes a uma estrada larga, onde o rupido é ensurdecedor, o terreno muito batido e endurecido sob os pés dos viandantes que passam em todos o sentidos.


Conculnatum est. A palavra de Deus depressa é calcada e esmagada pelas paixões más, o orgulho, os ressentimentos, os ódios, etc... Ou não é acolhida por essas almas dissipadas e endurecidas, ou só é ouvida com desdém e indiferença.


Et volucres cœli comederunt illud. O demônio que ruge incessantemente em volta de nós, rouba esta semente; semelhante nisto às aves do céu, que, no tempo das sementeiras, comem os grãos que não ficam cobertos pela terra. “Ora, exclama S. João Crisóstomo, pergunto-vos: de quem é a culpa, se o demônio rouba esta semente, ou se o pecador endurecido não a quer esconder em seu coração, como num sulco? Se alguém arromba a porta para penetrar no interior duma casa, é um ladrão. Mas, tratá-lo-ieis de ladrão, se ele levasse o que encontra exposto ou deitado fora dessa casa?”


Quantos pagãos, e mesmo cristãos, nos quais a palavra de Deus não penetra, porque recusam ouvi-la, ou a ouvem com negligência e desprezo, porque são muitos carnais! O demônio está junto deles, atento e vigilante, para devorar imediatamente a boa semente, isto é, para impedi-los de crerem, de se converterem, de levarem uma vida santa, e de se salvarem.


Esta classe de homens é a pior de todas e a mais culpável. Os Judeus, repelindo os enviados de Deus e até mesmo o seu próprio Filho, são os tipos mais acabados dessa classe; o mesmo acontece com Faraó, com Pilatos que pergunta a Jesus: Quid est veritas, mas não espera a resposta; com Agripa, dizendo ironicamente a S. Paulo, que lhe havia exposto a divina doutrina: In modico suades me christianum fieri.


X - Qual é a segunda espécie de terreno?

Et aliud cecidit super petram, et natum aruit, quia non habebat humore. Quer dizer, segundo a explicação de Nosso Senhor: A que cai sobre terreno pedregoso, desgina aqueles que, tendo ouvido a palavra de Deus, a recebem com alegria. mas, como não têm raízes, não crêem senão por algum tempo e, no momento da tentação, retiram-se e sucumbem.


Super petram.Esta classe de homens é a das almas superficiais que, ouvindo a palavra de Deus, a recebem com alegria, isto é, começam a converter-se, formam as mais belas e úteis resoluções, e parecem prontas a tudo para Deus. Mas falta-lhes vontade firme e séria: não há nelas senão vaidade, presunção e inconstância, temporales sunt; não têm raízes assas profundas; não são in fide et charitate fundati et radicati... Non habent humorem. Não têm suficiente fundo de humildade, de desconfiança de si mesmas e de confiança em Deus. Por isso, a mais pequena tentação as abala; as cruzes desta vida, as tribulações, algumas leves perseguições pela justiça e pela fé, as prostram e fazem perecer à sua virtude sem raízes; sucumbem, deixam o caminho direito, e acabam por se afastar miseravelmente. Os exemplos desta categoria são numerosos: tais foram Balaão, Judas, o jovem do Evangelho; tais ainda os discípulos que abandonaram o Salvador, murmurando contra ele e achando duras as suas palavras; Durus est hic sermo, et quis potest eum audire?Lede também S. João, VI, 24-37.


Meu Deus, quantos ainda vemos todos os dias, entre os nossos neófitos, os nossos catecúmenos e até entre os antigos cristãos, cuja fé é tão hesitante!


XI - Qual é a terceiras espécie de terreno?

Et aliud cecidit inter spinas, et simul exortæ spinæ suffocaverunt illud. Quer dizer, segundo a explicação do Salvador: A que cai entre os espinhos, figura aqueles que ouviram a palavra, mas em que ela foi dentro de pouco tempo, abafada pelos cuidados e embaraços de século, pela ilusão das riquezas, pelos prazeres do mundo e pelas outras paixões, de sorte que não produzem fruto nenhum.


Inter spinas. Esta categoria é a das almas dividias, embaraçadas pelos prazeres e pelos bens da terra, que quereriam servir ao mesmo tempo a Deus e a Mamona. A sede insaciável das riquezas, das honras e dos prazeres abafa a boa semente nestes corações carnais ou terrestres, isto é, destrói neles todos os bons sentimentos, a vontade de trabalhar na salvação, e mesmo todos os pesares ou remorsos que a palavra de Deus faz brotar neles.


Com razão os embaraços do século e as riquezas são comparadas aos espinhos; como estes, picam o coração de mil maneiras, pelos desejos, os temores, as inquietações, as penas, as invejas, algumas vezes, as injustiças; e quanto é difícil livrar-nos disto! Quam difficile qui pecunias habent in regnum Dei intrabunt!


Não estão aqui representados tantos cristãos de hoje, que desprezam os seus deveres religiosos, esquecem o cuidado da sua alma e se perdem, por causa da solicitude exagerada, febril, das coisas deste mundo, e da procura desenfreada dos bens e dos prazeres da terra? Pobres insensatos! Por quê abandonar as fontes de água viva, para beber nas fontes envenenadas do mundo?


“É culpa deles, diz S. J. Crisóstomo, deixar crescer assim esses funestos espinhos, que lhes tiram o tempo de orar e de assegurar a sua salvação”!


XII - Qual é a quarta espécie de terreno?

Et aliud cecidit in terram bonam, et ortum fecit fructum... Quer dizer, segundo a explicação do Salvador: A que cai em terra boa, são aqueles que tendo ouvido a palavra, a conservam num coração bom e excelente, e produzem frutos pela paciência.


In terram bonam. A esta categoria pertencem as almas bem preparadas, as almas humildes e piedosas, libertas dos laços do pecado, cheias de generosidade, desapegadas das coisas do mundo, e ávidas de agradar a Deus, de o servir e de o glorificar.


Estas almas ouvem a palavra de Deus com atenção, respeito e amor, como os pastores e os Magos no presépio, e Maria Madalena aos pés do Salvador: Secus pedes Domini, audiebat verbum illius. Conservam piedosamente esta palavra em seu coração e a fecundam pela meditação contínua, como fazia a SS.maVirgem: Maria autem conservabat omnia verba hæc, conferens in corde suo.


O seu coração é, pois, verdadeiramente semelhante a uma terra boa e fértil, em que a palavra de Deus germina sem obstáculo, se desenvolve, e produz os mais belos frutos de verdade e de santidade: Deo per omnia placentes, in omni opere bono fructificantes. - Produzem frutos pela paciência, isto é, são obrigados, para se santificarem, a vigiar, trabalhar, sofrer, combater sem cessar, porque esta é a nossa condição neste mundo: Militia est vita hominis super terram. Patientia opus perfectum habet. In patientia vestra possidebitis animas vestras.


Estas almas generosas são a terra fértil que dá o cêntuplo. S. Mateus diz: Aliud trigesimum, aliud sexagesimum, aliud centesimum; isto é, entre estas almas fiéis, umas produzem trinta por um, outras sessenta, outras cem, segundo a proporção dos talentos e das graças recebidas, ou segundo a perfeição da cultura, ou segundo os diversos graus da sua caridade para com Deus.


XIII - Que reflexões vos sugere esta parábola?

1. - Santo Ambrósio dá-nos esta bela e preciosa lição, tirada da natureza da semente, que se reproduz sempre, secundum genus suum: “Praza a Deus, diz ele, que nós imitemos esta erva, e que a nossa semente seja idêntica à natureza que nos é própria! Tu não ignoras, ó homem, a quem te deves assemelhar, tu que Deus criou à sua imagem. Pois quê! a erva permanece fiel à espécie que é a sua, e tu és infiel à tua origem celestial! O grão de trigo lançado à superfície do solo não degenera, e tu degeneras! Nenhuma coleita ousa desmentir a sinceridade da sua semente, e tu violas a pureza da tual alma, o vigor do teu espírito, a castidade do teu corpo!”.


2. - Se todo o cristão fosse esta terra tão boa e tão excelente, em que a palavra divina frutifica superabundantemente, e algumas vezes até ao cêntuplo, que glória adviria para Deus, que consolação e alegria para a Igreja, sua Mãe, que felicidade para o próprio! Sem dúvida, Nosso Senhor não quis dizer que, de ordinário, cada um dos três primeiros terrenos recebe tanta semente como o quarto; e, além disso, na produção deste, o semeador encontra, de fato, uma certa compensação do seu trabalho e o meio de cobrir uma parte das suas despesas. Todavia, do conjunto da parábola, aplicada aos homens, resulta que mutíssimos de entre eles permanecem, infelizmente, até ao fim, semelhantes a essas primeiras terras, nas quais a semente se perdeu.


Em quatro espécies de terrenos, três são maus e estéreis; um só é bom e produz frutos. Triste imagem do que acontece todos os dias com tantas almas cujas más disposições esterilizam a palavra de Deus e a sua graça! Os homens laxos e os preguiçosos deixam perder a divina palavra pela sua indiferença, ou desprezam-na e mofam dela; os ricos e os voluptuosos abafam-na, pensando apenas nos prazeres e nos bens terrenos. Mas todos se expõem à condenação visto que toda a árvore que não dá bons frutos, será cortada e lançada ao fogo. E ainda: Servum inutilem eiicite in tenebras exteriores. Mistério tremendo que confirma a terrível sentença que se lê no fim do Evangelho do domingo último: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi!


3. - Mais algumas reflexões de S. João Crisóstomo: Quanto é admirável a bondade do Semeador celeste, que distribui a todos largamente a semente da palavra, como cuida da sua vinha, sem distinção de rico ou de pobre, de sábio ou de ignorante, de bom ou de mau, apesar de saber a difrença que haverá no resultado final: Mas depois terá o direito de dizer: Que pude eu fazer à minha vida que não tenha feito?


Se a maior parte desta semente parece perdida, não acuseis de inabilidade o semeador mas a má qualidade da terra; porque neste campo das almas e das doutrinas, é possível a pedra tornar-se terra pingue, ao caminho deixar de ser pisado, e aos espinhos serem arrancados. A palavra divina tem, com efeito, a virtude maravilhosa de mudar, de transformar os corações, de ressuscitar e salvar as almas. Foi para isso que o Verbo de Deus se fez carne; e, se estas maravilhas não se realizam uma e muitas vezes, atribua-se a causa à malícia dos homens, que tapam os ouvidos e fecham os corações.


Nosso Senhor quis também, por meio desta parábola, dar uma grande lição de paciência aos seus ministros e sustentar o seu zelo, ensinando-lhes a não se indignarem contra as almas, se não alcançam logo o fastígio da perfeição. Nunca desanimem os pregadores, nem mesmo quando seja muito restrito o número das almas que, fielmente, deixam em si fecundar a semente divina.


Longe de se deixarem abater, deem prova de perseverança, pois que a palavra do Mestre também não teve resultado universal. O conhecimento certo que ele tinha, não o impediu de lançar a sua divina semente e de dizer aos Apóstolos: Euntes in mundum universum , prædicate Evangelium omni creaturæ... Euntes docete omnes gentes.


O Apóstolo diz-nos também: Prædica verbum; insta opportune, importune; argue, obsecra, increpa in omni patientia et doctrina. Além disso, pregando, se o faz com santo zelo, o semeador apostólico cumpre o seu munus, ainda mesmo que todos os corações fiquem duros e infrutuosos. Porque “Deus não nos ordena vencer, mas combater”; não nos obriga ao êxito, mas ao trabalho.


XIV - Que conclusão prática devemos tirar de tudo o que acaba de dizer-se?

1. - Felizes aqueles que Nosso Senhor escolheu para seus arautos, aos quais confia a divina missão de semear a palavra evangélica em seu nome, isto é, de o semear a ele mesmo nas almas, em toda a terra! Esses são verdadeiramente seus minitros, e os dispensadores dos Mistérios de Deus. Sed iam quæritur inter dispensatoresm ut fidelis quis inveniatur? Hão-de pois ser santos, porque fazem o ofício e ocupam o lugar do celeste Semeador: Pro Christo legatione fungimur. E semeiem a boa semente, isto é, preguem Jesus Cristo: Non nosmetipsos prædicamus sed Iesum Christum Dominum Nostrum. Prædicamus Christum crucifixum. Tratem a palavra santa com amor e zelo, com coragem e perseverança: Verbum Dei non est alligatum. Prædica verbum... opportune, importune; argue, obsecra, increpa, in omni patientia et doctrina... “Estote verbi Dei relatores, habituri, si fideliter impleveritis officium vestrum, partem cum iis qui verbum Dei bene administraverunt ab initio” (PONTIF.de ordinatione Lectorum).


2. - Tantos que somos, examinemo-nos todos diante de Deus. Que tem sido o nosso coração até aqui? que frutos tem produzido em nós a palavra de Deus? Quanto o divino Semeador tem sido bom, paciente liberal conosco!


Pensemos muitas vezes nestas palavras do Apóstolo: Quando uma terra embebida das águas da chuva, que cai com frequência sobre ela, produz ervas úteis àqueles que a cultivam, então recebe a benção de Deus. Mas quando não produz senão silvas e espinhos, então é reprovada e está vizinha da maldição, e no fim será consumida pelo fogo (Hebr. VI, 7-8).


Roguemos, pois, a N. Senhor que nos ajude a virmos a ser terra boa, arrancando do coração, por uma mortificação contínua, os espinhos das riquezas, das paixões, dos prazeres, e tornando-nos mais sérios, mais humildes, mais atentos em receber bem a palavra de Deus, e em fazê-la frutificar em nós segundo os desejos do divino Mestre.



MISSA DO DOMINGO DA SEXAGÉSIMA


Por Padre Thiriet: PLANOS DE HOMILIAS, 1953.



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