• Apostolado FERR

A predição da Paixão (Homilia)



HOMILIA

A PREDIÇÃO DA PAIXÃO

Ecce ascendimus Ierosolymam et consummabuntur

omnia quæ scripta sunt per Prophetas de Filio hominis.


Na véspera de entrarmos na santa Quaresma, tempo de penitência e de lágrimas, a Igreja recorda-nos esta notável referência que muito tempo antes nosso Senhor fez à sua futura Paixão... É que nada é tão próprio para detestarmos, evitarmos, e expiarmos o pecado como a recordação viva das dores e da morte de Jesus Cristo.


“Se tivermos cuidado em meditar muitas vezes na Paixão do Senhor, diz Santo Agostinho, não há sofrimentos que não estejamos dispostos a suportar com paciência”.

Consideremos os três principais motivos pelos quais Jesus Cristo predisse a sua paixão.


I. - Para nos mostrar o seu amor e robustecer a nossa fé.

1. - Por muitas vezes já nosso Senhor tinha falado da sua Paixão... O seu amor pelos homens fazia-lhe desejar ardentemente a consumação do seu sacrifício: Baptismo habeo baptizari: et quomodo coarctor, usquedum perficiatur?...


O tempo aproxima-se e ele fala novamente dela aos Apóstolos, precisando os principais tormentos que devia sofrer, a fim de os fortificar na fé, fazendo-lhes ver: a) que nada aconteceria que ele não soubesse; b) que sofria voluntariamente, segundo a declaração que anteriormente tinha feito: nemo tollit animam meam a me; sed ego pono eam a meipso, et potestatem habeo ponendi eam. E termina profetizando a sua ressurreição que, igualmente, se dará por efeito da sua onipotência, como já tinham anunciado também: Pono animam meam, et potestatem habeo iterum sumendi eam... Esta profecia devia ser para eles, do mesmo modo que o seus milagres, uma prova evidente da sua divindade e devia preveni-los contra o escândalo da sua morte...


2. - Os Apóstolos nada compreenderam então... O véu que os impedia de perceberem o que Jesus lhes queria dizer não viria a cair senão depois da realização das mesmas profecias,... isto é, depois da Ressurreição. Mas nós, pelo menos, admirando a precisão dos fatos com que Jesus fala da sua Paixão e a coragem e o amor com que a espera, poderemos duvidar dele?... Lancemo-nos, pois, a seus pés, cheios de reconhecimento e de amor, digamos-lhe com toda a nossa alma: nós cremos, Senhor, mas tornar mais viva e mair ardente a nossa fé! Dominus meus et Deus meus! Adauge nobis fidem...


3. - Sem dúvida, ele estará junto de nós quando o pregarmos, tal qual esteve em Gethesêmani, no Pretório e no Calvário;... mas poderemos esquecer nós, os pregadores, a dolorosa profecia de S. Paulo: Verbum crucis pereuntibus stultia est; prædicamus Christum crucifixum... Gentibus stultitiam... Peçamos a Jesus que aumente ainda a nossa fé, para que o preguemos com mais fruto e que multiplique o número daqueles que, como nós, hão-de ter a felicidade de o confessar com o chefe dos Apóstolos: Tu es Christus Filius Dei vivi!...


II. - Para fortificar a nossa coragem.

1. - Um bom general tem sempre o cuidado de exercitar e animar os seus soldados antes da batalha e ele mesmo lhes dá o exemplo de coragem e ação... Ora, Nosso Senhor, infinitamente bom e sábio, anuncia antecipadamente aos Apóstolos os combates e as dificuldades que devia suportar e eles com ele. “Porque, diz S. Gregório, os dardos que se prevêem são mais fáceis de suportaram quando ferem”. Por isso advertiu-os para que se preparassem generosamente para sofrer por sua causa; e pouco depois, durante a Ceia, completava Jesus o que ainda poderia faltar às vivas exortações que tinha feito...


2. - Mas estes avisos do Salvador foram esquecidos pelos Apóstolos que, no tempo da prova, relicto eo, omnes fugerunt... Ora, que isto não aconteça conosco... A nossa vida terrena é um combate contínuo; mas, por isso mesmo que somos discípulos de Jesus Cristo, devemos resolver-nos a partilhar os seus sofrimentos e as suas cruzes... Haverá um instante em que Jesus deixe de ser perseguido e crucificado? Rursus crucifigentes sibimetipsis Filium Dei!


Não somos testemunhas das ignomínias, com que diariamente se aflige a Igreja, os seus ministros e os seus servos fiéis?...


Do mesmo modo que os Apóstolos em Jerusalém, no dia imediato ao Pentecostes, não forem hoje os verdadeiros cristãos pro nomine Iesu contumeliam?...


Se nos escandalizarmos e perdermos a coragem, seremos dignos de ser chamados seus discípulos?...


De resto, que motivos temos para nos admirarmos destes males e para nos deixarmos abater por eles?... Por isso que vós não sois do mundo e eu vos escolhi do mundo, o mundo vos odeia. Se ele me perseguiu, perseguir-vos-à também a vós... Não, não somos atacados de improviso... E todavia quantos cristãos não vemos covardes e cheios de medo, como os Apóstolos!...


Deixam-se surpreender tristemente e renegam a Jesus, ou abandonam-no vergonhosamente!... Não tem isto até agora sucedido conosco?

Peçamos a Jesus que nos fortifique para sermos mais generosos e prontos a segui-los até à morte...


Já que ele nos escolheu, escolhamo-lo também e digamos-lhe que, principalmente, quando ele prega a cruz e o sofrimento, merece que os seus verdadeiros amigos se unam a ele de preferência a tudo; Domine, ad quem ibimus? verba vitæ æternæ habes...


III. - Para nos fazer compreender que o caminho da cruz é o caminho do Céu.

1. Porque o homem prevaricou e se tornou o inimigo de Deus, a porta do Céu foi-lhe fechada para sempre.


A fim de pagar a nossa dívida que era infinita, de nos restituir à graça e de nos abrir o Céu, o Filho de Deus fez-se homem e tomou sobre si as nossas iniquidades: Vere languores nostros ipse tulit,... cuius livore sanati sumus.


Ele, a inocência e a santidade infinitas, poderia ter aceitado a alegria proposta pelo Eterno Pai; mas por amor de nós preferiu a cruz e os sofrimentos; Proposito sibi gaudio, sustinuit crucem, confusione contempta...


Do nascimento em Belém até ao Calvário, abrangendo a perseguição de Herodes e os contínuos ataques dos judeus, a sua vida foi uma verdadeira cruz e um verdadeiro martírio.


2. - Ora, se nós queremos ser glorificados com Jesus, isto é, que a sua Paixão nos aproveite e nos salve, é necessário sofrermos com Ele. É isto o que fazia o Apóstolo e o que queria ensinar-nos, quando, referindo-se aos seus sofrimentos, dizia: Adimpleo ea quæ desunt passionum Christi in carne mea...


Porque o associarmos as nossas provas às de Jesus será como que fazermos a aplicação dum verdadeiro remédio aos nossos males e às nossas chagas. Se o remédio, por melhor que seja, não for aplicado, que efeito pode produzir? Além disto, estando a cabeça coroada de espinhos, parecerá bem que os membros vivam na moleza?...


Qui vult venire post me, abneget semetipsum, et tollat crucem suam, et sequatur me...

Eis a regra, a condição essencial para entrar no Céu... É o que nos recorda Nosso Senhor em muitas passagens do Evangelho e especialmete hoje; é ainda o que os seus Apóstolos, nas Epístolas, nos recomendam com instância: Hoc sentite in vobis quod et in Christo Iesu...


3. - Mas que quer dizer ser crucificado com Jesus? Escutemos S. Paulo: Como Jesus Cristo crucificou em si a semelhança do pecado, para destruir o pecado em sua própria carne, assim nós devemos crucificar a nossa carne com seus vícios e concupiscências... E isto não uma vez só, mas sempre, toda a nossa vida:

a) aceitado de bom grado os sofrimentos e as cruzes próprias do nosso mode de vida: os pobres a pobreza, os enfermos a doença. etc., e todas as misérias acidentais de cada dia e que não dependem de nós; porque de tudo nós podemos, à vontade, tirar lucro, velando pelos nossos interesses espirituais, como homens diligentes e atentos;...

b) cumprindo com fidelidade e perseverança todos os deveres do nosso estado, apesar das dificuldades e do tédio; foi o grande e principal meio de santificação para os santos;...

c) impondo-nos, por vezes, algumas mortificações ou penitências, orações, jejuns, esmolas, etc.... As ocasiões de nos mortificamos certamente não nos faltarão... receemos antes que a falta seja nossa, por descuido ou negligência;...


Só assim seremos verdadeiramente discípulos de Jesus Cristo e poderemos esperar com fundamento de ir para o Céu com ele;... e o que ele dizia de si mesmo; oportuit pati Christum et ita intrare in gloriam suam ser-nos-à aplicado também.


Conclusão. - Este anúncio da Paixão, que Jesus Cristo fez aos seus discípulos, consideremo-lo como feito a nós mesmos. O seu fim é excitar na nossa alma, com a recordação dos seus sofrimentos e da sua morte, os mais profundos sentimentos de fé, reconhecimento e amor, uma generosidade maior e levar-nos a aceitar e suportar em união com ele todas as provações que se digne enviar-nos...


Caminhemos como bons soldados atrás do nosso Mestre e seremos coroados com ele. Amém.



MISSA DO DOMINGO DA QUINQUAGÉSIMA


Por Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIAS, 1953.




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