• Apostolado FERR

A santidade cristã (Homilia)




HOMILIA PARA O I DOMINGO DA PAIXÃO


A SANTIDADE CRISTÃ

Quis ex vobis arguet me de peccato?


Só podia falar assim com tanto desassombro aquele que que é inocência e a santidade por excelência, que é verdadeiro Cordeiro de Deus que veio apagar os pecados do mundo. “Tu solus sanc-tus, Iesu Christe”!...


Nós sabemos, porém, que a sua vontade é que seus filhos se lhe assemelhem. E desde que nos comunica a sua vida, nós deveríamos ser irrepreensíveis, a exemplo seu e por sua virtude, ut is qui ex adverso est vereatur, nihil habens malum dicere de nobis. Oh! é um mistério perpétuo a bondade de Nosso Senhor e a nossa malícia.


Consideremos: 1.º que Nosso Senhor Jesus Cristo é inocente e santo; 2.º que nós também o devemos ser; 3.º porque o não somos.


I. - Nosso Senhor é inocente e Santo.

1. - Pois, sendo Deus, tem um soberano horror a tudo o que é mal e pecado, e será ímpio e blasfemo, dizer que Deus pode pecar. O pecado não pode estar nele, pois ele é seu inimigo e veio para destruir o império de Satanás. Ele é o nosso Pontífice, santo, inocente, sem mancha; aquele que não conhecia o pecado, exclamava o Apóstolo, o Justo por excelência, o Santo dos Santos, Deus o tratou por amor de nós, como se ele tivesse pecado, a fim de nos tornarmos justos em sua presença.


2. - É impossível dizer tudo o que o Coração de Jesus teve de sofrer durante a sua vida terrena, à vista dos pecados dos homens, que ele via sob todas as formas e com toda a malícia que lhes é própria; à vista da indiferença de um tão grande número aos seus ensinamentos; à vista da ingratidão dos Judeus e do seu orgulho excessivo, dos defeitos dos Apóstolos, da traição de Judas e dos crimes e endurecimento dos pagãos. Para expiar todos estes pecados, ele sem cessar oferecia-se, qual manso cordeiro, a seu Pai eterno: Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.


3. - A sua obra santíssima era cumulada de toda a espécie de graças sobrenaturais e, cada página do Evangelho, nos mostra suas virtudes divinas, seu zelo por seu Pai, sua humildade, obediência, paciência e caridade infinitas. A regra da sua vida era a vontade de seu Pai: Quæ placita sunt ei, facio semper. Não podia querer nem fazer, aquilo que não era do agrado de Deus. Todos os seus pensamentos, desejos, palavras, juízos, ações eram conformes à vontade do Pai celeste, imago bonitatis illius... e, por isso, santo perfeito, objeto da admiração dos Anjos e digno de Deus. Hic est Filius meus dilectus in quo mihi bene complacui.


II. - Devemos ser santos.

Visto que Jesus é nosso Mestre e modelo, nós, como ele, devemos ser santos e inocentes.

1. - Porque Deus, diz S. Paulo, nos cumulou em Jesus Cristo de toda a espécie de bênçãos espirituais, elegendo-nos nele antes da criação do mundo a fim de que sejamos santos, sem mancha na sua presença, porque ele nos predestinou para nos tornar seus filhos adotivos por Jesus Cristo; no qual encontramos a redenção por seu sangue e a remissão dos pecados, segundo as riquezas da graça. Na qualidade, pois, de filhos de Deus, devemos ser santos e dignos de Deus: Hæc est voluntas Dei, et sanctificatio vestra. Resgatados com o preço do sangue de Jesus, pertencemos a Deus, deve-mos glorificá-lo e trazê-lo em nós.


2. - Como discípulos de Jesus Cristo devemos pisar as suas pegadas e imitá-lo procurando reproduzir em nós as suas virtudes. O Batismo constitui-nos:

a) templos de Deus; ora nós sabemos bem que o templo do Deus, três vezes santo, deve ser santo; domum tuam decet sanctitudo, Domine;...


b) filhos de Deus; e não têm os filhos obrigação de se assemelharem a seus pais? Se a nobreza impõe obrigações, quanto mais não as imporá a dignidade de que Deus nos revestiu?


c) incorporou-nos em Jesus Cristo; comunicou-nos a sua vida, porque somos seus membros e, por conseguinte, devemos ser puros e santos como ele: si radix sancta, et rami...

O que Deus Pai dizia aos filhos de Israel, di-lo também a nós: Sancti estote, quia ego sanctus sum (Lev., XI, 44).


3. - Além disso, Jesus mostrou-nos o caminho da santidade, ego sum via, instruindo-nos ao mesmo tempo por seus exemplos e por seus preceitos. O seu Evangelho anda nas nossas mãos; cœpit Iesus facere et docere... Quemadmodum ego feci, ita et vos faciatis.


Cada uma das suas palavras e ações, são outros tantos exemplos para evitarmos o pecado e praticarmos a virtude. Daí quele preceito: inspice et fac secundum exemplar; beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud!...


4. - Não contente com instruir-nos, ajuda-nos, cumula-nos de graças a cada instante para que possamos santificar-nos... Os seus sacramentos, são fontes abundantíssimas, inesgotáveis, de vida e de graça, principalmente o sacramento da Eucaristia, onde ele está e se dá a nós para nos esclarecer, fortificar, santificar e nos divinizar... haurietis aquas... de fontibus salvatoris... “Cibus sum gran-dium;... nec tu me mutabis in te, sed tu mutaberis in me” (Santo Agostinho).


Qual de nós, pois, pode alegar escusa de não poder ser puro e inocente, de não poder tornar-se santo?... Tollens ergo membra Christi, faciam membra meretricis?


5. - Mas que dizer daqueles que Deus, por uma vocação especial, chama ao estado religioso ou eclesiástico para que nele o sirvam?


Quantas graças não recebem em virtude desse chamamento, para que vivam em pureza e santidade e sejam imagens vivas de Jesus Cristo? “Imitamini quod tractatis” para levardes vida irrepreensível e confundir, sem receio de contradita, a malignidade do mundo e dos maus. Qui ex vobis arguet me de peccato?


III. - Porque não somos santos?

Todos nós sabemos a que nos obriga a nossa qualidade de filhos de Deus e de discípulos de Jesus Cristo e que não há outro meio para conseguir o Céu, senão a santidade. Também sabemos que depende de nós, corresponder aos desígnios de Deus com o auxílio da sua graça que não falta. Porque há, pois, tão poucos cristãos puros e santos e tantos pecados entre eles?


1. - Muitos não querem seguir a Jesus; por uma lamentável negligência, preferem tornar-se escravos e filhos de Satanás e do pecado, dando livre expansão às suas paixões más: in viam suam declinaverunt. São bem dignos dos Judeus e inimigos da cruz de Cristo; nomen habes quod vivas, et mortuus es!... Vos ex patre diabolo estis, et desideria patris vestri vultis facere...


2. - Outros, em maior número ainda, por funesta e deplorável leviandade, esquecendo o seu fim, ligando-se às coisas da terra, vivem segundo os sentidos e fazem todas as vontades à carne; homo de terra, terrenus... Assim expõem-se a cair em muitos pecados e a perder o Céu... qui spernit modica, paulatim decidet... Filii hominum usquequo gravi corde? É-nos fácil caminhar pela via larga, mas onde nos levará ela?


3. - Não se é suficientemente cuidadoso e atento em aproveitar as graças de Deus,... nem os outros meios de santificação que ele dá. E o resultado é que se acaba por resistir à mesma graça, contrista-se o Espírito Santo, cai-se na tibieza e passa-se a ser joguete do demônio.


Conclusão. - Ah! qual de nós pode dizer aos ímpios que nos cercam: quis ex vobis arguet me de peccato? Ou como S. Martinho ao demônio: quid hic adstas, cruenta bestia? nihil in me funeste reperies. A vida má ou fácil, da maior parte dos cristãos, não é um dos maiores obstáculos à conversão dos maus e, por consequência, à glória de Deus? Probet seipsum homo! Humilhemo-nos, pois, e apliquemos a nós mesmos esta tão oportuna exortação de S. Pedro: portai-vos duma maneira pura e santa entre os gentios, para que em lugar de vos maldizerem como se fosseis maus, antes, pelo espetáculo de vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia em que se dignar visitá-los.


Para isto recebamos muitas vezes a Sagrada Comunhão; S. Francisco de Sales dizia que os cumes das montanhas à força de se cobrirem de neve se tornavam brancos; do mesmo modo seremos puros e santos se comunicarmos frequentes vezes com Jesus Sacramentado.





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