• Apostolado FERR

A Transfiguração e a Paixão (Homilia)




HOMILIA

A TRANSFIGURAÇÃO E A PAIXÃO

Assumpsit Iesus Petrum, et Iacobum,

et Ioannem... et transfiguratus est ante eos.


Que relação há entre a transfiguração e o Calvário? responde S. Leão: “Nosso Senhor transfigurou-se para nos fazer compreender a economia do grande mistério da Paixão”, para o qual a Igreja nos prepara durante este tempo da Quaresma.


Consideremos: 1.º como a Transfiguração faz cessar o escândalo da Paixão; 2.º como nos revela o amor infinito de Jesus Cristo e os méritos da sua Paixão; 3.º como, à vista dela, devemos ser generosos, participando dos sofrimentos de Jesus.


I. - Faz cessar o escândalo da Paixão.

1. - Belém e Nazaré mostram-nos Jesus humilde e pobre: Pauper sum ego, et in laboribus a iuventute mea...


As cenas da Paixão apresentam-no-lo fraco, impotente, saturado de opróbios, coberto de ignomínias, o último dos homens ou melhor ainda, quase sem aparência de homem... A isto se referia S. Paulo, quando chamava ao mistério da Cruz, um escândalo para os Judeus e uma loucura para os Gentios, porque eles concluiam daí que Jesus não podia ser Deus.


Ora a transfiguração do Tabor ilumina e explica toda a vida de Jesus, mas sobretudo o Calvário... Previne e destrói o escândalo da sua Paixão e morte, descobrindo-nos por um unstante a sua dividade,... mostrando-no-lo com a glória que lhe é própria e natural, a qual ele velou somente para nos resgatar e salvar;... enfim, fazendo-nos ver que, se se humilhou tanto, exinanivit semetipsum, e se sofreu tanto, o fez voluntariamente: oblatus est quia ipse voluit...


2. - O excesso dos seus sofrimentos e a ignomínia da sua morte escandalizam os Judeus carnais e os pagãos orgulhosos... e, no entanto, Moisés e Elias vêm falar desses sofrimentos e ignomínias com o Homem-Deus sobre o Tabor, para que todos compreendamos que eles estavam preditos, eram esperados e aceites livremente e seriam coroados de glória e de poder... Isto é como que o prelúdio da declaração feita aos discípulos de Emaús: oportuit pati Christum, et ita intrare in gloriam suam...


O rosto, que será profanado pelos escarros e bofetadas, desfigurado e irreconhecível, torna-se, no Tabor, mais resplandecente de que o sol... O corpo, que será ferido e ensanguentado, torna-se brilhante... Os vestidos que serão jogados à sorte, têm mais brilho do que a neve... Sobre o Calvário, Jesus será pregado entre dois ladrões; sobre o Tabor é adorado por dois dos mais venerando santos da antiga Lei... No Calvário será blasfemado de todos, abandonado dos seus discípulos e mesmo do seu Pai celeste; no Tabor o Pai celeste chama-o Filho muito amado e manda que todos ouçam as suas palavras... No Jardim das Oliveiras, três discípulos hão-de vê-lo nos transes da agonia; no Tabor vêem-no nos esplendores do Céu... E também Pedro, mais tarde, falará assim desta cena de que foi testemunha ocular: nós não baseamos os Mistérios do Filho de Deus em fábulas ou ficcções, mas na glória deslumbrante de que em pessoa fomos testemunhas no monte santo, e no testemunho de que dele deu a voz do Pai celeste. E, do mesmo modo, S. João diz: - Nós vimos a sua glória, a glória que convêm ao Filho único de Deus Pai...


3. - O Tabor tira o escândalo da cruz e do Calvário...

A transfiguração diz-nos que aquele que nós havemos de seguir com lágrimas em todas as cenas dolorosas da Paixão, é verdadeiramente, por sua natureza, consubstancial com Deus Pai, coroado de glória e honra, o Rei do Céu, a alegria dos Anjos, o Juiz soberano que há-de vir um dia com todo o brilho da sua Majestada, julgar todos os homens...


Que sentimentos de fé e de amor deveria excitar em nós a narração da transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo!... Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi... Dominus meus et Deus meus...


II. Explica-nos o amor infinito e o mérito dos sofrimentos de Jesus.

1. - Estando a alma santíssima de Jesus unida hipostaticamente à divindade, em virtude desta mesma união, o corpo devia fruir, a cada instante e naturalmente, a glória que resplandece da mesma divindade...


Mas Jesus, fazendo em certo modo a violência a si mesmo, por amor para conosco e abdicando, temporariamente, dos seus direitos e prerrogativas, oculta a sua glória e torna-se passível e mortal durante toda a sua vida: Exinanivit semetipsum... “Tota Christi vita crux fuit et martyrium”. In ærumnis et laboribus a iuventute mea... Proposito sibi gaudio, sustinuit crucem.


Por isso S. Leão, aludindo a estes mistérios de que vimos falando, disse estas memoráveis palavras: “Atendei com todo o coração ao testemunho da Lei ou aos oráculos dos profetas, ou ainda à trombeta evangélica; é uma verdade que João anunciou dizendo: No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus; e é uma verdade semelhante, que o mesmo Evangelista acrescentou: o Verbo fez-se carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, etc.


2. - Não só suportou e sofreu tudo sem resistência, sem murmurações nem queixas, mas, por um ato da sua vontade soberana, fez um milagre contínuo, velando a sua Divindade para não impedir a sua Paixão... A Transfiguração, mostrando-no-lo um instante no estado natural em que ele devia estar toda a vida, revela-nos melhor o seu amor, o seu desejo ardente de sofrer por nossos pecados e o mérito infinito de tantas humilhações, dores, ignomínias, assim aceites, queridas e preferidas com a maior das boas vontades...


3. - E ainda durante este instante de glória, não quer falar com seus augustos visitadores noutra coisa que não seja a sua Paixão, tão agradável lhe é imolar-se por nós!...


Dicebant excessum eius. Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor, donec perficiatur!... Oh! como Jesus nos ama! E nós tão pouco o amamos...


III. - Torna-nos mais generosos para participarmos dos sofrimentos da sua Paixão.

1. - “Sendo Jesus nosso Deus, nosso criador e redentor, lembra S. Bernardo, nós devemos-lhe pertencer inteiramente”. Mas quando o vemos, por amor de nós, renunciar à sua glória para nos dar sangue e vida, que dedicação e amor não devemos ter por ele!


Devemos estar prontos a humilhar-nos, a crucificar a nossa carne com seus vicios e concupiscências, e, por ele e em união com ele, a tudo suportar de bom grado...


2. - Além disto, a glória de que ele se revestiu no Tabor, é apenas um reflexo da que promteu aos seus eleitos... Mostra-no-la um instante, para nos animar à paciência nas provas e à generosidade no sofrimento,... pois só por este preço seremos glorificados no Céu: “Si compatimur, et conlorificabimur”... Supra modum gloriæ pondus. Se pensássemos bem na glória incomparável que nos está reservada um dia, abraçaríamos com amor e alegria as cruzes e dores dum momento.


É o que diz o Apóstolo: Os sofrimentos da vida presente não têm comparação com a glória que receberemos na outra... Por um momento de amargura e tribulação, um peso imenso de glória e de felicidade.


Hoje, durante este tempo que desaparece como fumo, euntes ibant et flebant mittentes semina sua; amanhã, no dia grande da eternidade, venientes autem venient cum exultatione portantes manipulos suos... Tal é a ordem providencial que nos governa.


3. - Infelizmente, muito poucos cristãos compreendem estes divinos ensinamentos e esta necessidade de sofrer para merecer a glória... Quereriam somente gozar, ter comodidades nesta vida!...


Puro engano! Se Deus, às vezes, nos dá consolações, é por piedade para com a nossa fraqueza, ou para nos excitar a sofrer... Absterget Deus omnem lacrymam ab oculis Sanctorum; et mors ultra non erit, neque clamor, neque dolor erit ultra...


Conclusão. - A Transfiguração é, pois, meus irmãos, um estímulo para os nossos sentimentos de fé, reconhecimento e amor, para a nossa paciência e generosidade em aceitar os sofrimentos e provas, e para mais firmemente esperarmos o Céu...


Crer em Jesus, observar os seus Mandamentos, amá-lo, sofrer de boa vontade com ele e por ele, eis o caminho da perfeição, da salvação e glória... Pensemos continuamente nisto, e com o auxílio da graça, procuremos tornar-nos cristãos verdadeiramente transfigurados... e esta transfiguração espiritual será o penhor da que um dia receberemos pelos méritos de Jesus Cristo. Amém.




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