• Apostolado FERR

As Lições do Crucifixo (Homilia)




SERMÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS

A MAIS SÁBIA E ELOQUENTE LIÇÃO: O CRUCIFIXO


Non iudicavi me scire aliquid, nisi

Iesum Christum, et hunc crucifixum.


Vamos, irmãos caríssimos, durante esta semana, assistir à maior descoberta de que a humanidade beneficia, à lição única dada pelo maior, mais sábio e incomparável Mestre que tem ensinado no mundo. O Mestra chama-se Jesus, a lição é o crucifixo.


O Crucifixo! É um livro divino, escrito nos arcanos imperscrutáveis da altíssima e profundíssima Sabedoria de Deus e, contudo, todos o podem ler e compreender! Ele foi para São Boaventura a fonte sagrada e pura de onde hauriu a sua ciência incomparável e o seu amor seráfico e a nós há-de ensinar o caminho seguro da salvação, quer dizer, a evitar o pecado, a bem amar e servir a Deus, a tornarmo-nos santos e a merecer o Céu... “O Crux, ave, spes unica”!...


Abramos três páginas deste precioso livro e leiamos: na 1.ª os nossos pecados; na 2.ª o amor de Jesus e na 3.ª as suas virtudes.


I - Os nossos pecados - 1.ª lição.

1.º Delicta quis intelligit? Desejamos saber a multidão e a gravidade dos nossos pecados? Vamos ao Jardim das Oliveiras, ao Pretório de Pilatos, ao Calvário... Esforcemo-nos por compreender as chagas de Jesus a planta pedis usque ad verticem capitis; mas mais ainda meditemos sobre as suas dores íntimas...


Cada açoite, cada espinho, cada bofetada, cada escarro, cada ultraje representa os diversos pecados que temos tudo a infelicidade de praticar... Não pensemos que foram só os Judeus a atormentar e a crucificar o Senhor. Sem dúvida foram pela sua própria maldade e são réus do deicídio: mas tiveram também um cúmplice em cada pecador e quem de nós, sem mentira, terá a ousadia de afirmar que o não é? Cada um de nós, pois, com as suas faltas, cooperou nos tormentos e na morte de Jesus:


Attritus est propter scelera nostra... Jesus via, antecipadamente, todos os nossos crimes e expiava-os e satisfazia por eles a Justiça de seu eterno Pai...


2.º Mas quem compreenderá o rigor da Justiça divina? Em verdade, ela exigiu de Jesus usque ad novissimum quadrantem... Grandíssimo horror e abominação deve ser o pecado, pois que Deus, vendo seu próprio Filho revestido da aparência da nossa culpabilidade, fez recair sobre ele todo o peso da sua cólera e da sua vingança e condenou-o a tormentos inauditos!... E os homens não abandonam a senda do mal, diferem sempre a penitência e a conversão!


3.º O nosso crucifixo diz-nos e recorda-nos tudo isto a cada instante e nós... não abandonamos as nossas desordens! Fui eu, Senhor, que com os meus pecados fiz de vós o homem das dores e vos preguei no madeiro e, contudo, os meus olhos continuam secos!

E vós continuais a amar-me e continuais a esperar por mim, hoje e sempre! Acabou-se, divino Salvador, eu não quero pecar mais!


Sempre que o demônio, o mundo ou a carne vierem tentar-me, beijarei as vossas sagradas chagas, procurarei nelas o meu refúgio e a minha salvação e renovarei a oblação de todo o meu ser a vós. Antes a morte, que ofender-vos novamente...


II - O amor de Jesus - 2.ª lição.

Flecto genua mea ad patrem,... ut possitis compreendere quæ sit latitudo, et longitudo, et sub-limitas, et profundum: scire etiam supereminentem scientiæ Christi (Ef., III, 14, 18 e 19).


1.º Efetivamente foi, desde toda a eternidade que Jesus nos amou, in charitate perpetua e que se determinou a morrer por todos, sem exceção de ninguém. Amou-nos com ternura infinita, a nós, pobres e mesquinhas criaturas; ofereceu-se a seu Pai por nós; tudo sacrificou por nós e nada mais podia sacrificar porque se sacrificou a si mesmo; para quebrar as cadeias que nos ligavam, para nos livrar do inferno, para nos refazer filhos de Deus e reabrir as portas do Céu derramou o seu sangue ate à última gota: “In me reficiendo, diz S. Bernardo, profecto et dixit multa, et gessit mira et pertulit dura, nec tantum dura, sed et indigna”...


Quando os Judeus viram Jesus chorar por Lázaro disseram: Vede como ele o amava! Que diremos nós contemplando o nosso amabilíssimo Salvador lavado em lágrimas e escorrendo sangue, flagelado e coroado de espinhos, carregados com uma cruz tão pesada e finalmente crucificado? Jesus amou-me, a mim miserável pecador, e entregou-se por mim!... Ninguém tem mais dedicação que aquele que dá a vida pelos seus amigos e lha sacrifica no meio de tremendos tormentos. E foi só pelos amigos? Não, foi “etiam pro inimicis”!... - “Sic nos amantem quis non redameret”?


2.º Mas, - ó mistério de malícia e ingratidão! - o crucifixo está habitualmente sob os nossos olhos e nós não retribuímos o amor com o amor, não pensamos nele ou insultamo-lo ainda com as nossas leviandades. Nada há tão amargo para o Coração divino de Jesus como este esquecimento, esta indiferença desdenhosa dos homens. Em troca de tantos benefícios ele só pede amor de gratidão e contudo a maioria dos homens merece bem a censura que ele um dia fez a uma alma pouco fiel: “Seria para me divertir que eu te amei tanto”? Temamos que o seu amor rejeitado se irrite, porque não se menospreza sem punição um Deus que nos amou até à morte... O amor perdoa tudo, menos não ser amado e foi o amo divino rejeitado, que se associou à justiça divina desprezada para criar o inferno...


Prostrados aos pés de Nosso Senhor, digamos-lhe Senhor Jesus que tantos nos haveis amado, perdoai-nos. Nós queremos doravante retribuir e não viver senão para vós, completamente dedicados ao vosso serviço até à morte... Si quis non amat Dominum nostrum Iesum Christum, sit anatema (I Cor., XVI, 22).


III - Virtudes de Jesus - 3.ª lição.

1.º Deseja alguém ser santo, conhecer e praticar as virtudes cristãs?

Fixe o olhar no Calvário e, mais perto, tome-se e estude-se o crucifixo: Inspice, et fac secundum exemplar!...


A cruz é a cátedra donde Jesus, nosso modelo divino com autoridade sem réplica, exemplifica a humildade e a obediência: Discite a me quia mitis sum et humiis corde... Hoc sentite in vobis, quod et in Christo Iesu, qui exinanivit semetipsum,... factus obediens usque ad mortem.


Prega-nos a paciência, porque não abre a boca para se queixar: “Non adversus Patrem murmurans, a quo missus fuerat; non adversus humanum genus, pro quo, quæ non rapuit, tunc exsolvebat; non denique vel contra populum ipsum peculiarem sibi, a quo, pro tantis beneficiis, tanta mala recipiebat” (S. Bernardo).


Ensina-nos a caridade e a mansidão, porque só tem palavras de perdão e de intercessão para os seus algozes; a pobreza, porque pregado a este madeiro está nu e despojado de tudo...


2.º Temos nós já, irmãos caríssimos, alguma semelhança com o divino Modelo? Nós recusamos ou temos medo de sofrer com Jesus, continuamos a procurar-nos a nós mesmos, permanecemos orgulhosos, avaros, dominados pela inveja e pela cólera, mostramo-nos vingativos e injustos, somos escravos de caprichos e das nossas inclinações viciosas. Assim, convençamo-nos de que, sem partilhar as virtudes e os sofrimentos de Jesus, é impossível participar da sua glória no reino que nos tem preparado.


Esforcem-nos portanto, ao menos de agora em diante, por seguir os seus passos e exemplos e por imitar as suas virtudes: Hoc sentite in vobis, quod et in Christo Iesu...


Digamos-lhe, como Etai a Davi: Viva o Senhor, e viva o rei meu senhor: em qualquer lugar que tu te encontrares, ó rei meu senhor, quer seja na morte quer na vida, aí se encontrará o teu servo (II Reis, XV, 21) e com S. Paulo: Não, nada poderá separar-me da caridade de Jesus Cristo (Rom., VIII, 39).


Conclusão. Sejamos gratos, irmãos caríssimos, e sejamo-lo do fundo do coração a quem tanto nos amou.


Contemplemos e beijemos frequentemente o nosso Crucifixo, imploremos o perdão de Jesus para os nossos pecados, prometamos-lhe amá-lo e imitá-lo, porque só desta forma seremos seus verdadeiros discípulos e subiremos ao Céu a gozar a felicidade da sua presença durante a eternidade. Amém.




Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIAS.




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