• Apostolado FERR

As Sete Palavras da Cruz (Homilia)



HOMILIA PARA A SEXTA-FEIRA SANTA

Apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio


IV

AS SETE PALAVRAS DA CRUZ

Pater, opus consummavi, quod dedisti mihi ut faciam

(João, XVII, 4).


Eis Jesus, a Vítima Santa, o resgaste do mundo, suspenso entre o Céu e a Terra e prestes a consumar a sua imolação!...


A Cruz é um púlpito donde nos prega: ouçamos com respeito e amor o seu testamento, isto é, as suas últimas palavras. Elas são, por excelência, spiritus et vita...


Loquere, Domine, quia audit servus tuus...


I - Perdão para os algozes.

A primeira palavra de Jesus é uma lição de caridade e perdão: ele intercede pelos seus algozes: Meu Pai, perdoai-lhes, que eles não sabem o que fazem... Voluntária e cientemente confirma, com o seu exemplo, o que tanto recomendara: amar os nossos inimigos e orar por aqueles que nos perseguem... E esta prece de Jesus referia-se não só aos verdugos atuais, mas abrangia ainda todos os pecadores de todos os tempos, e exauditus est pro sua reverentia, porque foi esta oração de Jesus que nos mereceu as graças de conversão...


Quem ousará doravante desesperar do perdão! - “Quid times, peccator? diz S. Tomás de Vila-nova. Quomodo te damnabit pœnitentem, qui moritur ne damneris? Quomodo te abiciet redeuntem, qui de cœlo venit quærere te”?...


Qual de nós terá ânimo de continuar a ceder aos impulsos e sentimentos de vingança e ódio? Pater, dimitte illis, nesciunt enim quid faciunt!... Palavra divina! que os nossos corações a não esqueçam nunca!... Dimitte nobis,... sicut et nos dimittimus.


II - O paraíso prometido ao bom Ladrão.

Dois ladrões crucificados com Jesus. Um insulta-o e blasfema; outro, tocado pela graça, louva-o, invoca-o, e salva-se...


Primeiro, chama o companheiro de infortúnio à razão, censura-o até e reconhece-se a si mesmo culpado; em seguida, toma a defesa e publica a inocência de Nosso Senhor...


Finalmente dirige-se a Jesus (em cuja divindade crê e confessa e, apesar das estranhas e indignas exterioridades, proclama também a sua realeza divina - Domine e dos Rei dos Reis - Regnum) e, com fé e confiança, pede-lhe que, Senhor, quando estiveres no teu reino lembra-te de mim...


Jesus diz-lhe simplesmente: Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso...

Procuremos excitar em nós sentimentos idênticos, para merecermos ouvir a mesma tranquilizadora promessa... Aproveitemos também cuidadosamente a grave lição que a cena nos dá: Jesus inocente teve a sua cruz e não quis descer dela;... o bom Ladrão penitente teve a sua ruz e aceitou-a em espírito de expiação e satisfação e ela veio a ser-lhe um instrumento de salvação;... o mau ladrão teve a sua cruz, mas, tanto quanto de si dependia, rejeitou-a e desejava ser livrado dela e para nada lhe serviu...


Assim, é a nós que compete escolher como queremos suportar a nossa para tirar proveito, porque evitar a cruz é coisa impossível... (Cf. Imitação, livro II, cap. 12, n.os 3 e 4).


III - Jesus, Maria e João.

De pé, perto da cruz do seu Jesus, estava a sua terníssima Mãe com Maria, sua irmã, Salomé e Madalena, e também o discípulo que Jesus amava... Jesus, vendo sua Mãe e este discípulo querido, diz a sua Mãe: Mulher, eis o teu Filho...


Depois diz ao discípulo: Eis a tua Mãe...


E desde aquele momento o discípulo recebeu-a como sua mãe e como tal a tratou... Emocionante solicitude de Jesus moribundo pelos filhos que vai deixar órfãos!... Nada mais tendo que sua Mãe, faz-nos dela doação, recomendando que a honremos e amemos como nossa Mãe e dá-lhe a ela, um coração verdadeiramente maternal para todos nós, pobres pecadores... Obrigados, bom Jesus, por tão excelso e excelente presente e concedei-nos a graça de para ela termos um coração de filhos, os sentimentos de S. João, ou, melhor ainda, partilhai conosco os vossos próprios sentimentos por ela.


E vós, Senhora nossa, Maria! “Montra te esse Matrem”.


IV - Lamento de Jesus a seu Pai.

Depois da hora sexta até à nona, isto é, depois do meio-dia até às três horas, as trevas cobriram a terra e o sol obscureceu-se.


Pela nona hora Jesus soltou um grande grito dizendo: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste! Este grande grito e esta frase manifestam uma dor imensa e nunca o desespero, como o blasfemador Calvino ousou dizer. Nenhum sofrimento devia ser poupado a Jesus; quis ser privado de toda a consolação e como que abandonado por seu Pai, mergulhado num abismo de tristeza, para alcançar para nós o socorro da misericórdia divina e a constância nas desolações e nas provações.


V - “Sítio”, tenho sede.

Depois disto, sabendo que tudo estava cumprido e para se realizar ainda um oráculo do Espírito Santo, Jesus disse: Sitio, tenho sede. Davi tinha predito acerca dele: In siti mea potaverunt me aceto... Então um soldado, com bárbaro e mal dissimulado escárnio, mascarado de piedade, chegou-lhe na ponta duma vara, uma esponja embebida em vinagre... Além da sede física, efeito dos prolongados sofrimentos, tinha ainda sede de obedecer a seu Pai, de sofrer ainda mais, se tal fosse a vontade divina, e, enfim, tinha sede insaciável da santificação e salvação das almas...


Oxalá nós ardamos nesta tríplice sede do nosso amabilíssimo Salvador e oxalá também nós sejamos capazes de vigiar sobre nós mesmos para não o dessedentarmos, pelas nossas infidelidades e ingratidões, com vinho misturado de fel e vinagre!...


Quantos infelizes só têm correspondido ou correspondido ainda, aos terníssimos apelos de Jesus com injúrias e blasfêmias? “Ego te potavi aqua salutis de petra: et tu me potasti fele et aceto”!...


VI - “Consummatum est”.

Tendo Jesus, como derradeiro tormento, provado o vinagre, para, a nós, nos dar a suavidade da graça, consoante a frase de Santo Ambrósio: “Meam amaritudinem bibit Christus, ut mihi gratiæ suæ refunderet suavitatem”, disse: consummatum est, tudo está consumado. Tudo quanto estava escrito e predito nos Livros Santos, tudo está realizado;... o holocausto foi oferecido e consumado, a vitória está ganha, o demônio vencido, o homem vingado e posto em liberdade...


Ó Jesus, concedei-nos a graça de agora, na vida, cumprir tão exatamente o que é do vosso agrado, que, à hora da morte, tenhamos a ventura de poder repetir a palavra do Apóstolo: Cursum consummavi, fidem servavi...


VII - Jesus entrega a sua alma santa nas mãos de seu Pai.

E Jesus com voz forte, disse: Meu Pai (atestando, pela última vez, a sua origem divina), entrego a minha alma nas vossas mãos... Lição sublime para nós que, incessantemente, mas sobretudo na hora da morte, com santo e filial abandono, devemos colocar a nossa alma nas mãos de Deus, Pai nosso, porque Jesus nos obteve essa graça...


Para os filhos de Adão, a morte é sempre, mais ou menos, um momento de angústia, porque é a pena do pecado: Stipendium peccati mors... Mas Jesus ensina-nos a morrer por obediência à vontade divina e, pela sua santa morte, merece-nos a graça de morrer santamente, se nos tivermos unidos a ele e, como ele, plenamente conformados com Deus... Ó Jesus, eu entrego hoje, para sempre e sobre-tudo na hora da minha morte, a minha alma em vossas mãos; recebei-a e levai-a para o Céu: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum...


VIII - Morte de Jesus.

E, dizendo isto, inclinou a cabeça e expirou... Jesus inclina a cabeça em sinal de humildade e de obediência a seu Pai;... para testemunhar que morre voluntariamente no momento que tinha deter-minado;... e também para que compreendamos o peso imenso dos nossos pecados, que seu Pai lançara sobre ele e pelos quais morreu esmagado e triturado... Inclinou a cabeça para nós, pobres pecadores, de braços estendidos para nos abraçar e dar o beijo da Paz...


Aut amor, aut furor est: qui te, bone Christe, peremit:

Est amor, aut furor est: hic meus, ille tuus.

(SÃO FRANCISCO DE SALES).


Aproximemo-nos da Santíssima Virgem, de S. João e de Madalena, unamos as nossas lágrimas às deles;... beijemos piedosamente os pés do nosso Redentor, morto por nós e peçamos que deixe cair sobre a nossa alma uma gota de sangue regenerador... Renunciemos ao pecado, sobretudo às faltas que mais o contristam;... prometamos-lhe que o amaremos sem medida, que a nada nos pouparemos por ele, dedicados ao seu serviço até à morte...


Ó Maria, Mãe das dores, Mãe de Jesus e nossa! abençoai-nos e dignai-vos daqui em diante, considerar-nos vossos filhos;... ensinai-nos a meditar frequentemente os sofrimentos de Jesus e os vossos, para neles bebermos a ciência dos Santos. “Sancta Mater, istud agas, Crucifixi fige plagas cordi meo valide. Eia, Mater, fons amoris, me sentire vim doloris fac, ut tecum lugeam. Fac ut ardeat cor meum in amandum Christum Deum, ut sibi complaceam”... Amém.


Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIA.





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