• Apostolado FERR

Como tirar proveito dos sermões? (Homilia)



HOMILIA

DISPOSIÇÕES QUE TORNARAM FRUTUOSA

A AUDIÇÃO DA PALAVRA DIVINA

Quod autem in terram bonam, hi sunt qui, in corde bono et optimo audientes,

verbum retinent et fructum afferunt in patientia.


Foi o próprio Jesus quem nos indicou os obstáculos que impedem a palavra divina de produzir o seu fruto. Ouçamo-lo também, indicando-nos quais as disposições como devemos ouvi-la, para que ela não permaneça estéril em nosso coração.

Vejamos as disposições para 1.º antes, 2.º durante e 3.º após a pregação.


I - Antes da pregação.

O amor sincero da verdade é fundamental em todo aquele que deseja um conhecimento útil da mensagem divina.


O Espírito Santo recomenda que preparemos a nossa alma antes de, na oração, falarmos a Deus: ante orationem præpara animam tuam... Sem dúvida que não há menor conveniência em fazê-lo quando é Deus que nos vai falar, manifestar as suas vontade!...


1.º Devemos ir à pregação movidos pelo sentimento de religião e com espírito de fé. Iremos ouvir, não a palavra do homem que prega, embora seja eloquente e zeloso, porque apesar destes apreciáveis dons, então, a sua palavra seria para nós a palavra humana e teria apenas uma autoridade humana,sempre infinitamente restrita, que só poderia produzir efeitos humanoss em valor sobrenatural, mas a palavra do próprio Deus comunicada legitimamente pelo seu ministro falando-nos sicut ex Deo, coram Deo in Christo... Pro Christo legatione fungimur... Deo exhortante per nos...


2.º Deve trazer-nos não o respeito humano ou a curiosidade, mas a boa vontade de aproveitar, porque esta é a condição requerida para obter a verdadeira paz ou satisfação do coração: Pax hominibus bonæ voluntatis;... deve conduzir-nos um desejo verdadeiro e sincero de conhecer os nossos deveres, de esclarecer as trevas da alma, de adquirir força para trilhar o caminho direito e praticar a virtude.


A palavra divina é comparável ao maná com que Deus alimentou os Israelitas no deserto: acomoda-se às disposições interiores e às situações de cada um de nís e quase se reveste dos nossos gostos... “Verba mea non sunt ad vanam complacentiam trahenda, sed in silentio audienda et omni humiltate atque magno affectu suscipienda” (Imit., de C.).


3.º Devem purificar-se o coração e as intenções:Munda cor meum”,... e, recolhidos em nós mesmos, expulsar do espírito todos os pensamentos maus ou estranhos que possam obstar à meditação do que se ouve;... colocar a nossa alma no mesmo estado de recolhimento que se fôssemos receber a Sagrada Eucaristia.


4.º É preciso orar, pedir as luzes e as graças do Espírito Santo para bem preparar a alma, a renovar, para que ela seja aquela terra boa e excelente e ótima em que a palavra divina produza ao cêntuplo... Loquere, Domine, quia audit servus tuus... Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terræ.


Será assim, irmãos caríssimos, o nosso procedimento quando vamos à pregação? É possível que muitos tenham vindo por passa-tempo, com o espírito distraído, o coração cheio de outras preocupações, sem desejo de receber a semente divina sempre apta a germinar, só aqui presentes fisicamente!... “Animalis homo non percipit ea quæ sunt Dei...


Procurai, irmãos muito amados, sair desta indiferença e apatia, vinde sempre com aquelas felizes disposições dos discípulos fiéis que diziam de Jesus: Domine, ad quem ibimus? Verba vitæ æternæ habes!


II - Durante a pregação.

A palavra de Deus há-de ouvir-se com respeito, com atenção e com docilidade.


1.º Com respeito. Não é a palavra dum homem a que ouvimos, é a de Deus.

Sirva-nos de exemplo a atitude dos Israelitas junto do Monte Sinai. Despertemos a nossa fé e vejamos, não a pessoa do sacerdote, mas o próprio Senhor falando pela boca do seu ministro autorizado: Ego mitto vos;... qui vos audit, me audit... Loquere, Domine, quia audit servus tuus.


Será menos digno das nossas adorações o Verbo encarnado envolto nos modestos painhos do presépio, do que nos esplendores do seio do Pai?...


Assim a palavra de Deus merece respeito igual, quer se recolha dos lábios de padre humilde de linguagem familiar mas digna, quer seja anunciada com pompas de estilo ou discurso majestoso por pregador eloquente... Quem quer que seja, o padre é o delegado de Deus, fala em nome do Senhor,... pode dizer, como outrora Moisés aos filhos de Israel: Qui est, misit me ad vos...


Conta-se que o Imperador Constantino se não sentava durante a pregação, porque, dizia, não era decoroso receber sentado as ordens do Soberano Senhor...


Lembremos o pensamento de Santo Agostinho: assegura ele que não é menos merecedora de veneração a palavra de Deus que o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo;... que as mais pequenas palavras de doutrina se devem receber tão religiosamente como o sacerdote recolhe na patena os mais pequenos fragmentos da hóstia consagrada,... e que o fiel negligente em atendê-los não é menos culpável que se deixasse cair no chão o Corpo do Salvador!...


Temos nós, prezados fiéis, estes sentimentos de fé e respeito religioso?


2.º Com atenção. É-se imensamente atento à leitura do noticiário de jornal - novas do mundo! das cartas de parentes e amigos, de historietas frívolas.


Parece que a palavra divina nos deveria merecer, ao menos, igual interesse, mas é o contrário que se verifica: falta de atenção, frieza glacial, quando não repugnância ou despreocupada sonolência, embora se trate dos superiores interesses da alma, da salvação enfim!


Loucura rematada! Filii hominum, usquequo gravi corde? ut quid diligitis vanitatem et quæritis mendacium? Ouçamos portanto a palavra divina, palavra de vida, não só com os ouvidos do corpo mas com os da alma; tenhamos dela uma avidez santa: Dilata os tuum, et implebo illud; tomemos-lhe o gosto e conservemo-la no coração como em terra convenientemente preparada.


Sirvam-nos de modelo a Virgem Mãe, Maria Madalena aos pés do Mestre, os Discípulos de Emaús: Nonne cor nostrum ardens erat in nobis, dum loqueretur,... et aperiret nobis Scriptura? Como, infelizmente, são poucos a ouvir com estas disposições os oráculos divinos! Nauseat aninma nostra... Oxalá que não encontremos, por causa deste tédio e aversão, a morte onde poderia estar a vida; não é leve este perigo!... Roguemos ao Senhor que dele nos livre e nos faça apreciar a suavidade da sua palavra: Quam dulcia faucibus meis eloquia tua super mel ori meo!


3.º Com docilidade. Nunca aplicar aos outros mas a nós próprios o que é pregado.

Se o pregador estigmatiza o pecado, os vícios: Tu es ille vir!


Se censura o esquecimento de Deus e o desprezo dos seus preceitos: Tu es ille vir!

Não nos iludamos nem digamos que o sermão não é para nós, que não somos como os mais ladrões, injustos, libertinos, etc... Vejamos antes, com maior clareza, a nossa extrema precisão de luz, de amparo e auxílio de toda a espécie; a palavra divina pode ser isto tudo para nós. Dizia S. Francisco de Sales não ter nunca ouvido um sermão de que não tirasse proveito, sem ter feito alguma boa resolução... Quem dera que pudessemos dizer o mesmo!...


III - Depois da pregação.

1.º É indispensável a reflexão sobre o que se ouviu pregar. É o único meio de a semente divina poder lançar raízes profundas que fixem a verdade e absorvam a seiva da graça;


Na maioria das pessoas fica estéril o campo da alma por falta de reflexão: Desolatione desolata est terra, quia nullus est qui recogitet corde! Esquece-se imediatamente tudo, semelhantes àqueles que, conforme S. Tiago, vão mirar-se ao espelho e não levam a sua imagem ao afastarem-se...


Imitemos a Virgem Santíssima que conservava e meditava em seu coração as palavras de Jesus.


Um exame sério sobre o que foi dito na pregação faz germinar a boa semente, sugerindo resoluções práticas para a reforma da vida.


2.º Em seguida é preciso executar as resoluções feitas, os conselhos e os avisos ouvidos. É o Apóstolo que afirma: non auditores legis iusti sunt apude Deum, sed factores legis iustificabuntur;... e Jesus: Mater mea et fratres mei, hi sunt qui verbum Dei audiunt et faciunt... Quinimo beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud...


No fim do Sermão da Montanha deixou-nos também esta grave advertência: Omnis ergo qui audit verba mea hæc, et facit ea, assimilabitur viro sapienti, qui ædificavit domum suam supra petram... Et omnis qui audit verba mea hæc, et non facit ea, similis est viro stulto, qui ædificavit domum suam super arenam;


A casa do primeiro resiste à chuva e às tempestades; a do segundo abre brecha e desmorona-se completamente.


Santo Agostinho comenta que será também vítima da tempestada quem não tiver asilo por não ter construído nem sobre a pedra nem sobre a areia... “Malum est ergo non audire, conclui o Santo Doutor, malum est audire et non facere; restat audire et facere”... Estote ergo factores verbi, et non auditres tantum, falentes vosmetipsos... (Tiago I, 22).


3.º Para isto é preciso coragem perseverante, vigilância e paciência: in patientia... O demônio procura, de contínuo roubar-nos a semente divina e impedir que ela frutifique. Quando o não consegue, tenta, ao menos, reduzir a produção e sobressemeia a cizânia que sufocará uma parte do bom grão... Eis o motivo de tantas pregações sem fruto, de tantos propósitos estéreis!... Que cada um de nós recorde a triste experiência pessoal. Quantas vezes temos ouvido, de coração santamente emocionado, certas recomendações... e contudo continuamos na mesma! Faltam-nos generosidade e paciência.


Examinemos hoje ainda quais têm sido ou são os obstáculos que esterilizam ou diminuem os frutos da palavra do Senhor;... façamo-los desaparecer, demos ao bom grão plena liberdade de se desenvolver, multiplicar e produzir colheita abundante para nós e para o divino Semeador.


Conclusão. - Irmãos caríssimos, procuremos suscitar e atualizar as disposições que acabamos de referir: espírito de religião e de fé, vontade e pureza de intenção antes; respeito, atenção e docilidade perfeita durante; enfim, depois reflexão séria, resoluções práticas e eficazes.


Desta forma a nossa alma assemelhar-se-á à terra fértil e ótima que produzirá cento por um, quer dizer, nós daremos frutos dignos e agradáveis a Deus, fructificantes in omni opere bono, cheios de mérito e merecedores do Céu. Amém.



MISSA DO DOMINGO DA SEXAGÉSIMA


Por Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIA, 1953.




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