• Apostolado FERR

Explicação do Evangelho do XI Domingo depois de Pentecostes


Padre Thiriet

I

EVANGELHO

(Mc 7,31-37)

Sequéntia sancti Evangélii secúndum Marcum.

IN illo témpore : Exiens Iesus de fínibus Tyri, venit per Sidónem ad mare Galilǽæ, inter médios fines Decapóleos. Et addúcunt ei surdum et mutum, et deprecabántur eum, ut impónat illi manum. Et apprehéndens eum de turba seórsum, misit dígitos suos in aurículas eius : et éxspuens, tétigit linguam eius : et suspíciens in cælum, ingémuit, et ait illi : Ephphetha, quod est adaperíre. Et statim apértæ sunt aures eius, et solútum est vínculum linguæ eius, et loquebátur recte. Et præcépit illis, ne cui dícerent. Quanto autem eis præcipiébat, tanto magis plus prædicábant : et eo ámplius admirabántur, dicéntes : Bene ómnia fecit : et surdos fecit audíre et mutos loqui.


Continuação do santo Evangelho segundo São Marcos.

NAQUELE tempo, saindo Jesus da região de Tiro, veio por Sidon ao mar de Galiléia, atravessando o território da Decápole. E trouxeram-Lhe um surdo-mudo e Lhe rogaram impusesse as mãos sobre ele. Jesus, tomando-o dentre o povo, de parte, colocou os dedos em seus ouvidos e tocou-lhe a língua com a saliva. Depois ergueu os olhos para o céu, suspirou, e disse-lhe: Ephphetha, isto é, abre-te. E imediatamente se lhe abriram os ouvidos e se lhe soltou a prisão da língua, e ele falou distintamente. Então Jesus lhes ordenou que a ninguém o dissessem. Não obstante, quanto mais o proibia, tanto mas o divulgavam, e mais admirados, diziam: Tudo tem feito bem; fez os surdos ouvirem e os mudos falarem.


II

EXPLICAÇÃO


I - O que significa “Exiens Jesus de finibus Tyri, venit, etc.?”

Este versículo de S. Marcos menciona abreviadamente as viagens mais consideráveis do Salvador. - Querendo Nosso Senhor subtrair-se, por algum tempo, ao ódio dos fariseus, cuja má fé e hipocrisia acabava de desmascarar (Marc. VII, 1-6), deixou a Galiléia e retirou-se para os confins de Tiro. É nesta ocasião que, para recompensar a fé duma pobre mulher, vulgarmente chamada cananeia, lhe cura a filha atormentada pelo demônio.


Daí, subindo para o norte, do lado de Sidon, atravessando depois o Líbano, desceu para o Mar da Galileia, através da Decápole. Chamava-se assim a região situada ao norte e a nascente do mar da Galileia e que continha dez cidades principais, donde provém o nome de Decápole.


Fazendo esta longa travessia através das populações pagãs da Síria, Nosso Senhor procurava, sem dúvida, prepará-las para a pregação do Evangelho. É no regresso desta viagem que a multidão se aproxima de Jesus, apresentando-lhe toda a espécie de doentes, que ele cura. Entre estas curas, S. Marcos descreve a do surdo-mudo, que se lê, no Evangelho de hoje.


II - Que representa este surdo-mudo?

É evidentemente um estado muito triste, porque um surdo não ouve nada do que se diz à sua volta, e se é mudo, só dificilmente pode comunicar os seus pensamentos e os seus desejos, de sorte que, vivendo no meio dos homens, é quase totalmente privado dos encantos da sua convivência.


Mas esta enfermidade natural figura uma outra, muitíssimo mais grave, deplorável e perigosa: - a surdez e o mutismo espirituais. A surdez espiritual é o estado duma alma que já não ouve a palavra de Deus, de qualquer forma que ela o atinja, quer pelas inspirações do Espírito Santo, quer pela voz da consciência, avisos do confessor, ou instruções do pregador. E quando esta surdez é simultaneamente voluntária e afetada, que desgraça para a alma! Aures habent, et non audiunt. É, por assim dizer o pecado contra o Espírito Santo, é o endurecimento: noluit intelligere ut bene ageret… Furor illius sicut aspidis surdae et obturantis aures suas, quae non exaudiet vocem incantantium… Induratum cor.


A surdez gera o mutismo! Ora uma alma muda, não fala a Deus, deixa de orar, esconde ou dissimula os pecados na confissão; e como é que então obterá a graça e o perdão?


Quanto devem ser lamentadas tais almas! Jesus bem bate à porta do seu coração, mas elas não querem ouvir nem abrir. - Jesus aproxima-se delas, convida-as, mas recusam falar-lhe ou até escutá-lo: Vocavi, et renuistis! Prouvera a Deus que, como este surdo-mudo, elas encontrassem almas caridosas, que as levassem a Jesus e lhe pedissem que as curasse!


III - Que querem dizer estas palavras: “Adducunt ei”?

A condição deste pobre surdo-mudo era digna de compaixão. É por isso que os parentes ou amigos dedicados tiveram piedade dele e o conduziram a Jesus, pedindo-lhe que lhe impusesse as mãos. Admiremos, não só a compaixão e caridade destes amigos ou parentes, mas também a sua fé e a confiança na bondade e no poder do Salvador.


Sabem que Jesus passava fazendo o bem a todos, que jamais se recusara a aliviar os infelizes, que a si recorriam e que, ordinariamente, lhe bastava impor as mãos sagradas sobre os doentes para que eles, ato contínuo, recuperassem a saúde.


Vieram ao seu encontro, cheios de confiança, e esta confiança e esta caridade foram recompensadas.


Quantas misérias seriam aliviadas e quantos sofrimentos minorados, se todos os bons cristãos imitassem a caridade destas excelentes pessoas para com os pobres e enfermos, quer ajudando-os pessoalmente, quer procurando-lhes o auxílio dos ricos?! Mas, sobretudo, se soubessem exercer a verdadeira caridade com as almas junto dos pecadores surdo-mudos, indo ao seu encontro, consolando-os, orando por eles, conduzindo-os aos ministros de Jesus, preparando-os para a piedosa recepção dos Sacramentos, quantos destes infelizes, endurecidos ao pecado, sentiram amolecer-se-lhes o coração e entrariam na amizade de Deus. Poucos cristãos compreendem este grande dever: Mandavit uniquique de proximo suo; e menos ainda se dedicam à obra da caridade espiritual, porque não querem incomodar-se, porque, praticamente, não têm fé, não amam Jesus.


IV - Atendeu Jesus o pedido deles?

Sim, mas duma forma insólita.

Podia ter curado o pobre homem só pela imposição das mãos, como lhe pediram, ou simplesmente por uma palavra, e até mesmo só por um ato da vontade: volo, mundare. - Mas, neste caso, quis empregar algumas cerimônias misteriosas, sem dúvida por motivos dignos da sua infinita sabedoria.


1 - Primeiro quis, com certeza, excitar a fé do enfermo e dos seus amigos e tornar o milagre mais impressionante, pelo uso de certos ritos extraordinários.


2 - Quis, com estes símbolos, fazer-nos compreender a dificuldade da cura da surdez e do mutismo espiritual, isto é, do pecador endurecido; e, por consequência, que não há demônio mais perigoso que o que nos torna surdos à voz de Deus e que nos fecha a boca para nos impedir que chamemos por ele e lhe descubramos as chagas da nossa alma.


3 - Quis ainda ensinar-nos quão dignas são do nosso respeito e da nossa veneração todas as cerimônias da Igreja, instituídas para a administração dos Sacramentos, mormente do Batismo, à imitação e por inspiração de Nosso Senhor. Na verdade, no Batismo, encontramos as ações e as palavras que o Senhor se dignou empregar na cura deste pobre surdo-mudo, o qual era a imagem da alma ainda sob o poder do demônio; antes de ser regenerada na piscina sagrada.


V - Que fez Nosso Senhor para operar esta cura?

1. - Antes de mais nada, Jesus toma-o à parte, fora da multidão, apprehendens eum de turba seorsum. É para nos ensinar que esta espécie de pecadores endurecidos não se converte, enquanto permanecem no tumulto do mundo e na ocasião de pecado.


Somente na solidão, no retiro podem pôr-se em estado de ouvirem a voz de Deus, de lhe falarem, de serem curados: “Ducam animam in solitudinem, et loquar ad cor ejus”.


2. - Et misit digitos suos in auriculas ejus. Esta ação misteriosa significa que, pelos dons do Espírito Santo, que é o dedo de Deus, digitus Dei Altissimi, digitus paternae dexterae, Deus abre a inteligência para compreender as suas palavras, e concede a graça para cumprir os seus preceitos. - O dedo de Deus é ainda o poder de Deus, único que pode converter os pecadores endurecidos: Digitus Dei est hic…


3. - Et expuens, tetigit linguam ejus. A saliva, com a qual o Salvador tocou a língua do mudo, simboliza a sabedoria divina que, tocando a nossa língua, a desliga para a fazer confessar e pregar a fé em de Jesus Cristo. - Em Nosso Senhor tudo é santo e divino, capaz de produzir maravilhas: seus dedos abrem os ouvidos e sua saliva solta a língua.


4. - Et suspiciens in coelum. Este gesto de erguer os olhos era familiar ao Salvador, quando estava prestes a operar algum grande prodígio. Com ele nos ensina que todo o socorro vem do alto, que é de lá que devemos esperar a graça, mas sobretudo a conversão dos pecadores.


5. - Ingemuit. Este gemido era o sinal do vivo sentimento de piedade, excitada no Coração de Jesus à vista da profunda miséria em que se tinha abismado este doente e sobretudo os pecadores, dos quais era a figura. Igualmente nos revela os abismos da compaixão e da misericórdia de Jesus, e ensina-nos que devemos compadecer-nos dos sofrimentos do próximo.


Diz-nos também que é com gemidos que devemos implorar a assistência divina, principalmente quando oramos pelos nossos pecados e pelos nossos irmãos.


6. - Et ait: Epheta, quod est, adaperire. Por esta palavra siríaca, cujo significado é: abri-vos, Nosso Senhor, que acaba de gemer como homem, ordena como Deus e a natureza obedece-lhe imediatamente.


VI - Explicai estas palavras: “Et statim apertae sunt aures ejus, et solutum est vinculum linguae ejus et loquebatur recte”.

A palavra do Salvador produz imediatamente o seu efeito: o doente encontra-se curado, os seus ouvidos abrem-se, e a sua língua solta-se. O surdo ouve a voz do seu divino médico; o mundo exprime-se com uma facilidade que admira e regozija todas as testemunhas deste grande milagre. - Ele falava distintamente. Há exegetas, que, com razão, concluem da palavra recte que este homem não era absolutamente mudo, mas tinha qualquer impedimento grave na língua, que o impedia de articular bem. É no fervor do pecador em ouvir a palavra divina e as coisas de Deus, pela sua atenção em já não dizer qualquer coisa que lhe desagrade, mas em louvá-lo, em orar, em só falar de coisas edificantes, que se conhece a sinceridade da sua conversão: Loquebar recte. Ex abundantia cordis os loquitur.


VII - Por que é que Nosso Senhor proíbe aos assistentes que contem o milagre?

Com esta proibição procurava Jesus dar-nos uma lição de humildade e modéstia. Ele recusa os aplausos, nós procuramo-los. Estando a nossa natureza tão viciada pelo orgulho, deveríamos vigiar atentamente sobre nós próprios e sobre até as nossas melhores e mais santas obras, porque, por mais que procuremos o louvor e a estima dos homens, nunca os alcançaremos, - e que valem eles? - mas perdemos todo o mérito perante Deus. Evitemos publicar ou proclamar, como os fariseus, qualquer ato virtuoso que tenhamos praticado. Cuidemos antes de resguardá-lo com o véu da humildade e conservá-lo secreto, e Pater tuus qui videt in abscondito, reddet tibi. Sinistra tua nesciat quid faciat dextra tua.


Esta lição do Salvador parece dirigir-se sobretudo aos seus ministros que, mais que ninguém, estão expostos às tentações da vanglória, especialmente em certas funções do seu ministério, como a pregação, conversão de certos pecadores, etc…


S. João Crisóstomo, S. Jerónimo e outros padres julgam que Nosso Senhor não pretendia impor a estrita obrigação de não falar nos milagres que operava. Era mais uma lição de humildade e modéstia que uma proibição rigorosa.


Se o que faz uma boa obra não deve procurar o aplauso, aquele que recebe o benefício deve louvar o benfeitor, embora ele se recuse e proíba. - É assim que nós vemos os amigos do surdo-mudo não tomarem a proibição do Salvador senão como um simples desejo; a admiração deles era muito grande e muito entusiasta para ser contida e não explodir: Quanto autem eis praecipiebat, tanto magis plus praedicabant.


Quanto mais lhes proibia que falassem desta cura, mais altamente a proclamavam e mais a admiravam e exclamavam: honra, louvor, bênção ao grande profeta que faz bem todas as coisas: faz ouvir os surdos e falar os mudos!


VIII - Explicai as palavras: “Bene omnia fecit”.

A admiração e a gratidão arrancavam à multidão esta nobre e bela apologia do Salvador, contra as murmurações e calúnias dos fariseus. Esta frase é um elogio magnífico que propriamente só convém a Deus: Opera Domini universa bona valde. Cuncta quae fecerat erant valde bona.


Bene omnia fecit: palavra admirável! Digamo-la muitas vezes, sobretudo nas cruzes e nas provações, no meio dos acontecimentos mais desagradáveis, pois que nada sobrevém que não seja por permissão da vontade de Deus.


Ele é infinitamente sábio e, embora presentemente não vejamos a razão da sua conduta , bendigamo-lo apesar disso, porque bene omnia fecit.


Peçamos-lhe a graça de também nós fazermos bem todas as coisas, isto é, de fazermos cada uma das nossas ações conforme for do seu beneplácito, para sua glória e por seu amor.


Os oráculos do profeta Isaías estão totalmente cumpridos, porque eles anunciavam que o Messias faria ouvir os surdos, falar os mudos, ver os cegos.


Eram, aliás, precisamente os mesmo sinais que o próprio Salvador dava na sua respostas à consulta de S. João Batista: Ite, renunciate Joanni quae audistis et vidistis: Coeci vident, claudi ambulant, surdi audiunt, etc…


Ó Jesus, meu bom Salvador, suplico-vos que vos digneis abrir os meus ouvidos, para que aprenda a vossa santa vontade, soltar a minha língua, para que vos louve e vos faça conhecer e amar.


Enchei-me do vosso Espírito, para que não viva senão para vós, e faça todas as minhas ações conforme vossa vontade: “Ut semper ad tuam justitiam faciendam nostra procedant eloquia, dirigatur cogitationes et opera”. Amém.



MISSA DO XI DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



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