• Apostolado FERR

Explicação do Evangelho do XV Domingo depois de Pentecostes




I

EVANGELHO

(Lc 7, 11-16)


Sequéntia sancti Evangélii secúndum Lucam.

IN illo témpore : Ibat Iesus in civitátem, quæ vocátur Naim : et ibant cum eo discípuli eius et turba copiósa. Cum autem appropinquáret portæ civitátis, ecce, defúnctus efferebátur fílius únicus matris suæ : et hæc vidua erat : et turba civitátis multa cum illa. Quam cum vidísset Dóminus, misericórdia motus super eam, dixit illi : Noli flere. Et accéssit et tétigit lóculum. (Hi autem, qui portábant, stetérunt.) Et ait : Adoléscens, tibi dico, surge. Et resédit, qui erat mórtuus, et cœpit loqui. Et dedit illum matri suæ. Accépit autem omnes timor : et magnificábant Deum, dicéntes : Quia Prophéta magnus surréxit in nobis : et quia Deus visitávit plebem suam.


Continuação do Santo Evangelho segundo São Lucas.

NAQUELE tempo, ia Jesus para uma cidade chamada Naim. Iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão. E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva. Vinha com ela muita gente da cidade. Vendo-a, o Senhor moveu-se de compaixão para com ela, e disse-lhe: Não chores. Depois, aproximou-se e tocou no esquife. (E os que o levavam, pararam.) Então Jesus disse: Jovem, eu te digo, levanta-te. E o que estava morto se sentou, e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. Todos, porém, se encheram de temor; e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande Profeta surgiu entre nós; e Deus visitou o seu povo.



II

EXPLICAÇÃO

I - Em geral, que observância fazeis sobre este Evangelho?

Ele é admirável na sua brevidade e na sua simplicidade. s. Lucas dá-nos um quadro vivo da cena que narra: tem-se a impressão de se estar a assistir a ela.


Quanto luto deixou a morte deste jovem e que dor a da pobre mãe! Mas o que domina tudo, é a terna compaixão de Jesus, igual ao seu poder, que o impele a operar imediatamente a ressurreição deste morto, sem ser levado por nenhuma solicitação ou pedido exterior. - Glorifiquemos, demos graças, amemos o nosso bom Salvador que, tantas vezes, tem tido compaixão de nós e nos ressuscitou da morte espiritual.


II - Que quer dizer: “In illo tempore: ibat Jesus in civitatem quae vocatur Naim”?

Era no segundo ano da pregação de Jesus, pela época de Pentecostes. O Senhor vinha de Cafarnaum, onde tinha curado o filho do centurião e dirigia-se a Jerusalém para a festa. - Naim encontra-se no caminho, que passa junto do Monte Tabor e atravessava a Samaria, em direção a Jerusalém. Naim significa bela, graciosa, assim chamada, sem dúvida, por causa da beleza e do encanto da sua situação. Estendia-se pela vertente do pequeno Hermon, tendo a seus pés a vasta e fértil planície de Esdrelon.


III - Porque é que S. Lucas tem o cuidado de dizer: “Et ibant cum eo discipuli ejus et turba copiosa”?

O Evangelista depois de ter terminado o lugar do milagre, indica em seguida as testemunhas dele.


Primeiro são os discípulos de Nosso Senhor, depois é a multidão que, habitualmente, o acompanha, sempre ávida de ouvir a sua palavra e de ver os seus prodígios; enfim, a outra multidão que acompanhava ao túmulo o cadáver do jovem. Nosso Senhor, na sua infinita sabedoria, quis assim multiplicar as testemunhas do milagre, que ia fazer, para que o não pudessem pôr em dúvida e manifestar a sua divindade ao povo, que vinha salvar.


Esta numerosa assistência que se comprime em volta dá uma excelente lição a muitos cristãos dos nossos dias, que têm tão pouco zelo em vir à Igreja, onde encontrariam Jesus, em ouvir a sua palavra, em o acompanhar nas procissões, ou quando vai visitar, ou consolar os enfermos e moribundos. Ah! não será isto um sinal de que têm pouca fé e amor?


IV - Explicai estas palavras: “Cum autem appropinquaret portae civitatis, ecce defunctus efferebatur, etc”?

Este encontro não era fortuito; tinha sido disposto pela sabedoria divina, para dar a Nosso Senhor, com a ressurreição deste morto, ocasião de provar que era o Messias: Ut manifestentur opera Dei in illo.


Este morto era levado para fora da cidade, para ser depositado no seu túmulo, porque o costume dos judeus não permitia sepultar no interior das cidades.

Ir o jovem morto a enterrar é prova evidente da sua morte, o que torna o milagre irrecusável.


Era filius unicus matris suae, et haec vidua erat. Um jovem, - de família importante, sem dúvida, pois que turba civitatis multa seguia o cadáver, - filho único, só e última esperança de sua mãe, - porque ela era viúva. Dir-se-ia que o evangelista, com todos estes detalhes acumulados, breves e impressionantes, quer provar a nossa compaixão pela sorte deste adolescente, morto na flor da idade, e da sua mãe, pobre viúva justamente inconsolável. Oh! como a morte é dura e cega e como nesta circunstância parece cruel! Siccine separat amara mors? Infortunado mancebo, roubado à afeição da mãe, separado da sua fortuna, arrebatado tão cedo a um futuro ridente e feliz! Que lição para todos! - A morte não faz acepção de pessoas; fere, quando menos se pensa, os jovens e os velhos, os ricos e os pobres, tanto nos degraus do trono como na cabana. Ela convida-nos a desprender-nos de todas as coisas do mundo e estar sempre prontos.


Como é digna de compaixão esta pobre mãe, de hoje em diante sozinha e sem apoio!


É talvez por isto que, quase toda a cidade veio ao cortejo fúnebre, para dar à mãe um supremo testemunho de simpatia. Mas a sua desgraça e, sem dúvida também, a sua piedade vão merecer-lhe um infinitamente mais precioso e maior.


V - Que reflexões fazeis sobre estas palavras: “Quam cum vidisset Dominus, misericordia motus super eam, dixit noli flere”?

Jesus ficou comovido de compaixão, ao ver tão grande dor. - quase em cada página do Evangelho temos ocasião de notar a misericordiosa bondade do Salvador: o seu coração abre-se para todas as enfermidades, para todos os infortúnios, para todas as dores, para todas as misérias. Dir-se-ia que só usa a sua onipotência para consolar, aliviar, fazer bem a todos: Pertransiit benefaciendo. Manifesta a sua compaixão, antes de tudo, por esta consoladora palavra: Noli flere; A seguir por um ato de bondade e de poder infinitos, ressuscita o filho e entrega-o à mãe.


Nosso Senhor ensina aqui a seus ministros que eles devem ter um coração terno e compassivo, sempre pronto a consolar e a aliviar as penas e os infortúnios do próximo. Quanto bem uma simples palavra, como a do Salvador: Noli flere, pode, por vezes, fazer a um coração enlutado pela dor, a pais inconsoláveis pela morte dum filho muito amado! É verdade que nós não podemos ressuscitar os mortos; mas podemos despertar ou excitar a fé, apontar o Céu, onde as almas se reconhecem, onde se encontrarão aqueles que se amaram e perderam, onde um filho querido será restituído a sua mãe.


Recordemos as belas palavras dum santo bispo a Santa Mônica que chorava os desvarios do seu filho Agostinho: “É impossível que o filho de tantas lágrimas perecer”! Que consolação deveria sentir o coração da santa! Tristitia vestra vertetur in gaudium!


VI - Expõem-se as circunstâncias da ressurreição deste jovem.

1 - Et accessit, et tetigit loculum. Depois de ter consolado a mãe e reanimado as suas esperanças, Jesus aproximou-se e tocou o caixão do morto, para nos fazer reconhecer, diz S. Cirilo de Alexandria, a virtude vivificante do seu sagrado corpo para a Salvação dos homens; para nos mostrar que este corpo, unido à Divindade, era o orgulho, o instrumento, o cooperador dela na preparação dos milagres.


2 - Hi autem, qui portabant, steterunt. Os que o levavam, feridos pela majestade que irradiava do rosto de Jesus, pararam subitamente. Fez-se então um silêncio solene e houve um momento de inefável expectativa. A multidão atenta, a mãe radiante de esperança no meio das suas lágrimas ainda mal estancadas, Jesus recolhido e solene, que quadro sublime!

3 - Et ait: Adolescens, tibi dico surge! As outras duas ressurreições, que o Evangelho narra, a da filha de Jairo e a de Lázaro, foram operadas por intimações de poder análogo a esta: Puella, surge; e Lazare, veni foras. Que grandeza e que simplicidade! “Nemo tam facile excitat in lecto, quam facile Christus in sepulchro”, diz Santo Agostinho.


- O Salvador não se parece com Elias, nem com Eliseu, obrigados a clamar por Deus e de alguma forma a adaptar o seu corpo ao corpo do defunto, para o chamar à vida. Ele é o Senhor soberano da vida e da morte e, por um ato do seu divino poder, por uma ordem sua, à qual tudo obedece, faz levantar vivo este jovem: tibi dico, surge!


4. - Et resedit qui mortuus erat, et coepit loqui! À palavra de Jesus, o morto, estendido no caixão (Não fechado, mas aberto, conforme o costume dos judeus) senta-se imediatamente; e, para provar que a sua ressurreição não era só aparente, mas real, começou a falar. Sem dúvida, as suas primeiras palavras foram de agradecimento àquele que acaba de restituir-lhe a vida.


5. - Et dedit illum matri suae. Há, neste fáto, qualquer coisa de inevitavelmente suave, uma delicadeza verdadeiramente divina. Foi por compaixão com esta mãe aflita que Jesus operou o milagre: agora oferece-lhe, como um precioso presente, o filho ressuscitado e cheio de vida. Quem dirá a alegria dum e doutro?


VII - Qual foi o resultado deste milagre sobre o povo?

Eles ficaram cheios de temor, não de temor inquieto, causado pela ameaça de qualquer mal iminente, mas de temor religioso e misterioso, que provém da vista dum grande prodígio e da admiração e veneração inspiradas pelo ato maravilhoso duma potência extraordinária. - Em sinal de gratidão, glorificam a Deus proclamando a sua grandeza e diziam: um grande profeta, aquele que foi predito por Moisés e os Profetas, aquele que é mais que Profeta, mas que João Batista, o Profeta do Altíssimo, celebrado por Zacarias, um grande Profeta apareceu entre nós; Deus visitou o seu povo, enviando-lhe um médico para o curar, o Messias para o salvar! E contudo, continuam a existir na terra tantos judeus, pagãos e maus cristãos que desconhecem, blasfemam e crucificam, de novo, Nosso Senhor! Que, ao menos, nós que a cada instante experimentamos os efeitos da sua bondade e do seu poder, o adoremos, lhe demos graças, o amemos de todo o coração, lhe obedeçamos em tudo, e todas as manhãs, à Missa lhe prestemos as nossas homenagens como Rei e Senhor muito amado! Quia Deus visitavit plebem suam.


VII - Misticamente que significa este milagre?

1 - Santo Agostinho num dos seus sermões , aplica à ressurreição espiritual dos pecadores, o que o Evangelista expõe aqui acerca da ressurreição deste jovem. (Ver o Breviário, no Domingo de hoje, a homilia do Santo Doutor).


2 - Segundo Ludolfo de Chartreux: a) o jovem, filho desta viúva de Naim, representa o homem que o pecado mortal matou. O seu cortejo fúnebre figura o pecador arrastado pelas suas paixões a consumar externamente o pecado. b) A mãe desolada, que chora o filho único e a qual o nosso misericordioso Salvador consola é a Igreja nossa mãe, viúva do Esposo que morreu por ela e a precedeu no Céu: mãe terna, chora a morte de cada um dos seus filhos, como se fora seu filho único, gerado nas suas entranhas: mãe santa, as suas lágrimas e as suas orações comovem o Senhor; mãe vigilante, é ela que nos entrega e confia depois de nos ter ressucitado.


É ainda toda mãe cristã, que gerou filhos para Deus, para ele os educou e os chora, quando eles se desencaminham e pede a Deus com lágrimas a sua conversão, a exemplo de Santa Mônica, que chora e ora por seu filho Agostinho. c) Para que este morto volte à vida é preciso que Jesus se aproxime e toque o ataúde, isto é, que a graça previna o pecador e lhe eterneça o coração pela compunção. É preciso ainda, que aqueles que o levam, parem, isto é, que o pecador renuncie aos maus hábitos e mortifique as paixões. Então, Jesus manifesta o seu poder: Surje, no Santo Tribunal, pelo ministério dos seus padres que dizem em seu nome: Ego te absolvo! porque quem pode perdoar os pecados senão Deus? d) Esta ressurreição espiritual reconhece-se pela contrição; - coepit loqui, fala para se acusar na confissão; - et dedit illum matri suae, depois de recebida a absolvição, é entregue à sua mãe, a Igreja ou à comunhão dos Santos pela Satisfação, que cumpre por três espécies de obras: a oração, o jejum e a esmola.


Ó Jesus, Médico soberano, ressuscitai tantas pobres almas mortas para a graça, restitui-as, cheias de vida, à sua mãe, a vossa Igreja, para que ela veja todos os vossos filhos servirem-vos com uma fidelidade perseverante e um amor inalterável e chegarem assim à vida eternamente feliz do Céu. Amém.



MISSA DO XV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES




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