• Apostolado FERR

Homilia: A Providência Divina




HOMILIA PARA O XIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

(P. THIRIET)



A Providência Divina

Ne solliciti sitis animae vestrae quid manducetis, neque corpori vestro quid induamini.


Admiramos os milagres que Nosso Senhor operou e ficamos insensíveis perante a bondade de Deus, que diariamente executa em nosso favor, maravilhas bem mais consideráveis.


Afadigados que andamos com a labuta pela vida, não refletimos seriamente na ação divina que nos governa e dirige com tanta bondade, esquecemos que todas as nossas atividades, embora livres, recebem a sua força da onipotência divina, prescindimos de Deus como se nos fora possível realizar movimento algum, sem sua cooperação. Mesmo na ordem natural, é uma verdade inegável o concurso de Deus para manter-nos na existência.


Ora, é para esta paternal e contínua dependência de Deus, para a sua providência amorosa, que Jesus chama a nossa atenção e requer a nossa confiança ilimitada. O segredo de ser feliz é abandonar-se em todas as coisas a esta boa e amável Providência: bonum est confidere in Domino,... qui dat escam carni. Quais são os nossos deveres para com ele?


I - Crer na sua ação.

Mas, antes de tudo, o que é a Providência? - É a sabedoria, a bondade e o poder de Deus exercendo-se sobre as criaturas para as conservar, dirigir e conduzir ao seu fim.


Com referência ao homem, em particular, é Deus que se inclina sobre nós e aplica estes três atributos em conceder-nos toda a espécie de bens e em preservar-nos de toda a espécie de males, tudo em ordem à nossa felicidade eterna, porque é para nos tornar eternamente felizes que Deus nos criou. Deus exerce para conosco o papel de mãe cheia de atividade e ternura, que cuida da vida do seu filho e que não tem repouso, enquanto o não vê tranquilo e contente, ao abrigo dos perigos: Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? Et si illa oblita fuerit, ego non obliviscar tui.


Dispondo todas as coisas segundo a ordem conveniente e conforme à sua adorável sabedoria, Deus provê ao bem do mundo, do homem; dirigindo o mundo e o homem para o seu destino, Deus governa as criaturas… Negar a Providência é uma impiedade e uma loucura, porque é negar o próprio Deus.


Tua, Pater, Providentia gubernat omnia… Attingit a fine usque ad finem fortiter, et disponit omnia suaviter…


Nós devemos acreditar na Providência. A fé, a razão e a experiência impõe-nos essa obrigação.


1.º A fé no-la ensina “Credo in Deum, Patrem omnipotentem, creatorem coeli et terrae”.

a) A prova sensível, mais manifesta, da existência de Deus e da sua Providência, é a Criação do universo e o paternal cuidado que Deus presta a todos e a cada um dos homens.

Tudo regula com sabedoria infinita e tudo vigia com poder e suavidade admiráveis…


b) Deus digna-se ocupar-se dos mais pequenos animais e das mais minúsculas plantas: imples omne animal benedictione, e, sem dúvida, com mais poderosa razão, do homem, sua criatura privilegiada… É ele próprio que nos recorda, para reforçar a nossa fé no seu cuidado pelo homem, a sua solicitude com as aves do céu e os lírios do campo.


c) Na sua extensão, a Providência divina ultrapassa infinitamente, o mais amante e dedicado chefe de estado pelo bem dos súditos. Este apenas poderá dedicar-se ao bem geral, sem possibilidade de procurar a prosperidade e felicidade e cada indivíduo em particular. Ultrapassa até a do mais carinhoso pai, que terá sempre só meios limitados e se sentirá aliviado, quando os filhos podem bastar-se.


Mas, em toda parte e sempre, cada um de nós tem necessidade de Deus e, com efeito, sempre e em toda parte, o encontra atento às suas necessidades. Com razão exclamou Santo Agostinho:

“O tu, bone omnipotens, qui curas unumquemque nostrum, tanquam solum cures; et sic omnes, tanquam singulos! Sic super custodiam meam stas, sicut si omnium oblitus sis et mihi soli intendere velis…”


2º A razão no-la prova. Criou Deus o universo e a sua sabedoria o governa incessantemente, para que ele atinja o seu fim… Todos os seres dependem de tal forma de Deus, que nenhum escapa à sua ação…


Nada no mundo pode suceder, que não tenha sido previsto, coordenado, querido ou permitido nos eternos decretos de Deus… Recusar a Deus, a sua Providência, é negar a sua sabedoria e a sua bondade, porque, ou ele conhece a nossa impotência, ou a ignora; se a ignora não tem sabedoria e se a conhece sem a amparar, é porque não tem poder ou bondade.


Ter-nos-ia Deus criado à sua imagem e semelhança para, em seguida, nos abandonar e não pensar mais em nós? - Só pensar assim é fazer grave injúria; é ímpio e pagão dizer que o acaso é senhor dos acontecimentos…


3º A experiência diária, dela nos convence, porque vemos com os olhos, tocamos com o dedo a Providência de Deus na harmonia do mundo, no governo dos astros, na ordem das estações… Quem nos faz crescer, nos conserva, nos cumula continuamente de toda a espécie de benefícios? - É, sim, a sereníssima Providência do nosso Pai que está nos céus… In ipso vivimus, et movemur, et sumus… e nem um cabelo cai da nossa cabeça, sem a sua permissão…


De novo ainda, é uma impiedade e uma loucura não crer na Providência. Aquele que nega ou pede provas dela, merece, diz Aristóteles, não que se lhe responda mas que o vergastem.


II - Submissão à Providência.

1º Deus é dono e soberano Senhor de todas as coisas… Nada acontece, sem sua ordem ou permissão…


Ora, quantas vezes em lugar de imitar Jó, nós discutimos a conduta divina acerca de determinados acontecimentos, certas desgraças… É que a nossa percepção é limitada e só atendemos ao presente e ao que se nos refere… Mas a vida de Deus atinge a solis ortu usque ad occasum e abrange todos os tempos. “Do alto da montanha, dizia o Cardeal Pie, o pastor vê melhor e a maior distância que as ovelhas espalhadas pela planície”. À força de razão, o Príncipe dos pastores, cuja Providência envolve, em extensão e vigilância, todo o universo coelestium, terrestrium et infernorum! Nós somos cegos e no universo tudo nos parece em desordem, embora tudo esteja maravilhosamente coordenado e harmonizado… e tomamos a luz pelas trevas e as trevas pela luz.

Daí provêm as nossa críticas, mas de quem é a culpa?


2º Deus é infinitamente sábio e onipotente e quem será suficientemente ousado para lhe perguntar o porquê de agir desta ou daquela maneira? Quem é que mediu as águas com a concavidade de sua mão, e pesou os céus com o seu palmo? quem sustentou em três dedos toda a massa da terra, e pesou os montes com um peso, e os outeiros na balança? Quem ajudou o espírito do Senhor? Quem foi o seu conselheiro? Quem lhe ensinou o que devia fazer?


Quem somos nós para querer penetrar os seus secretos juízos, sempre justos e cheios de amor? para submeter à crítica ou à nossa inspeção a utilidade ou inutilidade dos diversos seres, as desigualdades que ele estabeleceu, mesmo a sua tolerância com os maus? “Há homens, diz Santo Agostinho, que não são capazes de criticar ou apreciar os utensílios de que se serve um operário porque, ou não conhecem o seu uso, ou os julga muito úteis… Mas, quando se trata do mundo, onde tudo fala do grande artista que é Deus criador e administrador, levam a sua loucura até censurarem muitas coisas, cujo uso ou utilidade não percebem e dão a saber o que ignoram nas obras e instrumentos do grande operário onipotente!”


3º Querer resistir-lhe não será loucura, impiedade, revolta? Mas, se quiser, Deus nos quebrará como o oleiro quebra o vaso, que acaba de fabricar.


Se permite ou se quer que nós soframos certa doença ou aflição, determinado prejuízo nos bens, algum luto, teremos direito de censurar a sua vontade soberana e absoluta? E por que queixarmo-nos? Não será esta atitude a causa de nos privarmos duma infinidade de bens que talvez assim nos preparasse?


Para Deus, as adversidades, as doenças, as provações, são fontes da sua graça, tal qual a prosperidade e a sorte. Vede José, Tobias, Jó.


E quantas vezes elas afastam de nós, mil perigos de perdição: cum ipso sum in tribulatione… Beati qui lugent…


4º Aliás, submeter-se total e amorosamente em tudo à divina Providência, é honrar a Deus dum modo perfeitíssimo, é fazer, de fato, ato de fé, ato de esperança e ato de amor: O Senhor me conduz, nada me faltará, é reconhecer seu supremo domínio, é colocar a seus pés a nossa razão e vontade; é oferecermo-nos a ele com hóstias santas, vivas, agradáveis a seus olhos; é testemunhar-lhe a nossa confiança, tomando como dito a nós o que Jesus disse aos Apóstolos: Multa habeo vobis dicere, sed non potestis portare modo… Aguardemos o seu tempo e a sua hora…


5º Por isso, quaisquer que sejam os acontecimentos ou os acidentes que nos sobrevierem, seja qual for a condição em que o Senhor nos puser e a provação que lhe aprouver enviar-nos, evitemos murmurar ou queixarmo-nos, mas adoremos os seus misteriosos desígnios, que são pôr-nos à prova, santificar-nos, fazer-nos conquistar o Céu.


Imitemos os Santos… Jó, nas suas tremendas desgraças contenta-se com dizer: Sicut Domino placuit, ita factum est; sit nomen Domini benedictum! Tobias jamais se queixou da sua cegueira, mas, adorando os desígnios de Deus, dava-lhe graças.


III - Confiar na Divina Providência.

1º Deus é Pai infinitamente bom; escolheu-nos e amou-nos com caridade perpétua, in charitate perpetua, ante mundi constitutionem… O seu olhar vigia por nós em todos os tempos e lugares; os nossos nomes, diz, estão escritos na sua mão e ama-nos mais que a mãe ao filho…


A história do mundo, é uma série ininterrupta de bondades e benefícios da Providência, apesar da ingratidão dos homens.


2º Deus é infinitamente sábio, conhece todas as nossas necessidades e os meios de a prover; sabe converter em glória para si e em proveito para nós, os acontecimentos, na aparência mais contraditórios: diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum.


3º Enfim, Deus é infinitamente poderoso. Nada acontece, senão conforme à sua vontade e aos seus eternos decretos.


Pode tudo o que quer e nada lhe é impossível… Contudo Deus respeita a liberdade do homem e quer que nós sejamos responsáveis pelas nossa ações, merecendo prêmio ou castigo, conforme a moralidade dos nossos atos e conforme tivermos aproveitado, ou abusado do auxílio da sua Providência, para o bem ou para o mal… A graça de Deus é onipotente, mas para nos ajudar, nos inclinar a obedecer-lhe: “Ajuda-te a ti mesmo, que o Céu te ajudará.”


Ele tem na sua mãos o coração e a vontade dos homens, para os conduzir suavemente a seus desígnios, mas não para o violentar. É por isso que o sábio louva a divina reserva do Senhor assim: cum magna reverentia disponis non…


Chegada a hora, fere aqueles que deliberadamente lhe resistiram e incorreram no castigo reservado aos prevaricadores: Potens es, Domine, et magnus, et terríbilis… Tua est, Domine, magnificentia, et potentia, et gloria, et victoria, et tibi laus… Sive vivimus, sive morimur, Domini sumus. Dominus regit me, et nihil mihi deerit…


Conclusão - Tenhamos, irmãos caríssimos, uma fé imensa na divina Providência. “Ela está, diz, S. Gregório, acima de nós para nos governar, debaixo de nós para nos sustentar, em nós para nos defender”. Adoremos todas as suas ordens e todas as suas disposições, por mais misteriosas e impenetráveis que nos pareçam…


Submetamo-nos, sem murmuração e com perfeita resignação, a todos os seus desígnios… Entreguemo-nos nas suas mãos, com doce confiança e santo abandono em todas as nossas necessidade, perigos e infelicidades. Ele é Pai. Ama-nos… Jacta super Dominum curam tuam, et ipse te enutriet...




MISSA DO XIV DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES



#homilia #padrethiriet #sermão #xivdomingodepoisdepentecostes #missatridentina

SIGA-NOS:

  • YouTube
  • Twitter ícone social
  • Pinterest
  • Facebook ícone social

© 2019 Apostolado FERR - Forma Extraordinária do Rito Romano