• Apostolado FERR

Homilia de Dom Castrillon


Dom Castrillon na Sagração de Dom Fernando

HOMILIA DO CARDEAL CASTRILLON

NA SAGRAÇÃO DE DOM FERNANDO


Veneráveis irmãos no sacerdócio, queridos irmãos e irmãs,

l. “Haec dies quam fecit Dominus, exultemus et laetemur in ea” (Sl.. 118 [117], 24) Há um ano, a União Sacerdotal São João Maria Vianney, de Campos, dirigia um comovente apelo ao Santo Padre, renovando-lhe a própria submissão e obediência filial e pedindo que fosse reconhecida no seio da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Era um momento importante, fruto de um caminho de discernimento, de reflexão e de oração, guiado pelo Espírito Santo.


O Santo Padre, no dia de Natal daquele mesmo ano, assinava uma carta autógrafa, acolhendo o pedido da União e anunciando a sua intenção de dotá-la com uma estrutura jurídica apta a assegurar, por um lado, o respeito pelas legítimas tradições e aspirações e, por outro lado, capaz de manter a necessária comunhão hierárquica com a Igreja universal. Em janeiro deste ano, eu tive a alegria, aqui em Campos, de dar execução ao que fora disposto pelo Santo Padre, que erigiu a Administração Apostólica São João Maria Vianney de Campos e nomeou o querido Bispo Dom Licínio Rangel como seu primeiro Administrador Apostólico. Ao mesmo tempo, a Congregação para os Bispos, cumprindo o mandato do Sumo Pontífice, elaborou a normativa particular que rege, juntamente com o Código de Direito Canônico, esta parcela da Igreja de Cristo.


2. Juntos fazemos nossa, especialmente hoje, a invocação do Livro da Sabedoria “Dá-me a sabedoria que está sentada no trono junto a ti... para que ela me assista e proteja no trabalho e eu saiba o que te agrada” (Sap 9,4.10). Nesta sapientia cordis, que é um dom de Deus, podemos resumir o fruto da nossa presença aqui. Esse dom consiste na conformação interior com Cristo, Sabedoria do Pai, por meio da, ação do Espírito Santo. É um dom indispensável para o bom governo da Igreja. Para conseguí-lo, os Pastores devem passar através de Cristo, “porta das ovelhas” (Jo 10,7).


Estamos chamados a imitar o “bom Pastor” (Jo 10,11. 14), e assim os fiéis ao escutar-nos, O escutarão e ao seguir-nos, O estarão seguindo, a Ele que é o único Salvador, ontem, hoje e sempre. Eis-me novamente em Campos, desta vez na Igreja principal da mesma Administração Apostólica pessoal, com o coração cheio de alegria e de gratidão ao Senhor, para conferir ao Pe. Fernando Arêas Rifan a sagração episcopal, por vontade do Santo Padre. Chamado a exercer o ministério episcopal, ao lado e como Coadjutor de Dom Licínio, nesta Administração Apostólica pessoal.


Dom Fernando recebe a missão divina para ser gozo e esperança para a Igreja e a humanidade inteira (cf. GS 1). Recordamos que o Bispo é sempre ministro da esperança porque é ministro de Cristo (cf. LG 21), é o primeiro a ser chamado por Deus a responder àqueles que pedem razão da esperança que leva consigo (cf. 1 Pd 3,15). Este acontecimento é uma ulterior expressão do amor do Santo Padre João Paulo II pela Administração Apostólica pessoal João Maria Vianney de Campos, parcela do seu rebanho universal que é a Igreja. Esta sagração episcopal realiza – penso que é importante realçá-lo, realiza o que o próprio Santo Padre tinha prometido a Dom Licínio, em sua carta autógrafa: “será garantida a tua sucessão”. Caríssimo Dom Fernando, a ti o Senhor dirige a mesma ordem dada a Pedro: “apascenta as minhas ovelhas; apascenta o meu rebanho” (cf. Jo 21, 15-17).


O ministério que recebes dar-te-á a plenitude do sacerdócio, para que possas ensinar, santificar e governar os fiéis, com a mesma autoridade que Jesus conferiu aos seus apóstolos. Minister, servidor! A tua vida será totalmente ministerial dado que a tua disposição constante é seguir com fidelidade a vontade fundante de Cristo (cf. Lc 22, 26-27): servir aos outros propter Christum, sem acomodar-te ao ambiente de indiferença religiosa ou de relativismo moral que com freqüência manifesta-se na cultura atual, pelo contrário terás sempre um espírito de iniciativa a tudo aquilo que quer Cristo (cf. Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticanii II, II/II 824-825). Teu ministério, serviço, te pedirá uma disposição ascética de humilde dinamismo (cf. João Paulo II, Carta Ap. Novo Millennio Ineunte, n. 15), para não entorpecer em ti, a presença operativa e eficaz da potestas Christi, daquela potestade que exercitarás «nomine Christi personaliter» e que é «própria, ordinária e imediata» (LG, n. 27ª).


Trata-se, pelo tanto, daquele eximium servitium (LG, n. 21ª) que Cristo confiou aos Apóstolos, depois de tê-los colmado de graça no dia de Pentecostes (cf. Hch 2,1-26), e que ainda hoje, Ele confia àqueles que elege, consagra e envia (cf. Traditio Apostolica 2, ed Botte, Source Chretienne, p. 27), como sucessores dos próprios Apóstolos (cf. l Tim 4, 14; 2 Tim l , 6-7), desde os novos Cenáculos na Igreja, por meio da sagração episcopal (cf. Conc. Trid., Ses. 23, c.3, Denz. 959 -1766). É a plenitude do sacramento da Ordem, chamada na prática litúrgica da Igreja e no ensinamento dos Santos Padres, sumo sacerdócio, cume dos ministérios (LG, n.21 b). Dessa forma o Bispo, pela imposição das mãos e pelas palavras de consagração, é configurado ontologicamente com Cristo. Dessa maneira, de modo visível e eminente, faz às vezes dEle como Sacerdote, Mestre e Pastor e age no seu lugar (cf. CIC can. 383, 384).


3. Quem é o Bispo? Jesus o diz quando chama os Apóstolos, depois de ter rezado ao Pai, para que vivessem com Ele e para enviar-lhes a predicar o reino de Deus (cf. Mc 3,13-19; Mt 10, 1- 42); quando lhes ensina a rezar, e não fala com eles em parábolas; quando confia-lhes a missão divina, para participarem da sua potestade fazendo de todos os povos discípulos dEle, santificando-os e governando-os, (cf. Mt 28, 16-20; Mc 16,15; Lc 24, 45-48; Io 20,21-23) e desse modo pudessem difundir e apascentar a Igreja, com o próprio serviço, sob a direção do Senhor, todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt ? 8,20). Pedro e Paulo nos dão uma demonstração disso com a própria vida entregada até o martírio e desenhando nas cartas as linhas da figura do Bispo.


Os outros apóstolos também o descrevem exercitando o próprio ministério: temos nas palavras e nos escritos deles uma lente privilegiada para ver e conhecer as virtudes e ministérios episcopais. A Igreja primitiva compreendeu isso com uma clareza admirável. É impossível não lembrar as reflexões de Ignácio de Antioquia que situam-se na tradição do Apóstolo João, onde florescem, como no leito fecundo de um rio da montagem alpestre, as flores da unidade das primeiras comunidades cristãs, e as árvores frondosas da presença de Cristo que fortalece o povo cristão e os une a Deus Pai por meio do Espírito Santo: a fonte imediata dessa unidade é o Bispo, “que é o mesmo cristo, na prpopria carne” (Efes 1,3); porque “onde está o Bispo, ali se constitui a comunidade; da mesma forma, onde está Criisto, ali está a Igreja Católica” (Smirn. 8,2). A unidade da Santíssima Trindade está representada no mistério da Igreja, construída e reunida pela caridade de Cristo presente, como numa imagem vivente, no Bispo. Por isso, os fiéis vivem “unidos ao Bispo, como a Igreja a Cristo, e como o mesmo Cristo une-se ao Pari, para que todas as coisas sejam concordes na unidade” (Efes. 5, l) Também Tertuliano (Praescy. Haer., 32: PL 2, 52-53) e São Irineo (Adv. Haer., III, 2,2; 3,1: PG 7, 847-848) dão testemunho quando falam daqueles que foram instituídos pelos Apóstolos, como Bispos e seus sucessores até os nossos dias, nos quais se manifesta e se conserva a Tradição apostólica no mundo, como num recipiente aparentemente frágil, mas fortificado e continuamente adornado pelo precioso licor divino dessa Tradição. Tu és chamado a ser centro da unidade – “nihil sine Episcopo”, como ensinava Ignácio de Antioquia (Carta aos magnesianos 7, 1) – estabelecendo sempre, em teu clero e em tuas comunidades, aquele laço indestrutível de comunhão com Pedro, na pessoa do seu sucessor, o Santo Padre, pedra sobre a qual Cristo quis construir a sua Igreja (cf. Mt 16, 18).


A Administração Apostólica pessoal São João Maria Vianney dá seus primeiros passos, organizando-se segundo as diretrizes indicadas pelo Sumo Pontífice e traçadas pelas normas jurídicas recebidas. Mas há todo um programa que vai muito além do aspecto organizacional e jurídico: há um caminho de santidade, de união com Deus, de construção da comunhão eclesial, ao interno da própria comunidade e com as outras comunidades da Igreja.


Com a querida Diocese territorial de Campos, existe um caminho a percorrer, de entendimento fraterno e de colaboração efetiva, no respeito mútuo pelas características próprias de cada realidade eclesial presente no território. Mais ainda – permiti-me recordá-lo aqui, neste momento solene – há toda uma dimensão universal, Caixa de texto: Querido Dom Fernando, que neste campo teu ministério episcopal possa ser providencial estímulo e substancial apoio ao Santo Padre na construção da unidade.própria da Igreja Católica, chamada a abranger todo o mundo e todas as pessoas, redimidas pelo Sangue do Redentor.


Esta dimensão universal deverá estar presente, com zelo incansável, audaz e corajoso, em teu ministério episcopal, através do qual muito poderás contribuir “para que todos sejam um” (cf. Jo 17, 21 ), reunidos sob o mesmo cajado e sob o mesmo Pastor, “cum Petro et sub Petro” (cf. Pastores dabo vobis, 16). Querido Dom Fernando, que neste campo teu ministério episcopal possa ser providencial estímulo e substancial apoio ao Santo Padre na construção da unidade.


4. És dado, pelo Santo Padre, como Coadjutor do Administrador Apostólico, para seres seu apoio, seu auxílio e seu sustento, quase o prolongamento dos seus braços e do seu coração pastoral. A unidade de intentos, entre os dois Bispos da Administração, será o sinal mais forte daquela comunhão que deve caracterizar a comunidade dos autênticos discípulos de Jesus: “os fiéis eram um só coração e uma só alma” (At. 4, 32).


O mesmo afeto episcopal ligar-te-á ao Bispo diocesano de campos, consciente de que o Senhor vos chama a apascentar o seu rebanho, partilhando o mesmo território. Tua caridade episcopal levar-te-á a estabelecer com os irmãos Bispos desta regional e da inteira Conferência Episcopal brasileira, laços de sincera correspondência na “sollicitudo omnium Ecclesiarum” (2 Co 11, 28), realizando sempre, sinceramente, aquela expressão de Santo Agostinho que sempre presidiu nossas conversações: “in dubiis libertas, in necessariis unitas, in omnibus charitas”.


A vossa comunhão construirá a comunhão, a vossa unidade na fé fortalecerá a unidade da Igreja, o vosso testemunho de fraternidade verdadeira edificará o mundo! Haec dies quam fecit Dominus, exultemus et laetemur in ea. Uma última palavra, querido Dom Fernando. A ordem de apascentar o rebanho do senhor é precedida por pergunta que, repentinamente, Jesus dirige a Pedro: “Pedro, Tu me amas? Pedro, tu me amas mais do que estes?” (Jo 21, 15).


O episcopado te introduz numa intimidade toda especial com Cristo. Se a tarefa é árdua e difícil, nele encontrarás a força necessária. Seguirás experimentando em ti mesmo a sacra potestas que te será confiada; não vacilamos ao constatar os próprios limites e erros, sabendo que precisamente na nossa fraqueza humana encontra-se a exousía, o poder divino, que transforma, fortifica e rejuvenesce continuamente nosso ministério, que é anúncio vivo do mistério de Cristo.


Estes são os meus votos, que se fazem oração, para que possas responder, com todas as forças do teu ser, do teu ser marcado definitivamente com o caráter episcopal, em tua vida e, por tuas obras: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 2117).


Confio a tua pessoa e o teu ministério à Santíssima Virgem Maria, Mãe dos Sacerdotes e Mãe da Igreja. "Ipsa conteret"... Ela será tua valiosa proteção, escudo e auxílio. Ela te acompanhará com carinho todo especial, porque serás Bispo do seu Filho, Bispo da Igreja do seu Filho divino, Pastor dos seus filhos, que ela recebeu solenemente, aos pés da cruz do Redentor (cf. Jo 19, 26). Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genetrix. Amém.





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