• Apostolado FERR

Jesus a caminho do Calvário - Crucificação (Homilia)



HOMILIA PARA A SEXTA-FEIRA SANTA

Apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio


III

JESUS A CAMINHO DO CALVÁRIO - CRUCIFIXÃO

Baiulans sibi crucem, exivit in eum qui dicitur Calvariæ locum,...

ubi crucifixerunt eum

(João, XIX, 17-18).


Jesus vai consumar o seu sacrifício.

Condenado à morte por Pilatos, vai, subindo à cruz, resgatar-nos da condenação à morte eterna, pronunciada contra nós no paraíso terrestre: Delens quod adversus nos erat chirographum decreti, quod erat contrarium nobis, et ipsum tulit de medio, affigens illud cruci... (Col., II, 14). Além disto, tinha dito: Quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim.


... Redobremos a atenção e excitemos em nossos corações os mais vivos sentimentos, de gratidão, de compunção e de amor...


I - Jesus transporta a cruz.

1.º Logo que Pilatos pronunciou a sentença, os soldados tomam conta de Jesus e, com novos insultos e violências, tiram-lhe o manto escarlate de que o haviam coberto, fazem-no retomar as suas vestes e conduzem-no para o crucificar...


O Salvador, de cruz às costas; caminha para o lugar chamado Calvário, em hebreu Gólgota.

Como manso Cordeiro, deixa-se levar com docilidade e paciência inexcedíveis; fez-se por nós obediente até à morte e morte da Cruz... Oh! sim, quem poderá dizer o amor com que ele ajoelhou, saudou, abraçou e beijou esta venerável cruz, que ia ser o altar do seu sacrifício, enquanto, interior-mente, ia rogando a seu Pai que se dignasse aceitar a oblação do seu Corpo e do seu Sangue!...


Na intenção dos Judeus, a cruz, o mais infamante e ignominioso suplício da antiguidade, devia, para sempre, desonrar Jesus. Eles tinham feito seu e aspiravam a realizar o sonho execrável de seus antepassados: “Exterminemo-lo da terra dos vivos e que seu nome seja apagado da memória dos homens”! (Jer., XI, 19)....


A justiça divina fez, precisamente, o contrário: a cruz transformou-se em distintivo de honra, troféu de mérito e de vitória, que resplandece por toda a parte. O ferrete da ignomínia ficou, sim, gravado na fronte dos que crucificaram o Senhor...


Quanto ao próprio Salvador, a cruz de madeira foi o instrumento da nossa redenção, a arma de combate com a qual “ele reconquistou, diz Tertuliano, por uma obra de emulação, a sua imagem (isto é, o homem) da qual o demônio se havia apoderado”.


Foi assim que ele triunfou, em nome de todos nós, do tirânico domínio de Satanás: “Deus, salutem humani generis in ligno crucis constituisti: ut unde mors oriebatur inde vita resurgeret; et qui in ligno vincebat, in ligno quoque vinceretur, per Christum Dominum nostrum”.


Que terrível suplício para Jesus, tão enfraquecido pela flagelação, quando os verdugos desumanos lhe puseram a pesada cruz aos ombros, já pisados e ensaguentados!... Era o fardo dos nossos pecados, que o manso Cordeiro tomava sobre si e ia transportar para o Altar do Calvário: iniquitates nostras ipse portavit... Não teremos nós compaixão dele, e continuaremos a aumentar esta carga com novos pecados?...


2.º O Senhor caminhava penosamente, de pés descalços e sangrentos, dobrado ao peso da cruz, cambaleante, dilacerado, esgotado e reduzido ao mais lamentável e triste estado...


Para o revocar, mesmo imperfeitamente, seria preciso aproximar pelo pensamento e reunir num só quadro toda a série de sofrimentos físicos (para só deles falar), suportados por Jesus nas últimas horas: a agonia tremenda, a privação total de sono e alimento, a horrível flagelação causando, pela perda de sangue, uma sede escaldante, a dolorosíssima coroa de espinhos cravada na cabeça...


O vos omnes! attendite, et videte si est dolor sicut dolor meus!


Santo Inácio de Antioquia chamava leopardos, por causa da sua crueldade, aos dez guardas que o custodiavam e conduziam a Roma para ser martirizado.


Que nome havia de dar-se aos ferozes soldados que arrastavam Jesus para o lugar do suplício, o abanavam, empurravam, injuriavam e, com bárbara e infernal raiva, oprimiam com pancada?


Refere a tradição que, no trajeto até ao Calvário, Jesus caiu três vezes. Consideremos quanto teve de sofrer nestas quedas reiteradas, quer tombando desamparadamente sob o peso da Cruz, quer ferindo-se nas pedras do caminho, quer, enfim, suportando novas brutalidades da soldadesca, tudo de mistura com blasfêmias e imprecações!... E assim nos indicou quanta dor lhe causam as nossas recaídas e mereceu-nos a graça de nos levantarmos e da fazermos penitência delas...


Obrigados, boníssimo Jesus, por esta nova lição!... Nós vos prometemos mais firmeza e constância em evitarmos certas faltas até hoje tantas vezes cometidas. Nós as choraremos e expiaremos por uma vida mais mortificada e penitente.


3.º Refere a tradição que Maria, Mãe terníssima de Jesus, levada pelo amor a seu divino Filho, veio esperá-lo na volta duma rua... Contemplemos a Santa Mãe de Deus, pálida, a tremer e de olhos cheios de lágrimas, esmagada de dor e angústia, estendendo os braços maternais para Jesus, que via caminhar penosamente sob o peso da Cruz...


Maria, sem temor dos verdugos, aproxima-se de Jesus e prostra-se a seus pés, aperta-o de encontro ao peito! Que cena dilacerante! Que ardor de compaixão e de amor por Jesus no coração de Maria e no de Jesus por Maria!...


Ó terníssima Mãe, por esta espada de dor, que penetrou em vossa alma à vista de Jesus, carre-gado com a Cruz, obtende para nós a mesma compaixão e o mesmo amor que se albergavam em vosso coração; e, nas provações e dificuldades da nossa vida, transmiti-nos um pouco dos vossos sentimentos de paciência e submissão ao beneplácito divino. “Eia, Mater, fons amoris, me sentire vim doloris fac, ut tecum lugeam”!


4.º Um pouco mais adiante, encontrando-se Jesus já completamente esgotado, os algozes recearam vê-lo sucumbir antes de atingirem o Calvário e obrigaram por isso um homem chamado Simão, de Cirene, a ajudar Jesus a levar a Cruz.


É natural que Simão, ao princípio só com repugnância, - angariaverunt - se prestasse a auxiliar Jesus, mas, movido por graça especial, deve depois tê-lo feito de bom grado...


Eis uma lição muito importante.


Simão representa os cristãos. Se Jesus não quis servir-se do seu poder divino, mas ser auxiliado, foi para nos fazer compreender, que todos somos chamados a ampará-lo, a levar a Cruz, quer dizer, a sofrer com ele e a segui-lo com generosidade: Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, leve a sua cruz todos os dias e siga-me...


Ó Jesus, vós, que conheceis perfeitamente a nossa fraqueza e timidez, concedei-nos, como a Simão, a graça de suportarmos as nossas cruzes, não com pesar e lamentos, mas em união convosco, de bom grado, com generosidade, alegria e amor...


5.º Logo a seguir, uma mulher rica e distinta, a quem a tradição dá o nome de Verônica, aproximou-se de Jesus e procurou aliviá-lo, limpando-lhe o rosto divino coberto de sangue e manchado de escarros. Jesus aceitou o pano, que ela oferecia e enxugou a cara ensanguentada e restitui-lho com gratidão pela sua caridade compassiva. E a figura do rosto divino de Jesus, ficou impressa neste pano, que ainda se venera em Roma... Jesus recompensou magnificamente a dedicação corajosa desta de-vota mulher.


6.º Diz S. Lucas que o Senhor era seguido de grande multidão de povo e de mulheres que batiam no peito e o lamentavam... Jesus voltando-se para elas, disse-lhes: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, porque eu sou inocente e quis estes tormentos e esta morte para salvar o mundo e para merecer a glória que meu Pai me tem preparada. Chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que virá o tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis e os seios que não geraram, e os peitos que não amamentaram. Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós; e às colinas: Cobri-nos. Porque, se isto se faz no lenho verde, que se não fará ao seco?


Jesus aprova e aceita a compaixão destas mulheres; mas há algo mais que o comove e desola; é a perda das almas, o endurecimento dos Judeus e dos pecadores... É por isso que lhes recomenda, a elas e a todos nós, a penitência e a compaixão, porque se Deus não poupou o seu próprio Filho inocente, embora carregado com os nossos crimes, que esperarão os pecadores que o rejeitam? Choremos, sim, os nossos pecados e façamos dignos frutos de penitência.


E vós, mundanos, que por vezes tendes dó dos que se consagram a Deus e o escolheram como parte da sua herança, comparai, seriamente, a vossa condição com a deles e dizei, francamente, se, mesmo na terra, o serviço de Deus não dará mais liberdade, felicidade mais verdadeira, mais legítima segurança, que os perigos, as ciladas, as exigências, os prazeres ou desgostos em que viveis envolvi-dos no mundo?!...


Filiæ Ierusalem, nolite flere super me; sed super vos ipsas flete!...


II - Jesus é crucificado.

1.º Chegados ao alto do Calvário, deram-lhe de beber, como se fazia aos condenados para os insensibilizar, vinho com mirra a que misturam, por malícia e ódio, fel... O divino Salvador provou a beberagem para sentir toda a sua amargura e expiar as nossas intemperanças,... mas recusou-se a beber, para em nada diminuir a sensação das suas dores...


2.º Estava-se na hora sexta, isto é, perto do meio dia e eles crucificaram-no;... e, com ele, dois outros que eram ladrões, um dum lado, outro do outro e Jesus no meio. Assim se cumpriu a Escritura que diz: colocaram-no no meio dos celerados...


Oh! quem poderá exprimir as tremendas dores de Jesus, de novo renovadas, quando os verdugos o despiram! Todas as chagas se reabriram e a pele foi rasgada e arrancada com elas. E depois... a ignomínia e a dor de se ver exposto nu, aos olhos impuros e aos motejos da miserável populaça!


Como Jesus expia as nossas vergonhosas faltas de modéstia e quanto lhe custa merecer-nos sermos revestidos da sua graça! Induat nos Dominus novum hominem...


A seguir repuseram-lhe a coroa de espinhos e estenderam-no brutalmente sobre a cruz. Com cruel barbaridade fixaram-no nela, pregando as suas mãos e os seus pés com grossos pregos: Atra-vessaram as minhas mãos e os meus pés e contaram todos os meus ossos!... E Jesus, manso Cordeiro, prestava-se a tudo e tudo suportava sem se lastimar, orando a seu pai e oferecendo-se-lhe como hóstia pela nossa salvação.


Sua Mãe, perto do lugar, sentia, com dor intraduzível, repercutir-se em seu coração cada uma das marteladas!... O vos omnes, qui transitis per viam, attendite, et videte si est dolor sicut dolor meus!...


Ah! pensaremos nós que cada um dos nossos pecados mortais, em que por desgraça tantas vezes caímos, são marteladas, não tanto nos cravos que perfuram as mãos e os pés de Jesus, mas no seu corpo sagrado com eco dolorosíssimo no Coração de Maria?


3.º Erguida a cruz, os carrascos deixaram-na cair com todo o seu peso no fosso preparado e então todo o corpo crucificado do Senhor sentiu a dor mais aguda e penetrante, incompreensível a nós, homens, e das suas chagas mais rasgadas, correu sangue, que regou o chão bendito do Calvário!


S. Lourenço Justiniano pinta ao vivo, as horrendas torturas da divina Vítima sobre a Cruz, durante as três longas horas da agonia: “O nosso divino Mediador, diz, estava pregado na Cruz, sem ter absolutamente nada que atenuasse a sua dor porque, em si mesmo, sente, interiormente, só angústia e o corpo é todo uma chaga viva e, ao redor mais não ouve que palavras ultrajantes. Deseja mover a sua augusta cabeça, pesada de dores e trespassada de agudos espinhos? Nada encontra onde a apoie e, quer a incline para a direita ou para a esquerda, quer a volte para trás, sempre e mais os espinhos a penetram e não tem força para a manter ereta!...


- “Não seria, Senhor, mais que suficiente este atroz sofrimento de vossa sagrada cabeça?


Mas não, outros e não menos horríveis se lhes juntam. Três cravos somente mantêm suspenso e numa espécie de equilíbrio na Cruz, o seu corpo dilacerado. Quando, para aliviar o corpo esgotado, tenta apoiar-se nos pés trespassados, que tortura indizível! e se pretende servir-se dos braços para aligeirar a dor dos pés, as chagas das mãos rasgam-se mais! Assim, aos tomentos sobrepunham-se tormentos e os membros doloridos só mantinham vida para reavivar a cada instante a sua dor e os mesmos esforços para a atenuar, outro efeito não tinham, senão o de fazê-la recrudescer de forma tal que ultrapassa qualquer ideia que possamos ter do sofrimento”.


À vista da augusta Vítima suspensa no ar, Maria e as santas Mulheres não puderam suster os soluços e gemidos lancinantes... Mas o inferno rugiu e os inimigos de Jesus vociferaram de alegria feroz.


- E nós, nesta hora única da humanidade, chorando vos adoramos, Cordeiro de Deus, vos pedimos perdão das nossas iniquidades e vos suplicamos que nos purifiqueis dos nossos pecados com vosso sangue precioso: Beati qui lavant stolas suas in sanguine agni!


4.º Está Jesus em agonia.

Os verdugos partilham as vestes de Jesus e a populaça, incrédula e hostil, continua escarnecê-lo, blasfemando e abanando a cabeça: Ah! tu que destróis o Templo de Deus e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da Cruz!...


Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo... Se é Rei de Israel, que desça da Cruz e nós creremos nele.


Pôs a sua confiança em Deus, que Deus o livre, se lhe quer, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus...


Jesus queria esgotar o cálice até às fezes e ser saturado de opróbrios até exalar o último suspiro, expiando toda a espécie de ultrajes feitos a Deus e curando o nosso orgulho e amor próprio.


E contudo muitos cristãos indignos não cessam nunca de blasfemá-lo e de insultá-lo, quer com uma conduta ímpia, quer negando a sua divindade, ou a sua autoridade e o seu amor.


Ó Jesus! como é grande a vossa paciência e infinito o vosso amor! Vós não quereis a morte do pecador, mas, sim, a sua conversão...


Dignai-vos atrair-nos a vós para que, ainda na terra, nós vos amemos e vos glorifiquemos como desejais e mereceis e, depois desta vida, tenhamos a mesma ventura na eternidade. Amém.


Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIA.





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