• Apostolado FERR

Jesus flagelado, coroado de espinhos e condenado à morte (Homilia)



HOMILIA PARA A SEXTA-FEIRA SANTA

Apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio


II

JESUS FLAGELADO, COROADO DE ESPINHOS

E CONDENADO À MORTE

Dixerunt impii: Circunveniamus Iustum,... morte turpissima condemnemus

(Sap., II, passim).


Os esforços de Pilatos para salvar Jesus, só tiveram por efeito aumentar os ultrajes e tormentos da divina Vítima...


A ida a casa de Herodes cobriu-o do desprezo e escárnio deste Príncipe e da sua corte... A proposta da escolha entre Ele e Barrabás, além da injúria, excitou ainda mais o furor dos Judeus, vai infligir a Jesus inocente as mais injustas e terríveis torturas, para finalmente pronunciar a sentença querida por Caifás e toda a nação judaica...


I - Flagelação de Jesus.

1.º Pilatos, admirado com a escolha do povo, ainda insiste: Mas que mal fez Jesus? Eu não encontro nele nenhuma causa de morte. Castigá-lo-ei, não para o punir, mas para satisfazer a vossa cólera, e depois mandá-lo-ei embora. Ó Pilatos, juiz iníquo! não cessas de proclamar a inocência de Jesus e, em vez de libertá-lo, vais submetê-lo a um crudelíssimo suplício!... Eram os seus caluniadores que deverias mandar prender e punir de modo exemplar...


Assim se abate sobre o Filho de Deus o rigor e a severidade da justiça divina, porque assumiu todos os nossos pecados e iniquidades: Propter scelus populi mei percussi eum!... Que castigo não merecemos nós que somos os verdadeiros culpados e que não cessamos de pecar?!...


2.º Vendo Pilatos, que as vociferações aumentavam mandou flagelar Jesus, isto é, entregou-o aos soldados do Pretório, que, como feras, caíram sobre a mansa vítima e lhe infligiram o cruel e infamante suplício da flagelação.


O paciente, despojado das suas vestes, era ligado à coluna, pelas mãos ao cimo e pelos pés na base, de forma que o algoz pudesse vibrar livremente os goles em todo o corpo. - E bateram em Nosso Senhor até se cansarem, renovando-se uns aos outros. - Seja qual for o número dos algozes e dos açoites, é impossível exagerar o rigor dos sofrimentos que o Salvador suportou: Super dolorem vul-nerum meorum addiderunt... Attritus est...


Vede, irmãos caríssimos, este manso Cordeiro, exposto nu à vista e irrisão da soldadesca e da populaça, não abrindo a boca para se queixar, mas orando, oferecendo-se a seu Pai e aceitando ser triturado pelos golpes dos azorragues...


Vede o furor e a raiva dos carrascos, estimulados pelos príncipes dos sacerdotes e pelo inferno; ouvi as pancadas, vede o sangue sagrado, que molha o seu corpo pisado e resgado em pedaços.


Ele não é senão uma chaga, não tem formosura nem beleza, está tão desfigurado, que é irreconhecível: é verdadeiramente o homem das dores... Ah! compreendamos, neste espetáculo, a gravidade do pecado, porque é para expiar os nossos prazeres culpáveis, as nossas impurezas e imodéstias que Jesus suporta e sofre tão grande humilhação e tão horrendo tormento. Teremos ainda ânimo de ofende-lo, de flagelá-lo de novo?


II - Jesus coroado de espinhos.

1.º Depois desta execução sangrenta, os soldados desligaram Jesus que caiu por terra desfalecido. Mas eles, empurrando-o a pontapé, forçaram-no a ir vestir-se ao sítio onde estava o seu fato. Contudo a sua maldade não estava satisfeita. Conduziram-no ao pátio do Pretório e toda a corte reunida se divertiu a infligir-lhe novos e esquisitos suplícios...


Despem-no de novo, causando-lhes novas e atrozes dores; depois lançam-lhe aos ombros um retalho de pano vermelho, à maneira de manto real, entretecem uma coroa de espinhos e, violenta-mente, colocam-lha na cabeça. E esta cabeça divina, esta fronte sagrada rasga-se em feridas, goteja sangue de redenção para purificar os pensamentos desvairados e maus dos homens! Enfim, na mão uma cana como cetro! Então, revestido destas insígnias, recebe a homenagem escarninha do coorte que, com sarcasmos, dobra o joelho diante de Jesus, saudando: Salve, Rei dos Judeus! e uns escarram-lhe na cara, outros dão-lhe bofetadas, e outros ainda, batem-lhe na cabeça para que os espinhos se enterrem...


2.º Cristãos, meus bons irmãos, terá a narração evangélica necessidade de comentários? Não estamos nós vendo passar diante dos olhos esta cena ignóbil e infernal?... Ah! quantas vezes temos nós próprios sido, com os nossos pecados de orgulho, de avareza, de impureza, os carrascos de Nosso Senhor!


Que ao menos as almas dedicadas e compassivas, venham adorar Jesus e desagravá-lo de tantas injúrias e sacrilégios e pedir-lhe a graça de serem fiéis, sofrendo com resignação e em espírito de reparação todas as dores e contrariedades que lhes sobrevierem...


3.º Depois de assim o terem tratado, os soldados reconduzem Jesus, coberto de sangue e chagas, em aparato de rei de comédia, ao Pretório.


Pilatos ainda espera que o furor do povo, ao vê-lo assim aniquilado, ficará satisfeito e apresenta-o neste traje ridículo de rei de teatro, tal como os soldados o haviam mascarado, “non clarus imperio, diz Santo Agostinho, sed plenus opprobrio” dizendo-lhe: Ecce Homo! Eis o homem que me haveis entregue, eis o pretenso rei, que se diz o vosso Messias e o Filho do vosso Deus! Vede como o casti-guei; agora deixai-o ir e morrer tranquilamente algures, pois que eu não encontro nele causa alguma de condenação...


- Ecce Homo! Anjos do Céu, eis o vosso Criador e Rei, o esplendor do Pai! Vede a que estado reduziu o seu amor pelos homens! Angeli pacis amare flebant!...


- Ecce Homo! Almas justas e penitentes, eis o Filho de Deus, o nosso Redentor, por nós feito o homem das dores! Vede a que ponto nos amou! Não lhe retribuiremos nós tanto amor?

“Sic nos amantem quis non redamaret”?...


- Ecce Homo! Pecadores, eis o vosso Deus e Juiz! Ei-lo, tal qual o fizeram os vossos inúmeros pecados!... Contudo Ele ora por vós e oferece ao Pai o seu sangue e os seus sofrimentos pela vossa conversão.


Venhamos, pois, todos, lancemo-nos a seus pés, chorando e protestando-lhe não tornar a ofendê-lo.


“Adoramus te, Christe, et benedicimus Tibi... Protector noster, aspice, Deus, et respice in faciem Christi tui...


4.º A esta apresentação de Pilatos responderam os Pontífices com a sua gente: Crucifica-o, Crucifica-o!


- Mas, tomai-o vós mesmos, diz Pilatos, e crucificai-o vós; porque eu não o encontro culpado de nenhum crime. Ao que eles responderam: segundo a nossa lei ele deve morrer, porque se faz passar por Filho de Deus.


Ao ouvir isto, a admiração de Pilatos aumentou, porque lhe era forçoso reconhecer algo de estranho e divino neste singular acusado, que tudo sofria em silêncio.


Reentrando no Pretório perguntou a Jesus: Donde és tu? E Jesus nada lhe respondeu. - Tu não me respondes, insiste Pilatos, não sabes que tenho poder de te crucificar ou de te dar liberdade?... Ó Pilatos, que pronuncias a tua própria condenação, porque tu não tens direito de condenar um inocente. Reconheces a inocência e, tendo não só poder mas dever de libertá-lo, vais, contra a consciência e contra a justiça, mandar crucificá-lo?! Que terrível dupla responsabilidade assumes por tão grande abuso de autoridade!...


E Jesus, então, com infinita majestade, responde-lhe: Não terias nenhum poder sobre mim, se te não fosse dado do Alto, mas terás de responder por ele Àquele que dele te investiu. É a derradeira luz concedida a este tímido e iníquo Juiz que, como muitos pecadores, não terá coragem de se aproveitar dela...


III - Condenação de Jesus.

1.º Muito emocionado, o governador tenta ainda libertar Jesus... Triste imagem dos pecadores pusilânimes! Em vez de quebrar, procuram, por linhas travessas, pactuar com Satanás e com as paixões pecaminosas...


Entretanto os Judeus não cedem e regressam à acusação política gritando: Se o soltares, não és amigo de César, porque todo aquele que se declara rei, é inimigo de César...


Pilatos, já meio vencido pelo temor de perder as boas graças do Imperador e querendo humilhar os Judeus e o seu acusado, faz de novo aparecer Jesus e diz-lhe: Eis o vosso Rei! - Sim, meu Jesus, eu vos reconheço como meu Rei e meu Deus, verdadeiro Senhor do Céu e da Terra, cujo reino é universal e não terá fim!...


A multidão grita: Faze-o desaparecer, tira-o daí, crucifica-o!


E Pilatos: Hei-de crucificar o vosso Rei? - Renegando o seu passado e o seu futuro, as suas aspirações nacionais e o seu Deus, os Pontífices vociferam: Nós não temos outro rei senão César!


É a apostasia nacional coletiva, é a rejeição oficial do Messias prometido e desejado, seu verdadeiro Senhor; é a sujeição a um príncipe da terra, a um príncipe pagão, que há-de vir a destruí-los...


Assim falam também muitos cristãos que, sob o falso pretexto de viverem emancipados das leis de Deus e da Igreja, se submetem, de fato a mil outras, bem mais rigorosas e pesadas!... Cegos e escravos voluntários, não suportam que Deus os dirija e governe, mas sofrem, em contra-partida, o jugo tirânico de Abimeleque, isto é, as exigências do Estado, os caprichos do mundo, os injustificados apetites da carne, as torturas da ambição, da avareza, ou de qualquer outra paixão não refreada...


2.º Pilatos, vendo que nada conseguia, lavou as mãos diante do povo, confessando: eu sou inocente do sangue deste justo; vede vós mesmos. Ao que todos responderam: Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos!


- Que ódio e que furor! Tremenda imprecação cujo efeito continua sempre subsistindo!...

Sim, caia sobre nós o vosso sangue, mas para nos lavar dos nossos pecados, para nos resgatar e nos santificar! Beati qui lavant stolas suas in sanguine Agni!...


3.º Pilatos está, pois, convencido da inocência de Jesus, mas não quer desagradar ao povo, teme incorrer no desfavor de César e perder o seu lugar. Rejeita o prudente conselho de sua mulher que manda dizer: nada haja entre ti e este justo; enfim, Pilatos satisfaz o mais iníquo e sacrílego pedido, que na terra jamais se fez: liberta Barrabás e entrega Jesus aos seus perseguidores para ser crucificado.


- Ó Pilatos, é a tua covardia e o teu medo que matam Jesus inocente!

Menos culpado que Judas e o povo judeu, é verdade, és tu contudo o assassino de Jesus, como Herodes o foi do seu Precursor e até ao fim dos séculos, para tua confusão, o mundo dirá: “passus sub Pontio Pilato”!


Ó bom Jesus, somos nós, muito mais responsáveis, que, com os nossos pecados, vos condenamos à morte; mas vós, para os expiar e nos alcançar o perdão deles, haveis aceitado, de bom grado e sem queixume, esta iníqua condenação, oferecida voluntariamente à justiça do Pai... Obrigados, divino Salvador e que, ao menos, vos tenhamos amor e sejamos vossos.

Concedei-nos esta graça para que nada jamais nos separe de vós. Amém.



Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIA.





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