• Apostolado FERR

Jesus no Horto (Homilia)




HOMILIA PARA A SEXTA-FEIRA SANTA

Apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio


I

JESUS NO HORTO

Veniat dilectus meus in hortum suum, et comedat fructum pomorum

(Cântico V, I)


Revestido da nossa carne, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, que vai expiar num oceano de dor, Jesus cumpriu a cerimônia da imolação do cordeiro pascal, figura do seu próprio sacrifício e celebrou a sua última ceia...


Saiu do cenáculo e, acompanhado dos discípulos, dirigiu-se para o Jardim das Oliveiras... É o novo Adão que entra no seu Jardim, mas quão diferentes são os frutos que vai colher dos que o primeiro tinha provado e comido no Paraíso terrestre! Para ele, cheios de amargura, encerram para nós a Salvação e a vida, enquanto que o fruto tão agradável e doce, infelizmente comido por nossos primeiros pais, causou a sua morte e a da sua posteridade.


À mentira fatal e ao conselho de desobediência de Satanás: - não, não, vós não morrereis, mas sereis como deuses - Jesus vai opor estas verdades sempre salutares - Meu Pai, faça-se a vossa vontade e não a minha!... Vigiai e orai para não sucumbirdes à tentação...


O Horto vai tornar-se um lugar de penitência e de dor, mas também de salvação, onde Jesus resgatará a falta cometida pelo primeiro homem no Jardim das delícias...


Ora Judas conhecia este lugar, porque Jesus aí tinha vindo muitas vezes com seus discípulos... E Jesus disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto vou ali e oro... Orai para não entrardes em tentação... E tomou consigo Pedro, Tiago e João, os mesmos que haviam sido testemunhas da sua glória no Tabor...


É aqui que vai começar o drama da Paixão de Jesus pela paixão do seu coração e da sua alma... Sigamos o doce Cordeiro, o amável Jesus e, por sua divina Mãe, mãe das dores, tão intimamente unida às dores do Filho, peçamos-lhe a graça de chorar, de vigiar e orar com ele...


I - Tristeza e agonia de Jesus.

1.º Se Jesus foi imolado, (ele próprio o disse!) foi porque quis; a sua agonia e a sua morte são voluntárias: Calicem, quem dedit mihi Pater, non bibam illum?...


Chegado ao Jardim, começou a invadi-lo medo e tédio, tristeza e desolação e disse aos três discípulos: Minha alma está triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo...


Era o primeiro trago do cálice das suas dores; e só quanto vai sofrer nesta tremenda agonia seria suficiente para o fazer morrer...


Contudo as suas dores vão aumentando até que, tendo consumado por completo o cálice, expira pregado na Cruz.


2.º Cœpit pavere, et tædere,... contristari, et mæstus esse...

Donde provêm ao divino Salvador, este temor e este tédio, esta tristeza e esta desolação? “Numquid, exclama S. Lourenço Justiniano, contristaretur per quem contristi recreantur?... Armato-rum neminem video, nullum cum gladiis, etc...” Ele desejou ardentemente a hora da sua imolação,... quis com fervor intensíssimo sofrer tanto, para demonstrar que era homem passível como nós, para que todos vissem a gravidade do pecado e aprendessem a orar, a chorar, a sofrer e a apreciar o valor da graças que nos merecia. Numa palavra, “quis, afirma S. Tomás de Aquino, estabelecer a proporção entre a grandeza dos seus sofrimentos e a dos benefícios deles derivados”...


3.º Mas quais foram as causas desta suma aflição e desta terrível agonia de Jesus?

a) Via-se, perante seu Pai, carregado dos pecados de todos os homens, passados, presentes e futuros: Posuit Dominus in eo iniquitatem omnium nostrum... Numa visão tremenda, via virem e abaterem-se sobre si, todos os crimes do gênero humano, a idolatria com o cortejo nefando das suas desordens, todas as abominações, sacrilégios, ingratidões, impurezas, a sordidez de todos os vícios, todas as torpezas, com seu número e gravidade própria a cada um...


Sentia-se esmagado por ingente massa de malícia sem nome... A justiça do Pai lançara sobre os seus ombros este fardo e sente-se responsável, como se todos estes crimes fossem pessoais: Iniquita-tes meæ... sicut onus grave, gravatæ sunt super me... Assim, quem poderá dizer a contrição e a amar-gura que invadiram a sua alma? Afflictus sum et humiliatus sum nimis, rugiebam a gemitu cordis mei...


b) Além deste panorama moral, vê também com a clareza da luz mais brilhante, todas e cada uma das circunstâncias da sua Paixão, todas as horríveis torturas que o aguardam para expiar todos os abomináveis pecados; a traição de Judas, a fuga dos discípulos e a queda de Pedro, todos os ultrajes e vilipêndios infligidos em casa de Anás e Caifás, no Pretório de Pilatos, no palácio de Herodes, a preferência dada a um assassino, a flagelação e a coroação de espinhos, o transporte da Cruz, a Crucifixão, os últimos insultos dos Fariseus, a dor de sua Mãe Santíssima...


Tudo isto, com todos os pormenores, passa diante dos seus olhos, esmagando, em certo modo, a sua natureza humana: Timor et tremor venerunt super me;... intraverunt aquæ usque ad animam meam;... repleta est malis anima mea, et vita mea inferno appropinquavit...


c) Se ao menos, por tantas torturas e indizíveis sofrimentos, salvasse todos os filhos de Adão!... Jesus vê a inutilidade e esterilidade de tanto amor, trabalho e sofrimento para a maioria dos homens... Para estes, o sangue, de valor e eficácia infinitas, o qual derrama até à última gota, primeiro na Cruz e depois em milhares de altares no decurso dos séculos, permanecerá infrutuoso; Multi vocati, pauci vero electi... A própria Cruz tornar-se-á um sinal de contradição, um objeto de escândalo, uma causa ocasional de condenação para grande número de almas por sua malícia...


São estas, na verdade, as penas mais agudas que lhe ferem o coração... Tristis est anima mea usque ad mortem...


Jesus vê a impenitência final de Judas e do mau ladrão, a obstinação fatal e a perdição do seu povo querido, o endurecimento de tantos povos infiéis, a apostasia de muitas nações, as lutas, as perfídias, as perseguições contra a Igreja e seus filhos... Por acréscimo, vê ainda os pecados de tantos cristãos que, embora conhecendo perfeitamente a sua lei e o seu amor, envoltos em delicadezas ex-tremas da sua bondade, se perderão eternamente...


4.º Examine-se cada um de nós... Qual de nós poderá considerar-se innocens a sanguine Iusti huius?... Na sua infinita caridade, Jesus via todos e cada um de nós, com as nossas fraquezas, as nossas prevaricações; e ele agonizava, abatido e aniquilado pela tristeza e pela desolação, contorcendo-se em dor e derramando suor de sangue que corria pela terra: “Non solis oculis, diz S. Ber-nardo, sed quasi membris omnibus flevisse videtur”. E nós, frios e miseráveis, não sabemos nem queremos derramar uma lágrima só e continuamos a ofendê-lo e a crucificá-lo sem remorso!...


Irmãos caríssimos, procuremos compreender esta trágica noite de Jesus, convençamo-nos de que é o mal horrendo, chamado pecado, que custa isto tudo a Jesus!... Peçamos ao amabilíssimo Salvador, que comova a nossa insensibilidade, para que detestemos todas as nossas ofensas e as do mundo inteiro e estejamos prontos a antes morrer que ofendê-lo...


II - Oração de Jesus no Horto.

1.º Jesus dissera aos Apóstolos que orassem e vigiassem: eis que ele mesmo lhe dá o exemplo.


Penetrado de temor e de horror à vista dos pecados e das ingratidões da humanidade e dos tormentos horrendos que, por causa deles, lhe vão ser infligidos, recorre a seu Pai e, prostrado com a face em terra, invoca-o com os mais humildes termos: Meu Pai, se é possível, afastai de mim este cálice; quero dizer, se a sentença da vossa justiça e o plano da vossa sabedoria para salvar os homens, puderem realizar-se sem que eu beba o cálice da minha Paixão, livrai-me de tão grandes tormentos e da morte; contudo, Pai, não tenhais atenção com a minha inclinação natural, com a minha vontade humana, que subordino inteiramente à vossa: que, portanto, se faça a vossa vontade e não a minha.


Que espetáculo! Como a angústia e o sofrimento do Homem-Deus deviam ser grandes para que o fizessem tremer, gemer, chorar e orar assim!... E este debate, de que depende a nossa salvação, esta comovente oração repete-se três vezes, sempre com o mesmo caráter de conformidade com a vontade divina e de inefável amor por nós, porque é por nosso amor, que Jesus sofre tal angústia... Quem, ó Jesus, poderá jamais conceber e exprimir este excesso do vosso amor?...


2.º Depois de assim ter orado, Jesus veio ali junto dos discípulos, que encontrou adormecidos por causa da tristeza, e disse a Pedro: Simão, dormes? e aos três: Assim vós não pudestes vigiar uma hora comigo?... “E por mim Pedro, darias a vida”!... (S. J. Crisóstomo). Que queixa tão comovedora esta do Salvador!


Quantas vezes, ah! não temos nós merecido esta censura, quer pela nossa tibieza e negligência, quer pelos nossos pretensos protestos de fidelidade, tão facilmente esquecidos e desmentidos pelos atos!...


Em seguida diz-lhes: Levantai-vos, vigiai e orai para não entrardes em tentação...


Não estavam eles predispostos, sobretudo Pedro, a sucumbir quando, contra a presciência divina de Jesus, protestavam tão presunçosamente de que não haviam de escandalizar-se?... Porque o espírito esta pronto, mas a carne é fraca. Nós conhecemos demasiado, por dolorosa experiência pessoal, esta fraqueza da carne e a covarde prontidão do espírito e da vontade em ceder à sua odiosa tirania...


Ponhamos nós, mais eficazmente, em prática tão salutar recomendação do Salvador!...


3.º Afastou-se de novo e voltou à gruta para, aí, continuar a sofrer e a orar; a mesma tristeza, as mesmas angústias, a mesma súplica: Pai, vós podeis tudo: desviai de mim este cálice; contudo que se faça a vossa vontade e não a minha! O bom Mestre quis ensinar-nos a não desanimar nunca e perseverar sempre na oração...


Volta ainda até junto dos Apóstolos e encontra-os outra vez a dormir, porque os seus olhos estavam pesados; e não sabiam que responder... Semelhantemente, quantas vezes, como eles, nós estamos mergulhados em funesta letargia, que pode conduzir à morte! Nomen habes quod vivas, et mortuus es!


Jesus tem compaixão daquela fraqueza e retoma, pela terceira vez, a sua mesma oração. Pai, se vos aprouver, afastai de mim este cálice... Desta vez a oração prolonga-se - prolixius orabat - porque a tristeza e os sofrimentos interiores, penetrando cada vez mais em sua alma, atingiram a intensidade máxima. Todo o inferno está ali, desencadeado contra si, e nenhuma consolação, nem dos homens nem do Céu, o conforta ainda: Sustinui qui simul constritaretur, et non fuit, et qui consolaretur, et non inveni... Pode crer-se que, em tal extremo, Jesus exclame já, como amanhã na Cruz: meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?...


4.º E Deus Pai teve piedade de seu divino Filho e enviou do Céu um Anjo, provavelmente Miguel ou Gabriel, para o confortar. “Rogo te, Angele, quem consolaris? An ignorabas quis esset, ad quem consulandum veniebas?” (S. Bernardo).


Sem dúvida, o Anjo confirmou que a vontade de seu Pai era que bebesse aquele cálice, que tal era o preço da redenção do mundo e que milhões de almas dela aproveitariam e lhe ficariam devendo a sua felicidade eterna... Nada disto ignorava Nosso Senhor.


Quis contudo receber esta consolação do mensageiro de seu Pai celeste quer para mais se humilhar pelo nosso resgate: “Non adeo spectans suam dignitatem, diz S. J. Crisóstomo, ut nostram salutem,...” quer para nos merecer a graça de sermos também nós, na hora da nossa agonia visitados e amparados pelos Anjos de Deus...


5.º Aprendamos, com Nosso Senhor, a orar e a vigiar atentamente nas tentações, nas provações e nas nossas dores, sejam quais forem, abandonando-nos com plena e inteira submissão ao beneplácito divino. Se o amparo e reconforto do alto parecer tardar, oremos como Jesus - prolixius - com mais constância e fervor, suportemos tudo com mais resignação e confiança: Clamabit ad me, et ego exaudiam eum; cum ipso sum in tribulatione, eripiam eum... Ai! que nós sabemos bem demais repetir: Pai, afastai de mim este cálice, mas pouco acrescentar: Contudo não se faça a minha vontade, mas a vossa. Eis porque há tão poucas almas santas e em tudo agradáveis a Deus e dignas do Céu.


III - Jesus entrega-se aos seus inimigos.

1.º Reconfortado, Jesus levantou-se sabendo tudo o que vai acontecer-lhe e aceitando com serenidade todos os tormentos e a morte...


Aproxima-se, de novo, dos discípulos, incapazes de satisfazer o pedido de vigiar junto do Mestre agonizante e dirigiu-lhe as palavras seguintes, nas quais a suavidade se mistura com a censura: Dormi agora, e repousai... Basta, chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Despertai, vamos, eis que aquele que me vai trair se aproxima...


2.º Falava ainda Jesus, quando Judas Iscariotes, um dos Doze (isto é, um dos Discípulos eleitos do Senhor, um dos que formavam a companhia especial de Jesus, um dos íntimos do Mestre, predestinado para o mais sublime ministério) chegou com uma escolta de soldados e serventes, de guardas do Templo e criados dos sumos sacerdotes, armados de espadas e varapaus e com lanternas e tochas...


O traidor havia-lhes dado o sinal:

Aquele que eu beijar é ele, segurai-o e conduzi-o com cautela.


E, caminhando à frente, aproximou-se logo de Jesus e disse-lhe: Eu te saúdo, Mestre e beijou-o.


E Jesus, mansamente, observa-lhe: Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?!...


“Não vos entristeçais, diz S. J. Crisóstomo, ouvindo a frase: o Cristo foi traído! ou antes entristecei-vos e chorai amargamente, não por Jesus vítima desta traição, mas pelo traidor, Judas. A vítima está sentada nos Céus à direita do Pai; o traidor condenou-se e sofre castigo eterno”...


E o Santo Doutor acrescenta esta grave e memorável reflexão: “A sorte mais digna de compaixão não é a do perseguido, mas a do perseguidor.


Não há nenhum mal em sofrer a injustiça, mas é sempre um mal cometê-la”...


3.º Eis até onde pode conduzir uma paixão não combatida e o abuso da graça!... Quanto não fizera Jesus a Judas!


Recentemente presenciara ele a misericórdia de Jesus com Madalena, o que deveria esclarecê-lo e animá-lo ao arrependimento;... mas não, permanece insensível e deixa-se dominar completamente pelo demônio. Não tardará muito que o leve ao desespero de suicidar-se!


Que lição para nós! E contudo, mesmo entre nós cristãos, não são raros os Judas!


Semelhantes ao discípulo criminoso, surdos à voz de Deus, quantas vezes para satisfazer uma vil e detestável paixão vendem e traem, como ele, Jesus!... Oxalá que, ao menos, entre nós se não encontre nenhum Judas, porque melius erat ei, si natus non fuisset homo ille!


4.º O Salvador manifesta o seu poder, derrubando com uma só palavra aquele bando e a sua bondade permite-lhes que se levantem e cura ainda a orelha de Malcus, a qual pedro decepara com a espada. Depois entrega-se nas mãos deles e deixa-se algemar como um vil malfeitor.


Sigamos Jesus, o manso Cordeiro de Deus, que se entrega com pleno consentimento e por nosso amor para expiar os nossos crimes. Poderia obter de seu Pai, em vez de doze discípulos tímidos, doze legiões de Anjos. É onipotente, poderia aniquilar instantaneamente os seus inimigos... Mas, como se cumpririam então as Escrituras?


Chegou o momento de se imolar e, assim, remir o gênero humano.


Conclusão. - Irmãos caríssimos, adoremos o nosso divino Salvador agonizante, demos-lhe graças por tanto amor que nos tem.


Recordemos frequentemente os vários sofrimentos da sua agonia e Paixão. Há nesta meditação, um fruto especial de graça e salvação que o próprio Jesus nos oferece e que manterá em nós a vida verdadeira, isto é, um grande horror e detestação do pecado, um grande amor e dedicação ao divino Salvador que tanto nos amou...


Peçamos ainda, pelas dores da sua cruel agonia, que nos ampare e assista no último combate e conceda a graça duma morte santa, para com ele vivermos na eternidade. Amém.



Padre Thiriet, PLANOS DE HOMILIA.





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