• Apostolado FERR

Lutar contra as três concupiscências (Homilia)



COMBATE ESPIRITUAL CONTRA AS TRÊS CONCUPISCÊNCIAS

Ductus est Iesus in desertum a Spiritu, ut tentaretur a diabolo.


Por Padre Thiriet


É a Quaresma um tempo aceitável a Deus, uma época de salvação e de reforma de vida.

Precisa o homem de conhecer-se para saber quais são as forças com que poderá contar, quer para o bem quer para o mal.


Hoje veremos qual a origem e fonte das forças que nos impelem ao mal para, com a graça de Deus, não sermos achados desprevenidos.


Toda a vida do homem na terra é um combate contínuo...

A arma principal e mais temível, usada pelo demônio para nos fazer cair no pecado, é a nossa própria concupiscência: foco de mil males que trazemos em nós e se incendeia naturalmente e se alimenta das coisas sensíveis que nos rodeiam... É a “fomes peccati” de que fala o Concílio de Trento.


Conforme ensina o Apóstolo S. João, a concupiscência é tríplice: Omne quod est in mundo, concupiscentia carnis est, concupiscentia oculorum, et superbiæ vitæ...


Esta tríplice concupiscência é verdadeiramente, pela malícia do demônio e pela cumplicidade da nossa vontade pervertida, a fonte e origem do pecado... Foi por elas que Satanás venceu os nossos primeiros pais;... é por elas que ele faz cair inúmeras almas e as arrasta ao inferno, cujas portas principais, podemos dizer, serem elas três: Si præstes animæ tuæ concupiscentia eius, vdiz o Sábio, faciet te in gaudium inimicis tuis (Eccl., XVIII, 31).


É, pois, de capital importância conhecê-las para as combater e delas triunfar, porque um inimigo conhecido é um adversário meio derrotado.


Consideremos em cada umas destas três concupiscências: 1.º a sua natureza; 2.º as suas conse-quências; e 3.º os seus remédios ou meios de as debelar.


I - A concupiscência da carne.

1.º A concupiscência da carne é o amor e a busca dos prazeres sensuais - Infelix ego homo, quis me liberabit de corpore mortis huius?...


A nossa natureza corrompida tem sede de voluptuosidade e, insatisfeita com os prazeres permitidos, corre atrás dos proibidos: corpus peccati...


2.º Esta fatal avidez, este amor do corpo e dos prazeres carnais utiliza simultaneamente, para as suas detestáveis satisfações, todos os nossos sentidos e, por eles, arrasta-nos a toda a espécie de pecados: à gula e à intemperança com a embriaguez, à ociosidade com a preguiça e a moleza, ao cuidado excessivo com o corpo a pretexto de saúde, aos jogos e diversões censuráveis, à luxúria e impurezas de toda a espécie... “Nenhuma virtude, nenhuma circunspecção, diz Santo Agostinho, é compatível com este mal; mas com ele reina toda a espécie de perversidade”. E Santo Ambrósio, escrevendo a uma infeliz virgem, cuja virtude acabara de naufragar, diz-lhe que “sua alma, outrora templo do Espirito Santo, se transformou, pelo vício da impureza, em morada dos demônios”.


Foi ela que fez cair os nossos primeiros pais, foi ela que ateou o fogo do Céu para consumir e reduzir a cinzas as cinco cidades culpadas...


Foi ela que causou todas as desgraças de Sansão, que tombou Davi e Salomão... E quantas heresias e cismas promanaram desta fonte envenenada? Montano, Lutero, Henrique VIII!...


É ela ainda, a concupiscência da carne, a causa mais comum das doenças, das guerras, das discórdias e das perturbações que dilaceram o seio das famílias, e dos males que corroem os homens, as sociedades e as nações!


É ela ainda um dos principais motivos que mantêm afastados da verdade e da Igreja de Cristo muitos povos infiéis...


3.º Quais os remédios ou meios a empregar para vencer tal flagelo?

a) A mortificação do corpo, isto é, os jejuns, a abstinência, as vigílias, o trabalho: Castigo corpus meum et in servitutem redigo... Christo igitur passo in carne, et vos eadem cogitatione armamini...


O fogo domina-se e extingue-se afastando o combustível e as matérias inflamáveis. Extinguem-se ou limitam-se os ardores da concupiscência dominando a carne, metendo energicamente um freio aos seus apetites desordenados...


Meditemos a sorte final do mau rico que, diariamente, concedia ao seu corpo as delícias e satisfações duma mesa suntuosa: Epulabatur quotidie splendidae...


b) O temor de Deus, que é o princípio da sabedoria;... o pensamento da presença divina: Ambula coram me, es esto perfectus... Quomodo possum hoc malum facere, et peccare in Deum meum? (Gen. XXXIX, 9)...


c) O domínio dos sentidos: Pepgi fœdus cum oculis meis, diz Jó.

Vigilância exata e severa, fuga das ocasiões: Sobrii estote, et vigilate...


Concedeu-nos o Senhor os sentidos para serem nossos servos e os instrumentos do trabalho da nossa santificação: não os deixemos usurpar uma função imprópria, não permitamos que sejam coniventes com Satanás...


d) Oração fervorosa e frequente, que ela dá alento e força; meditação séria da palavra divina, que ela fortifica o caráter: “Non in solo pane vivit homo; sed in omni verbo quod procedit de ore Dei”;... tenhamos diante dos olhos da alma a vida e a Paixão do Senhor...e o que estará para além desta vida efêmera: Memorare novissima tua, et in æternum non peccabis.


e) Confiança em Deus e fé viva, união a Jesus...


4.º Na vida religiosa há-de triunfar-se da concupiscência da carne pela fidelidade inviolável ao voto de castidade, que faz dos homens Anjos terrestres: O quam pulchra est casta generatio cum claritate! (Sab., IV, I)...


II - O orgulho.

Tunc assumpsit eum diabolus,... et statuit super pinaculum templi, et dixit illi: Si Filius Dei es, mitte te deorsum.


1.º O orgulho - soberba - é o amor desordenado de si mesmo, a complacência detestável na excelência própria, o desejo desregrado de ser louvado e estimado mais que ninguém...

É um vício odioso de que todos somos, em maior ou menor grau, infetados, consequência fu-nesta da palavra da serpente: Eritis sicut dii...


O próprio demônio foi precipitado do Céu no abismo por causa do orgulho: Similis ero Altissimo...


2.º Gera ele o egoísmo, a ambição, a presunção, a vaidade, a hipocrisia, a desobediência e a revolta contra Deus e a autoridade legítima, a inveja, o ódio e desprezo do próximo.


Foi por causa dele que, à imitação de Lúcifer, caíram os Anjos do Céu, os nossos primeiros pais no paraíso terrestre, Cain, os irmãos de José, Saul, Aman, Nabucodonosor, Tertuliano, Ario, Lutero e tantos outros...Quantas virtudes desfeitas pelo maldito orgulho! quantos méritos aniquilados!... quantos cismas e heresias semeadas no rebanho do Senhor! quantas pessoas deslocadas para fora do seu meio providencial! quantas perturbações sociais e guerras entre os Estados! quantas defecções vergonhosas e quantas almas condenadas por ele!... Initium omnis peccati superbia.


3.º Que meio ou remédios para o arrancar e expulsar do nosso coração?


a) A consideração e lembrança dos nossos pecados, da nossa fraqueza e das nossas misérias... Exemplo de S. Paulo que, várias vezes, alude à vida passada para se premunir contra os assaltos do orgulho: Non sum dignus vocari apostolus, quoniam persecutus sum Ecclesiam Dei...


b) Excitar, frequentemente, sentimentos de humildade, de desconfiança de nós mesmos e de confiança na misericórdia de Deus... Misericordiæ Domini, quia non sumus consumpti...


c) Meditação assídua da vida e da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo: Discite a me quia mitis sum et humilis corde. Hoc sentite in vobis, quod et in Christo Iesu qui... exinanivit semetipsum, factus obediens usque ad morte...


d) Amabilidade e deferência para todos, submissão perfeita a Deus e à igreja, aos superiores, sem crítica nem queixas. A quem é obediente é fácil ser humilde e, reciprocamente, uma alma verdadeiramente humilde submeter-se-á sem dificuldade à autoridade que manda, vendo nela a própria autoridade de Deus, o mesmo Deus...


Os santos, não somente obedeciam sem delongas, mas abstinham-se absolutamente de examinar ou discutir os motivos das ordens recebidas dos seus superiores, embora elas fossem duras e penosas.


Uma alma com estas disposições não será facilmente vulnerável aos ataques do demônio do orgulho... Eva sucumbiu precisamente porque, em vez de se manter pura e simplesmente fieal ao ato de obediência pedido por Deus, começou imprudentemente a discutir com a serpente que lhe lisonje-ava o orgulho e deixou criticar o valor do mandamento divino.


e) Temamos a vaidade e a presunção. Nada façamos, que não esteja em conformidade com a vontade de Deus e por obediência: Non tentabis Dominum Deum tuum,... porque, no dizer de S. Ber-nardo, é a vontade a porta aberta para o inferno e a obediência a chave do paraíso.


f) Peçamos incessantemente a graça da humildade.


4.º Na vida religiosa combate-se o orgulho pelo voto de obediência que despoja o homem da vontade própria e assim o assemelha mais a Nosso Senhor, cujo alimento era fazer a vontade do Pai...


III - A concupiscência dos olhos.

Iterum assumpsit eum diabolus in montem excelsum valde, et ostendit omnia regna mundi... et dixit ei: Hæc omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me.


1.º Por esta proposta de Satanás ao Senhor, indica-se a ambição ilimitada de possuir bens e riquezas terrestres, o apego desregrado a estes bens, a sede do outo e da prata, o culto de Mamona, uma verdadeira idolatria pelo dinheiro, cadeia com que o demônio prende muitos homens... Filii hominum, ut quid diligitis vanitatem, et quæritis mendacium?


2.º A concupiscência dos olhos gera a ambição, a avareza, a vaidade, o luxo, os gastos loucos... e os roubo, as fraudes, a usura, as discórdias, os litígios, várias injustiças, vergonhas, infâmias, mortes, sacrilégios... Tenta-se enriquecer, fazer fortuna “per fas et nefas”, sem que o próprio insucesso corrija esta maldita paixão e dê um pouco de prudência.


Vende-se a alma ao diabo por algumas moedas! Veja-se Judas...

Há homens de quem o demônio faz o que quer, apenas por uns pós de ouro!...


Quantos males irreparáveis na terra e quantas almas precipitadas nas chamas eternas por esta lamentável concupiscência!... Hæc omnia tibi dabo, si cadens adoraveris me!... Sem dúvida; promessa sedutora, mas por isso mesmo falaciosa...


3.º Que remédio usar para dela triunfar?


a) Consideremos a vida pobre e laboriosa de Jesus e meditemos os seus ensinamentos sobre a pobreza e a riqueza: Vœ vobis divitibus... Beati pauperes spiritu...


b) Meditemos sobre a brevidade da vida terrena, a caducidade dos bens e da fortuna do mundo, do abandono forçado a que temos de os votar na morte: Omnia vanitas!... Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animæ vero suæ detrimentum patietur?...


c) Esforcemo-nos por amar a pobreza e mesmo praticá-la algumas vezes por amor de Nosso Senhor, conforme as circunstâncias de tempo e lugar, etc. - Se formos favorecidos da fortuna, permaneçamos pobres de espírito, isto é, não permitamos que os bens dominem o coração: Divitiæ si affluant, nolite cor apponere,... mas depositemos a nossa riqueza, tanto quanto possível, em lugar se-guro, no Céu, multiplicando as esmolas e as boas obras: Thesaurizate vobis thesauros in cœlo... Pone thesaurum tuum, diz a Sabedoria, in præceptis Altissimi, et proderit tibi magis quam aurum; conclude eleemosynam in corde pauperis, et hæc pro te exorabit ab omni malo... (Eccl. XXIX, 14, 15).


4.º Na vida religiosa triunfa-se da concupiscência dos olhos pelo voto de pobreza que obriga a renunciar, efetivamente e de bom grado, aos bens da terra e coloca os religiosos à mercê da Providência.


Conclusão. - Irmãos caríssimos, vigiai continuamente sobre vós, porque o demônio procura todas as ocasiões de perder-nos, de tentar-nos por uma ou outra destas concupiscências, de fazer-nos sucumbir.


Ouvi o conselho de S. Pedro: Cui resistite fortes in fide... Resistência porfiada e animosa, a exemplo e com o auxílio de Nosso Senhor, e a vitória, pelo menos a final, será sempre nossa e obter-nos-á a coroa celeste. Amém.




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