• Apostolado FERR

O I Domingo da Quaresma



COMENTÁRIOS LITÚRGICOS SOBRE

O I DOMINGO DA QUARESMA

O Ano Litúrgico

Dom Próspero Gueranger


A solenidade deste dia

Este domingo, o primeiro dos seis que vêm durante a Quaresma, é um dos mais solenes ao longo do ano. Tem o mesmo privilégio que os domingos da Paixão e de Ramos, isto é, nunca dá lugar a nenhuma festa, nem mesmo à do Patrono, Santo Titular ou Dedicação da Igreja. Nos calendários antigos, chama-se Invocabit, da primeira palavra do Intróito da Missa. Na Idade Média esse domingo foi chamado “Domingo das tochas” por causa do uso de tochas na missa do dia, por diferentes razões não idênticas nem no tempo nem no lugar. Em alguns lugares (como na França), os jovens que saíram em diversões carnavalescas tinham que aparecer hoje na Igreja com uma tocha nas mãos para dar satisfação pública de seus excessos.


A Quaresma abre solenemente hoje. Já notamos que os quatro dias anteriores foram acrescentados desde o tempo de São Gregório Magno, para completar os quarenta dias de jejum. Nem podemos olhar para a quarta-feira de cinzas como a abertura solene desse Tempo, pois os fiéis não estão obrigados a ouvir a Missa naquele dia. A Santa Igreja, vendo seus filhos agora reunidos, fala a eles, em seu Ofício de Matinas, estas palavras eloquentes e nobres de São Leão, o Grande: “Caríssimos filhos, devemos anunciar-vos o jejum sacrossanto e solene da Quaresma, porventura poderia começar de modo mais oportuno minha prática que usando as palavras do Apóstolo a quem Jesus Cristo fala e repetindo o que acabam de ler-vos: ‘Eis aqui o tempo favorável, eis aqui os dias da salvação’? Porque, mesmo quando não há tempo algum durante o ano, que não seja rico em dons celestiais e em que, pela graça de Deus, não achamos sempre abertas as portas da misericórdia divina, devemos, entretanto, trabalhar neste santo tempo com maior zelo e excitar-nos ao progresso espiritual e animar-nos de grande confiança. A Quaresma, com efeito, ao colocar à vista o dia sacro em que fomos redimidos, nos convida a praticar todos os deveres de piedade cristã a fim de dispor-nos para a purificação do corpo e alma para celebrar os mistérios da Paixão do Senhor.”


O tempo favorável

“É verdade que nossa devoção e reverência para com um tão grande mistério deve ser mantida durante todo o ano, e nós mesmos devemos ser em todos os momentos aos olhos de Deus o que devemos ser na festa da Páscoa. Mas este é um esforço que poucos entre nós têm a coragem de sustentar. A fraqueza da carne nos induz a ceder nossas austeridades; as várias ocupações da vida cotidiana tomam nossos pensamentos, e assim, até mesmo os virtuosos encontram seus corações entupidos pela poeira deste mundo. Por isso, é que nosso Senhor providencialmente nos deu estes quarenta dias, cujos santos exercícios devem ser para nós um remédio, por meio do qual podemos recuperar a pureza de nossa alma. As boas obras e os jejuns sagrados deste tempo foram instituídos como uma expiação e supressão dos pecados que cometemos durante o resto do ano.”


Conselhos apostólicos

“Agora, portanto, que estamos prestes a entrar nestes dias, que são tão cheios de mistério, e foram instituídos para o santo propósito de purificar tanto a nossa alma como o nosso corpo, vamos, amados filhos, ter o cuidado de fazer como o Apóstolo nos ordena, e purificar-nos de todas as impurezas da carne e do espírito: que assim o combate entre as duas substâncias se torne menos feroz, para que a alma, que está sujeita a Deus, possa governar o corpo e recuperar sua dignidade e posição. Vamos também evitar ofender qualquer homem, de modo que não haja ninguém para culpar ou falar mal de nós. Pois nós merecemos as observações duras dos infiéis, e provocamos as línguas dos ímpios que blasfemam contra a religião quando nós, que jejuamos, levamos uma vida pecaminosa.


O exemplo de Jesus ao ser tentado

Cada domingo da Quaresma oferece à nossa consideração uma passagem do Evangelho, que está de acordo com os sentimentos com os quais a Igreja quer que sejamos preenchidos. Hoje ela traz diante de nós a Tentação de Nosso Senhor no Deserto. Que luz e encorajamento há para nós nesta instrução!


Nós nos reconhecemos como pecadores, estamos comprometidos, neste exato momento, em fazer penitência pelos pecados que cometemos, mas, como foi que caímos em pecado? O diabo nos tentou, nós não rejeitamos a tentação, então, cedemos à sugestão e o pecado foi cometido. Esta é a história do nosso passado; e tal seria, também, para o futuro, se não aproveitássemos a lição dada hoje pelo nosso Redentor.


Quando o apóstolo fala da maravilhosa misericórdia que o nosso Divino Salvador nos deu, que se dignou a fazer-se semelhante a nós em todas as coisas, menos no pecado, ele justamente coloca ênfase em suas tentações (Hb 4,15). Ele, que era Deus, humilhou-se a si mesmo tão humildemente quanto pode para provar quão ternamente ele se compadecia de nós. Aqui, então, temos o Santo dos Santos permitindo que o espírito maligno se aproxime dele, a fim de que possamos aprender, a partir de Seu exemplo, como vencer a tentação.


Satanás está de olho em Jesus, ele está preocupado por ver tal virtude incomparável. As maravilhosas circunstâncias do seu nascimento, os pastores chamados pelos anjos ao seu presépio e os magos guiados pela estrela; a busca desesperada de Herodes pelo Infante e sua fuga; o testemunho prestado a este novo Profeta por João Batista, todas essas coisas que parecem tão fora de sintonia com os trinta anos passados ​​na obscuridade em Nazaré, são um mistério para a serpente infernal, e o enchem de apreensão. O mistério inefável da Encarnação foi realizado desconhecido para ele; ele nunca suspeita que a humilde Virgem Maria é aquela que foi predita pelo Profeta Isaías, como a que traria o Emanuel (Is 8,14); mas ele está ciente de que chegou a hora, que a última semana dita a Daniel já começou e que os próprios pagãos estão olhando para a Judéia por causa de um libertador. Ele tem medo desse Jesus, por isso resolve falar com ele para ver se consegue extrair alguma expressão que revele ser ele ou não o Filho de Deus; ele o tentará a alguma imperfeição ou pecado que, se ele cometer, provará que o objetivo de tanto medo é, afinal de contas, apenas um homem mortal.


Proceder de Cristo

O inimigo de Deus e dos homens estava, obviamente, desapontado. Ele se aproximou de Jesus, mas todos os seus esforços apenas aumentam sua própria confusão. Nosso Redentor, com todo o autocontrole e a fácil majestade de um Deus-Homem, repele os ataques de Satanás, mas ele não revela sua origem celestial. O espírito perverso se retira, sem ter feito nenhuma descoberta além disso: Jesus é um profeta fiel a Deus. Mais tarde, quando ele vê o Filho de Deus tratado com desprezo, caluniado e perseguido, quando ele descobre que suas próprias tentativas de matá-lo são tão bem-sucedidas, seu orgulho e sua cegueira estarão no auge: e só quando Jesus expirar na Cruz é que o demônio aprenderá que sua vítima não era meramente um Homem, mas Homem Deus. Então ele descobrirá como todos os seus planos contra Jesus serviram para manifestar, em toda a sua beleza, a Misericórdia e a Justiça de Deus; Misericórdia, por ser salva a humanidade; e sua Justiça, porque quebrou o poder do inferno para sempre.


Estes foram os desígnios da Divina Providência ao permitir que o espírito iníquo contaminasse, por sua presença, o retiro de Jesus e falasse com ele, e colocasse suas mãos sobre Ele. Mas, vamos considerar atentamente a tentação tripla em todas as suas circunstâncias, pois, nosso Redentor só a sofreu para nos instruir e encorajar.


Nossos três inimigos

Nós temos três inimigos contra os quais devemos lutar porque trazem três perigos a nossa alma. Como diz o Discípulo Amado: Tudo o que há no mundo é a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida! (1 Jo 2,16). Pela concupiscência da carne, entende-se o amor das coisas sensuais, que cobiça o que é agradável à carne e, quando não reprimido, atrai a alma para prazeres ilegais. A concupiscência dos olhos expressa o amor pelos bens deste mundo, tais como riquezas e posses; estes deslumbram o olho e depois seduzem o coração. Orgulho da vida é essa confiança em si mesmo, que leva a ser vaidoso e presunçoso, e faz esquecer que tudo o que temos, nossa vida e todo bem presente, recebemos de Deus.


Todos os nossos pecados vêm de uma dessas três fontes, e todas as nossas tentações visam nos fazer aceitar a concupiscência da carne, ou a concupiscência dos olhos, ou a soberba da vida. Então Nosso Salvador, que seria nosso modelo em todas as coisas, se dignou se submeter a essas três tentações.


As três tentações

Primeiro Satanás o tenta no que diz respeito à carne: sugere a ele para satisfazer os desejos da fome, operando um milagre e transformando as pedras em pão. Se Jesus consentir e demonstrar ânsia em dar essa indulgência ao seu corpo, o tentador concluirá que ele é apenas um mortal frágil, sujeito à concupiscência como os outros homens. Quando ele nos tenta, nós que herdamos a maligna concupiscência de Adão, suas sugestões vão além disso, ele se esforça para corromper a alma pelo corpo. Mas a soberana santidade do Verbo Encarnado nunca poderia permitir que Satanás usasse Nele o poder que recebeu de tentar o homem em seus sentidos externos. A lição, portanto, que o Filho de Deus nos dá aqui, é a da temperança, mas sabemos que, para nós, a temperança é a mãe da pureza e que a intemperança excita nossos sentidos para se rebelarem.


A segunda tentação é o orgulho: lança-te daqui para baixo, os Anjos te sustentarão nas suas mãos. O inimigo está ansioso para ver se os favores do céu produziram na alma de Jesus aquela altivez, aquela ingrata autoconfiança que faz a criatura arrogar os dons de Deus para si mesma e esquecer seu benfeitor. Aqui, também, ele é frustrado, a humildade de nosso Redentor confunde o orgulho do anjo rebelde.


Ele então faz um último esforço: espera conquistar por meio da ambição Aquele que deu tais provas de temperança e humildade. Ele mostra a Jesus todos os reinos do mundo e a glória deles; e disse-lhe: Tudo isso eu te darei, se prostrado por terra me adorares. Jesus rejeita a oferta miserável, e afasta dele o sedutor, o príncipe deste mundo (Jo 14,30), ensinando-nos por meio disso que devemos desprezar as riquezas deste mundo, quando para conservá-las ou adquiri-las fosse necessário quebrar a Lei de Deus e honrar a Satanás.


Mas, vamos observar como é que nosso Modelo Divino, nosso Redentor, supera o tentador. Será que ouve suas palavras? Ele escuta as razões de seu inimigo? Dá-lhe tempo para discorrer ante seus olhos todas as fantasias diabólicas? Assim é que nós procedemos quando somos tentados e caímos. Mas nosso Senhor imediatamente rebate cada tentação com o escudo da palavra de Deus. Ele diz: Está escrito: Não só de pão vive o homem. Está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Esta, então, deve ser nossa prática para o tempo que está por vir. Eva trouxe a perdição para si e para toda a raça humana, porque ouviu a serpente. Aquele que flerta com a tentação, com certeza cairá. Estamos agora em uma época de graça extraordinária; nossos corações estão atentos, ocasiões perigosas são removidas, tudo o que saboreia o mundanismo é posto de lado; nossas almas, purificadas pela oração, pelo jejum e pela paz, devem ressuscitar com Cristo para uma nova vida, mas devemos perseverar? Tudo depende de como nos comportamos sob a tentação. Aqui, na própria abertura da Quaresma, a Igreja nos dá esta passagem do Santo Evangelho para que possamos ter, além do preceito, um exemplo. Se formos atentos e fiéis, a lição que ela nos dá produzirá seus frutos, e quando chegarmos à solenidade da Páscoa, teremos aquelas promessas de perseverança.


A Igreja Grega celebra hoje uma de suas maiores solenidades. Esta festa é chamada Ortodoxia, e tem por objeto honrar o restabelecimento das Imagens sagradas em Constantinopla e no Império do Oriente em 842, quando a Imperatriz Teodora, com a ajuda do santo Patriarca Metódio, pois fim à perseguição dos iconoclastas, e fez figurar em todas as Igrejas as sagradas Imagens, que o furor dos hereges tinha feito desaparecer.


Missa do dia

A estação, em Roma, está na Basílica patriarcal de São João de Latrão. Era certo, porém, que um domingo de tamanha solenidade como este fosse celebrado na Igreja que é a Mãe e Senhora de todas as Igrejas, não só da própria Cidade Santa, mas de todo o mundo. Foi aqui que os penitentes públicos se reconciliaram na Quinta-feira Santa; foi também aqui, no Batistério de Constantino, que os catecúmenos receberam o batismo na noite anterior ao domingo de Páscoa. Nenhuma outra Basílica poderia ter tal reivindicação para a Estação de um dia como este, pois era lá que o Jejum da Quaresma tinha sido proclamado tantas vezes por Leão e Gregório.


O Intróito, assim como o Gradual, o Tracto, o Ofertório e a Comunhão, são todos tirados do Salmo 90. Falamos, em outro lugar, da adequação deste belo Salmo ao espírito da Igreja durante a época da Quaresma. Todo ele trata da esperança que a alma cristã deve conceber no auxílio divino nestes dias em que se decidiu a dar-se por completo à oração e à luta contra os inimigos de Deus e de si mesma. Prometeu-lhe o Senhor no Intróito que não será vã sua confiança.






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