• Apostolado FERR

O privilégio da Imaculada


HOMILIA

O SINGULARÍSSIMO PRIVILÉGIO DE IMACULADA

Ave, Maria, plena.

Gaudeamus omnes in Domino.


De todas as festas em honra da Santíssima Virgem, esta é a mais solene. E, por assim dizer, o fundamento de todas as outras, como a Assunção é o seu remate, a sua coroa.


Se a santa Igreja amorosamente nos convida a alegrarmo-nos neste dia, é porque a Conceição imaculada, é um privilégio singularíssimo, único concedido a Maria, em atenção à alta dignidade a que era destinada: ser Mãe de Deus!


Consideremos por isso: I - a natureza deste privilégio; II - as suas consequências admiráveis em Maria; e III - a maneira de bem celebrarmos esta festa.


I - A natureza deste privilégio

1. Recordemos o estado em que foram criados nossos primeiros pais, a sua beleza, a sua perfeição, e a sua felicidade; recordemos a prova a que foram sujeitos e finalmente a queda e as tristes consequências que dela resultaram; tristes e lamentáveis, não só para eles, como para toda a sua posteridade. Porque em Adão, diz São Paulo, todos nós pecamos. Adão pecou, manchou-se e manchou-nos a todos nós.


Todo aquele, pois, que vem ao mundo, traz consigo as funestas cicatrizes do pecado paterno. Concebido em pecado, sofre desde o primeiro instante da sua conceição, as feridas e as penas do mesmo pecado. É esta uma lei fatal que pesa sobre o gênero humano, comum a todos, sem distinção nenhuma.


Nascemos filhos do pecado, filhos da ira, privados da graça santificante, da filiação divina, sem direito, portanto, à herança celestial.


Além disto trazemos as faculdades enfraquecidas e as tendências para o bem, menos persistentes, fáceis em desviar-se do seu objeto, ruínas estas, cujas consequências estamos longe de poder avaliar em toda a sua extensão.


2. Desta desordem e corrupção universais no tempo e no espaço, por privilégio especialíssimo, sem igual no passado e no futuro, apenas uma criatura foi excetuada, uma só, semelhante à Arca de Noé, que escapou ao dilúvio universal: Maria Santíssima. A sua futura dignidade de Mãe do Verbo encarnado, tomados em conta os futuros méritos e sacrifício de Jesus Cristo, mereceu-lhe ser livre de toda a mancha do pecado, mesmo do pecado original, desde o primeiro instante do seu ser.


Assim, o Arcanjo São Gabriel pode, com toda a verdade, chamar-lhe cheia de graça e a santa Igreja pode hoje saudá-la com igual verdade e cantar em seu louvor: tota pulchra es, et macula originalis non est in te.


3. Convinha à Majestade e Santidade de Deus que, tendo de escolher desde toda a eternidade esta criatura bendita para ser a Virgem fiel, e ao mesmo tempo Virgem-Mãe, que havia de dar ao mundo o Verbo feito carne, o Salvador prometido, a escolhesse sem mancha, a excetuasse da sentença comum de perdição, em virtude dessa eminente dignidade.


Não podemos supor que aquela que devia esmagar a cabeça da serpente, que Deus Pai ab aeterno olhava como sua filha muito amada, Deus Filho como sua Mãe muito querida, Deus Espírito Santo como sua única esposa; aquela que devia ser a Rainha dos Anjos e dos homens, dos Céus e da terra, fosse manchada pelo pecado, estivesse um só momento, sob o poder do demônio e, por isso mesmo, fosse inimiga de Deus.


Era necessário que ela tivesse desde o princípio esta santidade e pureza, verdadeiramente dignas de Deus, esta perfeição capaz de atrair com complacência os seus olhares: concupivit rex speciem tuam.


Isto também não convinha menos à bondade de Deus e ao seu amor por Maria. Efetivamente, podia Deus ser menos liberal para sua Mãe do que para os Anjos e para a primeira mulher? Dependia, por consequência, unicamente de Deus, mostrar este amor a esta liberalidade. O que ele podia fazer, fê-lo.


4. Deste modo, a tradição católica sempre saudou a Santíssima Virgem como a dileta de Deus, absolutamente isenta de toda a mancha, de todo o pecado, imaculada na sua Conceição. A Igreja sempre acreditou e professou a crença na Conceição imaculada de Maria, desde o primeiro instante em que a sua alma, criada por Deus, foi unida ao seu corpo formado no seio materno, e que foi essa pureza e beleza que a tornaram agradável aos olhos de Deus e objeto das suas inefáveis complacências.


Finalmente, a 8 de Dezembro de 1854, ela proclamou esta crença e confirmou-a pela boca do Mestre infalível da verdade, Pio IX, como dogma da fé, com grande alegria do universo católico.


II - Consequência deste privilégio em Maria

1. Em virtude desta isenção, Maria Santíssima também foi isenta dos males provenientes do pecado de Adão, na ordem moral; foi inacessível à concupiscência e impecável.


Nenhum sopro mau, perturbou jamais a sua excepcional beleza, que foi sempre um reflexo da beleza divina. Candor lucis aeternis,... luci comparata invenitur purior.


2. Maria, divinamente iluminada, conservou e sempre fez crescer em si, a graça divina. Nós quase não podemos imaginar os seus admiráveis progressos da virtude: mirabiles ascensiones ejus... Multae filiae congregaverunt divitias, tu supergressa es universas... nem podemos imaginar o amor que tinha a Deus, a sua humildade, obediência, e modéstia, paciência e todas as virtudes que nela resplandecem e que são o encanto de Deus. Quem é esta que se levanta do deserto, radiante como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol?


3. O que, porém, deve ser para nós, não um simples objeto de admiração, mas um modelo a imitar é que esta Virgem bendita, ainda que isenta de toda a culpa, sempre esclarecida com as luzes do Espírito Santo e divinamente fortificada, não deixou, desde a mais tenra infância e durante toda a vida, de evitar com o maior cuidado o contágio do mundo. Por uma vida de retiro e oração não deixou de trabalhar para se tornar cada vez mais agradável a Deus, a fim de corresponder aos seus desígnios. E assim podia dizer, ainda melhor do que o Apóstolo: Gratia Dei in me vacua non fuit...


O Virgem fidelíssima, ó Virgem prudentíssima, ajudai-nos a viver como vós.


III - Maneira de bem celebrar esta festa

1. Agradecermos a Deus e saudar Maria Santíssima por este insigne favor da Bondade divina: fecit tibi magna qui potens est.


Não é justo que os filhos se alegrem com os favores concedidos a seus pais? Enchamo-nos de santa alegria, vendo nossa Mãe tão cumulada de graças.


2. Mostrarmos a Deus o nosso reconhecimento pela graça singular que nos fez, purificando-nos, pelo Baptismo, do pecado original.


Nascidos inimigos de Deus e escravos do demônio, condenados à morte eterna, fomos libertados e santificados na fonte batismal, por um ato de pura misericórdia. A sentença de maldição converteu-se em palavras de bênção. Reconhecidos e adotados por Deus, como seus filhos, tornamo-nos templos do Espírito Santo, herdeiros do Céu. Quantos milhões de pagãos, perto de nós, não têm semelhante felicidade! Non fecit taliter omni nationi.


3. Consagrarmo-nos hoje a Maria, pedindo-lhe que nos ajude a guardar fidelidade às promessas do nosso Batismo, e às graças nele recebidas, evitando o pecado, santificando-nos cada vez mais pela prática da virtude e por uma vida digna de Deus. O Domina mea sancta Maria.


4. -Se tivermos a desgraça de perder a veste da inocência, recorrer com inteira confiança à nossa terna Mãe, que é Refúgio dos pecadores.


Dela receberemos auxílio para recuperarmos a graça e fazermos sincera penitência. Ela é o refúgio dos pecadores.


Talvez temais no Filho, diz S. Bernardo, a majestade divina, porque se bem que se fez homem, não deixou de ser Deus. Desejais um advogado para interceder junto dele? Recorrei a Maria. Eu declaro sem a menor hesitação: ela será ouvida por causa do seu humilde respeito.


Amemos, por tanto, a Maria e imitemos as suas virtudes. Inscrevamo-nos nas suas confrarias, não deixemos de trazer conosco uma medalha com a sua imagem e digamos muitas vezes: “ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. Pela vossa santa e imaculada Conceição, ó Maria, tornai o nosso corpo puro e a nossa alma santa. Nós queremos ser, como os Santos e os Anjos, vossos súbditos fiéis, e não queremos por isso que nenhuma impureza manche esta cidade santa, Jerusalém celeste, onde vosso Filho é Rei e vós sois Rainha.



MISSA DA IMACULADA CONCEIÇÃO


Padre Thiriet, Explicação dos Evangelhos, II volume, 1947.



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