• Apostolado FERR

O Rei de nossas almas (Homilia)




SERMÃO PARA O DOMINGO DE RAMOS

O REI DE NOSSAS ALMAS

Púeri Hebræórum... clamántes et dicéntes: “Hosánna in excélsis.”

Padre Jorge Luís

Este domingo é especial porque refere-nos um dos fatos mais extraordinários da vida do Salvador: a sua entrada triunfal em Jerusalém. Nosso Senhor amava a pobreza, a humildade; e o vimos muitas vezes fugir das honras, que o povo queria tributar-lhe. Hoje, porém, por disposição misteriosa da sua sabedoria infinita, sabendo que a sua hora tinha chegado e que está na véspera de consumar o seu sacrifício, que lhe custará tantos sofrimentos, quer ser recebido em triunfo na Cidade Santa, na cidade real, e ser nela reconhecido e aclamado como verdadeiro Messias, filho de Davi.


Uma Semana Santa diferente – Caríssimos irmãos, mais uma vez celebramos a Semana Santa, mas esse ano de um modo diferente... Hoje celebramos Jesus que entra triunfalmente em Jerusalém, mas nós não podemos entrar livremente em nossas próprias igrejas! Hoje Jesus é aclamado pelos filhos dos hebreus, mas nossas crianças não podem agitar seus ramos bentos em suas mãos! Hoje os hebreus querem fazer Jesus seu Rei, mas não podemos prestar o devido culto publicamente ao nosso Deus!


Nunca, nunca tivemos uma Semana Santa assim, e Deus queira que nunca mais tenhamos!


Divisão das Cerimônias – As sagradas cerimônias de hoje possuem duas partes bem distintas: 1º a bênção dos ramos, com a distribuição e, em tempos normais, uma procissão em homenagem a Cristo Rei. Nessa primeira parte reina a alegria e uma certa euforia. A realeza de Jesus é colocada em relevo e por isso os paramentos vermelhos, a cor real; já a 2ª parte trata-se da Missa, com tons tristes porque já ouvimos a primeira das quatro Histórias da Paixão de Cristo. Já podemos entrever a Sexta-feira Santa, a morte de Jesus é colocada em relevo, e por isso são usados paramentos roxos.


Mas procuremos entender melhor esse dia tão importante para nós.


Jesus sai de Betânia – Jesus estava desde ontem em Betânia, e lá deixa sua Mãe com Marta, Maria Madalena e seu irmão Lázaro.


De Betânia Jesus foi hoje muito cedo em direção a Jerusalém acompanhado por seus discípulos. Nossa Senhora tem aquele pressentimento de mãe e estremece quando seu filho se aproxima de seus inimigos que pretendem derramar seu sangue, porém, Jesus não vai a Jerusalém para buscar a morte, mas para triunfar. É necessário que o povo proclame o Messias rei antes de ser crucificado, que, diante das águias romanas, na presença dos pontífices e fariseus, mudos de raiva e estupor, as vozes das crianças ressoem misturadas com os clamores dos cidadãos em louvor do Filho de Davi.


Cumprimento da profecia – O Profeta Zacarias havia previsto esse passo da Paixão de Jesus dizendo: “Alegra-te com grande alegria, ó filha de Sião, salto de alegria, ó filha de Jerusalém, vê que o teu Rei vem a ti, justo e humilde, montado num jumento, num jumentinho, o potro de uma jumenta”. Quando chega a hora de cumprir esta profecia Jesus envia dois de seus discípulos para ir e trazer-lhe um burro e um jumentinho que encontrará não muito longe dali. O Salvador estava em Betfagé, uma pequena aldeia localizada na encosta do Monte das Oliveiras, há dois quilômetros de Jerusalém.


Os Santos Padres nos forneceram a chave para o mistério desses dois animais. O burro representa o povo judeu submetido ao jugo da lei; “o potro em que, segundo o Evangelho, ninguém ainda havia montado” (Mc 11,2), representa os pagãos que ninguém ainda subjugou. O destino de ambos os povos, judeus e pagãos, será decidido dentro de alguns dias. O povo judeu será rejeitado por não ter recebido o Messias, em seu lugar, Deus escolherá o povo gentio, até então indomável, mas que se tornará dócil e fiel.


Não foi por acaso que Jesus quis sair de Betfagé para Jerusalém.


Em Betfagé eram guardadas as vítimas, os cordeiros destinados aos sacrifícios, donde, quatro dias antes da Páscoa solene, eram conduzidos ao templo, ornados de flores para serem imolados. Jesus quer, pois, sair deste lugar, para nos fazer compreender que Ele é a Vítima por excelência, que será sacrificada pela salvação do mundo, o verdadeiro Cordeiro pascal, cujo sangue reconciliará a terra com o Céu: Dilexit nos, et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo. Agnus Dei qui tollit peccata mundi.


Entrada em Jerusalém – Em Jerusalém, o boato é que Jesus está se aproximando. Inspirada pelo Espírito divino, a multidão de judeus reunidos na cidade de toda a Palestina para celebrar a Páscoa, sai para recebê-lo com palmas e gritos clamorosos. A procissão que acompanhava Jesus de Betânia confunde-se com essa fervorosa multidão de entusiasmo; alguns estendem seus mantos ao longo do caminho, outros erguem ramos de palmeiras no caminho. O clamor de “Hosana” ressoa e as notícias circulam pela cidade de que Jesus, filho de David, entra como rei.


Neste dia, Jesus teve um momento de glória e a Igreja quer que renovemos todos os anos a memória deste triunfo do Filho do homem.


Jesus é Rei – Quando Jesus nasceu, vimos os Magos vindo do extremo oriente a Jerusalém em busca do Rei dos Judeus, para adorá-lo e oferecer-lhe seus presentes; hoje é a própria Jerusalém que sai para recebê-lo. Ambos os eventos têm o mesmo objetivo: reconhecer Jesus Cristo como Rei; o primeiro da parte dos gentios, o segundo da parte dos judeus.


A inscrição que Pilatos em breve colocará na cabeça do Redentor: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, será o caráter indispensável de seu messianismo. Os esforços dos inimigos de Jesus para mudar os termos da escrita serão inúteis, eles não vão conseguir seu fim. “O que escrevi está escrito”, respondeu o governador romano. Sua mão confirmou, sem saber, as profecias. Israel proclama hoje a Jesus como seu rei, logo ele será dispersado em punição de seu perjúrio, mas aquele Jesus, a quem proclamou, permanecerá sempre Rei.


Foi assim que se cumpriu a mensagem do Anjo que disse a Maria anunciando-lhe a grandeza do Filho que conceberia: “O Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó” (Lc 1,32).


A Igreja lê a narrativa dos quatro Evangelhos em quatro dias diferentes desta semana. Começa hoje com a de São Mateus, o primeiro a escrever a narrativa da vida e da morte do Salvador. Propriamente da morte de Jesus nos ocuparemos na Sexta-feira Santa. Mas podemos hoje já nos perguntar:


Quais eram os sentimentos de Jesus? – Há três anos Jesus percorre a Palestina, pertransiit benefaciendo (Act. X, 38), passou fazendo o bem, a sua vida foi um ato contínuo de caridade e de humildade.


Sem dúvida, o seu Coração se alegrava com a sinceridade e amor deste povo. Mas ouvia ao mesmo tempo as murmurações invejosas e odientas dos Príncipes dos sacerdotes e dos Fariseus, que mais se exasperavam com esta demonstração, aliás tão pacífica. Bem sabia que no Sinédrio, sob proposta de Caifás, já tinha sido resolvida e votada a sua morte, e que o discípulo traidor ao seu Deus já tinha consumado em seu coração o seu abominável crime. Sabia, enfim, que, cinco dias depois, em Jerusalém ressoaria o grito deicida: Crucifica-O! Crucifica-O! e que de todas as vozes que o aclamavam hoje, nem uma só se faria ouvir em sua defesa. Por isso São Lucas nos diz que o Salvador, no momento em que avistou a cidade, começou a chorar de dor sobre ela: Flevit super illam!


As lágrimas de Jesus – Alguns dias atrás, o santo Evangelho nos mostrou Jesus chorando no túmulo de Lázaro; hoje derrama lágrimas novamente quando olha para Jerusalém. Em Betânia, ele chorou ao pensar na morte do corpo, um castigo pelo pecado; mas esta morte tem um remédio. Jesus é “a ressurreição e a vida, e quem nele crer não morrerá para sempre” (Jo 11,25). O estado de Jerusalém, por outro lado, é uma figura da morte espiritual; e esta morte não tem remédio, se a alma não chegar a tempo ao autor da vida. É por isso que as lágrimas que Jesus derrama hoje se tornam tão amargas. No meio das aclamações a que ele é submetido ao entrar na cidade de Davi, seu coração é oprimido pela tristeza; porque ele sabe melhor do que ninguém “que eles não reconheceram a hora da sua visita”. Consolemos o coração do Redentor e nos tornemos sua cidade fiel.


De volta a Betânia – Sabemos por São Mateus que o Salvador terminou este dia em Betânia. Sua presença suspende as preocupações de sua Mãe e tranquiliza a família de Lázaro. Em Jerusalém não havia ninguém para hospedá-lo: Jesus honrado hoje pela manhã com magnífico triunfo, à tarde é forçado a procurar hospedagem fora da cidade que o recebeu com tanto fervor.


Assim caríssimos irmãos, hoje dai entrada a Jesus em vossas casas, em vossos lares. Hospedai hoje a Jesus, oferecei-lhe um lugar onde possa descansar. Neste dia tão feliz e tão triste, não podendo vir até a vossas igrejas, abri as vossas casas para que Jesus possa entrar; abri os vossos corações para que Jesus aí possa reinar!


Sem Comunhão sacramental, muitos sem Confissão, sem ramos bentos, sem procissão, mas nunca sem Jesus no coração. Sejamos todos nós, uma criança que hoje se alegra e canta: Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!




Conferir os Comentários de Dom Próspero Gueranger, O Ano Litúrgico, e os Planos de Homilias do Padre Thiriet.


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