• Apostolado FERR

O santo Tempo da Quaresma (Homilia)




HOMILIA

O SANTO TEMPO DA QUARESMA

Ductus est Iesus in desertum a Spiritu.


Por Padre Thiriet


Nosso Senhor dá-nos, neste Evangelho, o exemplo da vida que o verdadeiro cristão deve ter, principalmente durante a Quaresma... É um tempo de recolhimento, instituído pela Igreja para honrar os quarenta dias que Jesus passou no deserto, jejuando, orando e vencendo o demônio...


Devemos imitar este modelo divino e viver santamente na Quaresma, considerando-a como um tempo de oração, de penitência, de luta, e de santificação...


I. - Um tempo de oração.

1. - Devemos orar sempre e em todo o tempo: oportet semper orare, et non deficere... Mas durante a Quaresma a Igreja convida-nos à oração de um modo especial, a Liturgia é cheia de exortações instantes e encantadoras súplicas: Canite tuba in Sion... vocate cœtum, congregate populum... Inter vestibulum et altare plorabunt sacerdotes ministri Domini et dicent: Parce populo tuo... Adiuva nos, Deus salutaris noster... Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis... Escutemos docilmente esta voz do divino Mestre, e multipliquemos os brados do nosso coração,... oremos com uma fé mais profunda, com mais compunção e fervor, algumas vezes de joelhos como os miseráveis que imploram perdão... Assistamos mais vezes à Santa Missa, visitemos mais assiduamente o SS. Sacramento e façamos o piedoso exercício da Via-Sacra.


2. - Além disto, temos motivos de sobejo para orarmos mais neste tempo: a lembrança dos nossos pecados, o conhecimento das nossas misérias e das nossas necessidades, os perigos que nos ameaçam em toda a parte, a incerteza do futuro, o receio do juízo final...


Oh! como a misericórdia e a assistência divinas nos são necessárias!


3. - Sobretudo devemos pedir, para nós, a graça de uma verdadeira conversão, de receber com melhores disposições os Sacramentos da Penitência e da Eucaristia, de cumprir melhor os deveres do nosso estado, numa palavra, a graça de viver cristãmente e de ter uma morte santa...


4. - Peçamos, também, a conversão de um grande número de cristão covardes, negligentes, talvez endurecidos, que desde há muito vivem afastados de Deus e desobedientes à sua lei e à sua Igreja...


Não temos parentes, vizinhos, amigos, neste triste estado?


Façamos por ele violência ao Sagrado Coração: Domine, ecce quem amas infirmatur!... Recordare quod steterim in conspectu tuo, ut loquerer pro eis bonum, et averterem indignationem tuam ab eis... Jesus ama dum modo especial estes caridosos apelos...


5. - Enfim, a Quaresma foi, desde a sua orgiem, um tempo consagrado especialmente à prepa-ração e instrução dos catecúmenos que deviam ser regenerados na grande solenidade da Páscoa. Com-penetremo-nos bem do espírito da Igreja, principalmente nós que vivemos rodeados de tantos indiferentes e até talvez descrentes e que temos sobre eles a singular vantagem de conhecermos o dom de Deus e de pertencer ao verdadeiro aprisco: oremos pela conversão desses pobres infiéis... Sejamos apóstolos, ao menos pela oração, se a nossa vocação não foi para pregadores da divina palavra: Imitte, Deus, timorem tuum super gentes, quæ non exquisierunt te, ut congnoscant magnalia tua... Que ele se digne realizar as suas próprias palavras: alias oves habeo, quæ non sunt ex hoc ovili; et illas oportet me adducede, et vocem meam audient, et fiet unum ovile et unus pastor!


II. - Um tempo de penitência.

1. - Pœnitentiam agite... Nisi pœnitentiam egeritis... Ora a penitência é necessária a todos, por-que todos nós somos pecadores... Interrogue-se cada um a si mesmo à luz da graça divina, perscrute os escaninhos da sua consciência e diga, depois, se se encontra inocente... Quem terá a ousadia de afirmar que não tomou parte na condenação e nos sofrimentos de Nosso Senhor?... Quantos pecados, negligências e tédio no serviço divino?... Quantas dívidas contraídas para com a justiça divina?...


2. - Que penitência temos feito até hoje?... Mas eis o tempo próprio para a fazer... Imitemos a Jesus no deserto... Observemos quanto possível os jejuns e as abstinências da Igreja... Quantos pre-textos vãos apresentamos algumas vezes para nos dispensarmos!... Quantos cristãos, a este respeito, vivem como pagãos e são menos dóceis e menos fiéis do que os Judeus e os Maometanos!


A Igreja ordena que jejuemos em certos dias do ano e durante toda a Quaresma. A sua intenção é levar-nos a honrar e a imitar o jejum de N. Senhor no deserto, a expiarmos tantos pecados de gula e a prepararmo-nos mais convenientemente para celebrar a bela festa da Páscoa, na qual, depois de ter feito morrer em nós o velho homem, ressuscitaremos com J. Cristo para sermos nova creatura in Deo.


a) Esta lei obriga sub gravi desde os 18 anos completos até aos 59 completos, a não ser que, por qualquer motivo justo, estejamos impedidos ou dispensados.


Os doentes, os convalescentes, as mulheres grávidas e as que amamentam os filhos, e todos os que se entregam continuamente a trabalhos pesados estão dispensados.


b) A lei da abstinência obriga desde os 7 anos até ao fim da vida, a não ser que haja motivo para dispensa.


3. - Nós temos, durante o dia, mil ocasiões ou maneiras práticas de fazer penitência e isto sem comprometer em coisa nenhuma a nossa saúde: suportar com paciência os defeitos do próximo, uma palavra injuriosa, uma humilhação, privarmo-nos de uma pequena quantidade na comida e na bebida, no luxo, nos prazeres; não procurarmos as nossas comodidades, vigiarmos mais cuidadosamente os nossos sentidos e as nossas palavras, aceitar humildemente e com amor as cruzes, as provas e as doenças que Deus manda, reprimir as queixas e as murmurações!... Oh! como a nossa vida podia ser agradável a Deus e meritória para o Céu!...


4. - Tenhamos cuidado em cumprir mais regularmente os deveres do nosso estado, custe o que custar, fazendo tudo com espírito de penitência e amor... Trabalho alimentado, purificado e santificado pelo espírito... Obediência perfeita e renúncia à vontade própria, por amor de N. Senhor que a si mesmo se aniquilou e por nós se tornou obediente até à morte e morte de cruz.


III. - É um tempo de reforma e de luta.

1. Devemos deixar de pecar enquanto ele durar: quiescite agere perverse... Evitemos as ocasiões perigosas que tantas vezes foram a causa das nossas quedas,... o frequentar tal lugar, tal casa ou tal pessoa... Deponhamos o ódio, a má vontade, os desejos de vingança,... perdoemos aos nossos inimigos tais injustiças, tais fraudes e tais usuras,... façamos as restituições a que formos obrigados,... in novitate vitæ ambulemus.


2. - Além disto, não haverá, perto de nós, alguém escravo de alguns maus hábitos, indignos dum cristão, repreensíveis em todo o tempo, mas mais odiosos ainda neste santo tempo da Quaresma, por exemplo, o jogo, a embriaguez, o tabaco, a libertinagem, a frequentação do teatro, etc.?... Abstenhamo-nos destes vícios, que alegram o demônio, mas contristam a Igreja e crucificam a Jesus Cristo... Consideremos como Nosso Senhor resiste às tentações do demônio e imitemo-lo: resistite fortes in fide...


3. - Todos nós alimentamos, mais ou menos, defeitos que nos impedem de sermos verdadeira-mente discípulos do Salvador; trabalhemos por corrigi-los... Entre estes defeitos há, ordinariamente, um dominante, que é a causa de todas as nossas quedas... Estudemo-lo bem: “Domine noverim me” e disponhamo-nos seriamente à prática do exame quotidiano, de resoluções inabaláveis e de qualquer castigo, se a ela faltarmos. Combatamos generosamente, renunciemos continuamente a nós mesmos, mortifiquemos a nossa natureza, que é perversa, e despojemo-nos do homem velho para nos revestirmos do homem novo, como diz o Apóstolo: aqueles que vivem, não vivam já para si, mas para Aquele que morreu por eles e que por eles ressuscitou...


IV. - É um tempo de mortificação.

1. - Ecce nunc tempus acceptabile, ecce nunc dies salutis... Hortamur vos ne in vacuum gratiam Dei recipiatis...


Esforcemo-nos, durante este santo tempo em que superabundam as graças de Deus, por aproveitá-las melhor,... a fim de merecer que os frutos da Redenção nos sejam aplicados...


2. - Exercitamo-nos diariamente na prática das virtudes cristãs, principalmente daquelas que nos são mais necessárias em virtude do nosso estado, por exemplo, a modéstia a humildade, a caridade, a paciência, a vigilância e solicitude para com as criancinhas, etc...


Demos a todos e em tudo, bom exemplo... Façamos frequentes vezes atos de fé, esperança e caridade...


Esforcemo-nos, durante este santo tempo em que superabundam as graças de Deus, por aproveitá-las melhor,... a fim de merecer que os frutos da Redenção nos sejam aplicados...


3. - Santifiquemo-nos, assistindo mais assiduamente e com mais fervor ao Santo Sacrifício da Missa, ouvindo ou lendo com mais atenção a palavra divina; porque o homem não vive somente de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.


4. - Frequentemos mais os Sacramentos e com melhores disposições, que eles são a fonte de toda a graça e santidade...


Há tantos cristãos, que não cumprem o preceito pascal e outros que o cumprem mal!... Tantos que lá vão sem fé e sem amor, levados unicamente pela rotina!...


Oh! se os cristãos recebessem como devem estes dois Sacramentos, seriam puros, fortes e terríveis na luta com o demônio!... viveriam a vida celeste e divina e espalhá-la-iam em volta de si...


Conclusão. Meus irmãos, uma vez mais vos peço: façamos que este tempo de Quaresma seja um tempo de graça e de salvação... Consideremos Jesus no deserto, oremos com ele, façamos penitência e combatamos com Ele, frutificando em toda a espécie de boas obras,... tornemo-nos dignos de ressuscitar com ele para gozarmos da sua presença no Céu, por toda a eternidade. Amém.



MISSA DO I DOMINGO DA QUARESMA


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