• Apostolado FERR

Os Catecismos de São João Maria Vianney


Abbé A. Monnin

O ESPÍRITO DO CURA D'ARS

NOS SEUS CATECISMOS, HOMILIAS E CONVERSAÇÃO


PARTE I

O CURA D'ARS NOS SEUS CATECISMOS



INTRODUÇÃO


Não há dúvida alguma que, pela pureza do coração, pela inocência ou conservada ou recuperada pela virtude, pela fé e pelo amor de Deus, haja no homem capacidades e recursos de espírito, de corpo e de coração que a maioria não suspeita. É a esta ordem de recursos que pertence isso a que a teologia chama ciência infusa, as virtudes intelectuais inspiradas que difunde no nosso espírito o Verbo Divino, quando habita em nos pela fé e pela caridade. “O que purifica o olhar do coração e o torna apto a se elevar à verdadeira luz, disse uma santa que vivia no século onze num dos místicos mosteiros da Alemanha, é o desprezo dos cuidados do século, a mortificação do corpo, a contrição do coração, o banho das lágrimas... a meditação da admirável essência de Deus e da sua casta verdade, a oração forte e pura, a alegria em Deus, o ardente desejo do Céu. Abraçai tudo isso, acrescenta a santa, e ficai nisso. Avançai para a luz que se oferece a vós como a seus filhos, e desce por si mesma aos vossos corações. Tirai os corações do peito, e dai-os Àquele que vos fala; ele os encherá de esplendores deíficos, e sereis filhos de luz e anjos de Deus”.


A teoria que acabamos de ler parece ter sido calcada na própria vida do Cura d'Ars: não há nela um só traço que o não lembre; um só pormenor que se lhe não harmonize maravilhosamente com a figura! Que homem levou mais longe o desprezo dos cuidados do século, a mortificação do corpo, o banho de lágrimas? Estava sempre inundado deste!... E a meditação da admirável essência de Deus e da sua casta verdade, e a oração forte e pura, a alegria em Deus, o ardente desejo do Céu? Como tudo isto é característico! Ele avançara para a luz, e a luz lhe descera por si mesma ao coração... Tirara o coração do peito, dera-o Àquele que lhe falava: e Aquele que lhe falava, que é o Verbo Divino, a palavra de Deus incriada, enchia-o de esplendores deíficos. Quem poderia duvidar disso entre os que tiveram a ventura de assistir a alguns dos catecismos d'Ars, de ouvir aquela palavra estranha que não se parecia com palavra alguma humana; entre aqueles que viram o efeito irresistível produzido sobre os ouvintes de toda classe por aquela voz, por aquela sensibilidade, por aquele arroubo, por aquela intuição, por aquela chama e pela esplendorosa beleza daquele francês inculto, quase trivial, porém transfigurado e penetrado do fogo sagrado até na forma, no arranjo, na harmonia das palavras e das sílabas? E, no entanto o imortal catequista não dizia palavras; a verdadeira eloquência está nas coisas; o Cura d'Ars dizia coisas, e dizia-as em estilo prodigioso. Sua alma passava toda à da multidão para fazê-la crer, amar, esperar com ele. É esse o escopo supremo e também o triunfo da eloquência evangélica.


Como é que aquele homem que pensara não ser admitido ao seminário maior por causa da sua ignorância; aquele homem que, desde a iniciação no sacerdócio, não tivera outra ocupação senão a oração e os trabalhos do confessionário, como é que esse homem chegara a fazer dogmática à maneira de um Padre da Igreja? De que foco podiam jorrar aquelas surpreendentes luzes sobre Deus e suas obras, sobre a natureza e a história da alma? Como fazia o Cura d'Ars, para se encontrar no mesmo pensamento, e às vezes nas mesmas expressões, com os mais belos gênios cristãos, os Crisóstomos, os Agostinhos, os Bernardos, os Tomazes de Aquino, os Boaventuras, as Catarinas de Sena, os Teresas?


Ouvíramos-lhe, por exemplo, muitas vezes dizer que o coração dos santos era Líquido. Ficáramos impressionados com essa arrebatadora expressão, mas estávamos longe de suspeitar que ela tivesse tamanha precisão teológica. Foi com surpresa enternecida pela lembrança do nosso bom Santo, que achamos, folheando a Suma, uma questão na qual o Doutor Angélico consigna ao amor quatro efeitos imediatos, o primeiro dos quais é a Liquefação do coração. Por certo, o Padre Vianney nunca lera S. Tomás; essa noção, literalmente emprestada do grande teólogo, é por isto ainda mais notável. Há razão para nos admirarmos, e o prodígio só carece de explicação para os que ignoram os processos da graça, e que nunca compreenderam estas palavras do Mestre: Aquilo que ocultastes aos sábios e aos prudentes, quisestes revelá-lo aos pequenos (Mt 11, 23).


O espírito de Deus comprazera-se em gravar no coração daquele santo Sacerdote tudo o que ele devia saber e ensinar aos outros, e gravara-o tanto melhor quanto mais puro, mais desprendido, mais vazio de vã ciência dos homens era aquele coração: era como um mármore bem limpo e bem polido que aguarda apenas o buril do operador.


A fé do Cura d'Ars era toda a sua ciência; seu livro era Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não buscava a sabedoria alhures que em Jesus Cristo, na sua morte e na sua cruz. Não havia para ele outra sabedoria verdadeira, outra sabedoria útil. Não fora na poeira das bibliotecas, nem na escola dos sábios, fora na oração, de joelhos aos pés do Mestre, cobrindo-lhe de lágrimas e de beijos os pés divinos; fora em presença dos santos tabernáculos onde passava os dias e noites, no tempo em que a multidão ainda não lhe tirara a liberdade dos dias e das noites, fora aí que ele aprendera tudo.


Sucedeu muitas vezes às pessoas que o ouviram discorrer sobre o Céu, sobre a humanidade santa de Nosso Senhor, sobre a sua dolorosa paixão, sobre a sua presença real no Santíssimo Sacramento dos nossos altares, sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria, sobre as suas amabilidades e grandezas, sobre a felicidade dos santos, sobre a pureza dos anjos, sobre a beleza das almas, sobre a dignidade do homem, sobre todos aqueles assuntos que lhe eram familiares, sucedeu-lhes saírem daquela prática convencidos de que o bom Padre via as coisas de que acabava de falar com tal plenitude de coração, com eloquência tão comovida, com acentos tão apaixonados, com tamanha abundância de lágrimas; e, de fato, a sua palavra impregnava-se então de um caráter de ternura divino, de suave doçura e de unção penetrante, a que nada se pode comparar. Havia-lhe na voz, no gesto, no olhar, no rosto transfigurado, um brilho tão extraordinário, um poder tão maravilhoso, que era impossível ficar frio escutando-o. As vistas e os pensamentos que a luz divina comunica, têm alcance bem diverso dos que se adquirem pelo trabalho. Em presença de exposição tão simples e tão luminosa, ao mesmo tempo, perante certeza tão grande, a dúvida ausentava-se dos corações mais rebeldes, e as admiráveis claridades da fé tomavam-lhe o lugar.


A palavra do Cura d'Ars tinha tanto mais eficácia quanto ele pregava por todo o seu ser. A sua simples presença já era uma aparição da verdade. Era bem dele que se podia fazer que era o orador dos olhos, e que teria comovido e convencido até pelo seu silêncio. Quando se via aparecer no púlpito aquele rosto pálido, ossudo, diáfano; quando se ouvia aquela voz aguda, penetrante, parecida com um grito, lançar à multidão os nossos pensamentos sublimes, debaixo duma aparência ingênua e popular, acreditava-se estar em presença de uma daquelas grandes figuras bíblicas a falar aos homens a língua dos profetas. Já se ficava tomado de respeito, cheio de confiança e disposto a ouvir, não para gozar, mas para aproveitar.


Antes de começar, o venerando catequista passeava sobre o auditório o olhar, que preparava o caminho à palavra. Às vezes esse olhar tornava-se fixo; parecia revolver até ao fundo uma alma que o santo homem entrevira de repente, e na qual se diria que ia buscar o texto da sua prática. Quantos puderam crer que ele só falara para eles! Quantos se e conheceram na pintura que ele fazia das suas fraquezas! Quantos acharam nela a história secreta dos seus desfalecimentos, das suas seduções, dos seus combates, das suas perturbações e remorsos!...

Para aqueles a quem foi dado assistir a estes catecismos, havia duas coisas igualmente notáveis: o pregador e o ouvinte. Não era uma palavra que o pregador fazia ouvir, era mais que uma palavra, era uma alma, uma alma santa, toda embebida de fé e de amor, que se expandia diante de vós, cujo contato imediato experimentáveis, cuja irradiação sobre vossa alma sentíeis. Quanto ao ouvinte, este não estava mais na terra, era transportado às puras regiões donde descem os dogmas e os mistérios. À medida que o apóstolo falava, novos e claros horizontes se abriam ao pensamento: o Céu e a terra, a vida presente e a vida futura, as coisas do tempo e as coisas da eternidade mostravam-se sob uma luz que ainda se não enxergara.


Quando um homem, vindo do mundo e trazendo-lhe as ideias, os sentimentos, as impressões que nele se respiram, se assentava para ouvir aquela doutrina, ela atordoava-o, transtornava-o... tão pungente desafio lançava ao século e a tudo o que o século crê, ama, admira e preconiza!.. Era a princípio vertigem e estupor que ele experimentava; depois o enternecimento ganhava-o pouco a pouco, e ele se surpreendia a chorar como os outros. Que eloquência provocou tantas lágrimas? Que palavra penetrou mais fundo nos corações? Ela fazia brecha neles pelo fogo e pela chama: ardia, irradiava, triunfava; fazia melhor do que encantar o espírito, dominava a alma toda e reconduzia-a a Deus, não pela trilha não raro longa e difícil da discussão, mas pelas sendas da emoção que abreviam e conduzem diretamente ao fim.


Escutava-se o Padre Vianney como a um novo apóstolo que Jesus Cristo enviava à sua Igreja, para renovar nesta a santidade e o fervor do seu divino Espírito, num século cuja corrupção tão profundamente o alterou na alma da maioria dos homens. E é uma grande maravilha que, só propondo, como os apóstolos, uma doutrina incompreensível a razão humana e amaríssima ao gosto depravado do mundo, — pois ele só falava de cruzes, de humilhações, de pobreza, de penitência, — essa doutrina fosse tão bem acolhida. Os que ainda não a tinham no coração folgavam de alimentar com ela o espírito. Se não tinham a coragem de fazer dela a regra da sua conduta, não podiam deixar de achá-la admirável e de desejar segui-la.


Não menos notável é que, falando só o seu idioma natural, isto é, o francês pouco castigado da gente do campo, quase se pudesse, entretanto dizer, do Padre Vianney, como dos apóstolos, que ele foi ouvido por todas as nações do mundo, e que a sua voz ecoou por toda a terra. Ele era o oráculo que se ia consultar para aprender a bem conhecer Jesus Cristo. Não só os simples, porém os eruditos, não só os perfeitos, porém os indiferentes experimentavam, não sei que unção divina que os penetrava e os fazia desejar saboreá-la ainda. Quanto mais ouviam, tanto mais queriam ouvi-lo, e voltava-se sempre com amor ao pé daquele púlpito, como a um lugar onde se tivesse achado o belo e a verdade. Nada mostrava melhor que o Cura d'Ars era cheio do Espírito de Deus, único que é maior que o nosso coração: pois, por mais que o escavemos, nunca chegaremos a esgotá-lo, e a divina saciedade que ele dá não faz senão excitar um grande apetite, que nos deixa sempre mais famintos.


O santo Cura falava sem outro trabalho preparatório que a sua contínua aplicação a Deus; passava sem demora e sem transição do confessionário ao púlpito e, todavia, levava a este uma imperturbável segurança, maravilhosa impassibilidade, que absolutamente não nascia da certeza, porém antes do esquecimento completo e absoluto de si próprio. Do resto, não se era tentado a julgá-lo. Os homens ordinariamente só julgam aqueles a quem não é indiferente ser julgado. Tinha-se coisa muito diversa a fazer quando se ouvia o Cura d'Ars: havia que julgar a si próprio.


O Padre Vianney de modo algum se preocupava com o que pudessem dizer ou pensar dele. Qualquer que fosse a composição do seu auditório, ainda que bispos e outros ilustres personagens viessem muitas vezes misturar-se à multidão que lhe cercava o púlpito, Jamais a sua palavra traiu a menor emoção, nem o menor embaraço proveniente de temor humano. Ele, tão tímido e tão modesto, não era mais o mesmo homem quando atravessava as filas cerradas da assistência não raro imponente que enchia a igreja, a hora do catecismo; tinha ele então o ar de um triunfador; trazia a cabeça erguida; o rosto estava iluminado; os olhos desferiam chispas.


“O vosso auditório nunca vos fez medo? Perguntavam-lhe um dia. — Não, respondia ele, ao contrário. Quanto mais gente há, tanto mais contente fico”. E acrescentava para dar o troco: “Os orgulhosos acham sempre que estão fazendo bem”. Houvesse o Papa, os cardeais, os reis ao pé do seu púlpito, e ele não diria nem mais nem menos, só pensando nas almas o só fazendo pensar em Deus. Essa verdadeira dominação oratória supria nele o talento e a retórica; dava às coisas mais simples, saídas daquela boca veneranda, uma majestade singular, e irresistível autoridade.


O que não fortalecia menos os discursos do Padre Vianney era a alta opinião que os peregrinos tinham da sua santidade. “A primeira qualidade do homem chamado à perigosa felicidade de instruir os povos, diz Santo Isidoro, é ser santo e irrepreensível. É preciso que seja alheio ao pecado aquele cuja missão é afastar os outros do pecado; cumpre que pareça em tudo como um modelo de perfeição aquele cuja tarefa é conduzir os outros à perfeição” (Homilias, livro II, de Offic.). No santo catequista de Ars, era a virtude que pregava a verdade. Quando ele falava do amor de Deus, humildade, doçura, paciência, mortificação, sacrifício, pobreza, desejo de sofrimento, os seus exemplos davam um peso imenso às suas palavras. Um homem é bem forte para convencer e persuadir, quando se vê que ele pratica tudo o que ensina.


A forma que empregava o Cura d'Ars não era outra coisa mais que o invólucro mais transparente que tome a ideia, a fim de parecer o mais possível tal qual é, criando ela própria a expressão que lhe convém. Ele sabia por as verdades de ordem a mais elevada ao alcance de todas as inteligências; revelava-as em linguagem familiar, enternecidas pela simplicidade, arrebatava pela doutrina. A ciência que não é procurada é a que transborda; flui como a água da fonte viva que a Samaritana não conhecia e cuja virtude o Salvador lhe ensinou. Assim, as considerações sobre o pecado, sobre a injúria que este faz a Deus e sobre o mal que faz ao homem, não lhe eram um jogo do espírito, mas um trabalho doloroso do pensamento; penetravam-no, consternavam-no, atormentavam-no: era o dardo de fogo enfiado no seu peito, Ele aliviava a alma expandindo-a.


Coisa admirável, esse homem, tão disposto a proclamar a própria ignorância, nascera com grande atrativo pelas faculdades superiores da inteligência; o mais belo elogio que pudesse fazer de alguém era dizer que tinha espírito. Quando enumeravam diante dele os predicados de uma pessoa, eclesiástica ou leiga, ele raramente deixava de completar o panegírico por estas palavras: “O que eu aprecio, sobretudo é que ele é sábio!...” O Padre Vianney apreciava e saboreava nos outros os dons da eloquência; bendizia a Deus que, por sua glória, concede ao homem tão simples privilégios, mas desdenhava-os para si mesmo, Não tinha escrúpulo de ferir ultrajantemente a gramática e sintaxe nos seus discursos; podia-se crer que o fazia de propósito, por humildade, pois havia faltas que ele poderia evitar. Isso não impedia essa linguagem incorreta de penetrar nas almas, de iluminá-las e convertê-las: “O discurso polido, diz S. Jerônimo, afaga apenas os ouvidos; o que, sem ser polido, é cheio da verdade, abre caminho até ao coração”.


A palavra do Cura d'Ars tinha subtaneidade e rasgo; ele a desferia como uma flecha, e toda a sua alma parecia partir e arrojar-se com ela. Havia, nessas efusões, belas e empolgantes coisas. O patético, o profundo, o sublime encontravam-se nelas ao lado do simples e do vulgar. Achava-se nelas todo o abandono, toda a desordem, mas também toda a espontaneidade e todo o poder de uma improvisação. Algumas vezes tentamos escrever o que acabávamos de ouvir; foi-nos impossível reproduzir as coisas que mais nos haviam comovido, e dar-lhes uma forma; elas plantavam-se no bico da pena: era uma lava arrefecida, O vento não escreve aquilo que ele murmura no silêncio das florestas, o mar não escreve os gemidos das suas praias; assim também, o que há de mais divino no coração do homem não sai deste com o auxílio da escrita.


Eis aqui, no entanto algumas palavras que recolhemos, e nas quais achamos mais que uma recordação e um eco, nas quais achamos o próprio Cura d’Ars, sua alma e seu coração na sua ingênua expressão. Ele tinha às vezes altos e profundos pensamentos como estes:

“Amar a Deus; oh! Como é belo! É preciso o Céu para compreender o amor!... A oração ajuda um pouco, porque a oração é a elevação da alma até ao Céu...”
“Quanto mais conhecemos os homens, tanto menos os amamos. É o contrário em relação a Deus: quanto mais o conhecemos, tanto mais o amamos. Esse conhecimento abraça a alma com tão grande amor, que ela não pode mais amar nem desejar senão a Deus... O homem foi criado por amor; é por isso que é tão propenso a amar. Por outro lado, é tão grande que nada o pode contentar na terra. Só quando se volve para o lado de Deus é que fica contente... Tirai um peixe fora d’água, ele não viverá. Pois bem! Eis o homem sem Deus”
“Há pessoas que não amam a Deus, que não lhe rezam e que prosperam; é mau sinal. Elas fizeram um pouco de bem através de muito mal. Deus recompensa nesta vida”.
“A terra é uma ponte para passar a água: só serve para sustentar-nos os pés... Estamos neste mundo, porém não somos deste mundo, pois dizemos todos os dias: Pai Nosso que estais no Céu... Cumpre pois aguardarmos a nossa recompensa quando estivermos em nossa casa, na casa paterna. É por isso que os bons cristãos, estão nas cruzes, nas contradições, nas adversidades, nos desprezos, nas calúnias; tanto melhor!... Admiramo-nos, porém, disto. Parece que, porque amamos um pouco a Deus, não devemos ter nada que contrarie e que faça sofrer... Dizemos: “Eis aí um que não é prudente, e entretanto tudo lhe sai bem; eu, por mais que faça o que posso, tudo me sucede mal”. É que não compreendemos o valor e a felicidade das cruzes.
“Dizemos às vezes: Deus castiga aqueles a quem ama”. Nem sempre é verdade. A provações, para aqueles que Deus ama, não são castigos, são graças...”
“Não se deve considerar o trabalho, senão a recompensa. Um negociante não encara a pena que tem no seu comércio, mas o ganho que dele tira... Que são vinte, trinta anos, comparados à eternidade?... Que tanto temos pois a sofrer? Algumas humilhações, alguns melindres, palavras ferinas: Isto não mata”.
“É belo podermos agradar a Deus, por pequenos que sejamos”!
“A nossa língua só deverá ser empregada em rezar, o coração em amar, os olhos em chorar".
“Nós somos muito e não somos nada... Não há nada maior do que o homem, e nada mais pequeno. Não há nada maior quando se olha a própria alma, nada de menor quando se olha o próprio corpo... Ocupamo-nos do nosso corpo como se só disso tivéssemos que cuidar; ao contrário, só isso temos que desprezar...”
“Somos obra de Deus... Somos-lhe sempre a obra... Compreender que somos obra de um Deus é fácil; mas que a crucificação de um Deus seja obra nossa!!! Eis o que é incompreensível...”
“Há quem dê ao Pai Eterno um coração duro. Oh, como esses se enganam! O Pai Eterno, para desarmar a sua própria justiça, deu ao Filho um coração excessivamente bom: ninguém dá o que não tem. Nosso Senhor disse a seu Pai: “Pai, perdoa-lhes! Não os castigueis!...”
“Nosso Senhor sofreu mais do que era preciso para remir-nos. Mas aquilo que teria satisfeito a justiça de seu Pai não lhe teria satisfeito o amor”.
“Se não fosse a morte de Nosso Senhor, todos os homens juntos não poderiam expiar uma pequena mentira”.
“No mundo, costuma-se ocultar o Céu e o inferno: o Céu, porque, se lhe conhecêssemos a beleza, quereríamos ir para ele a todo custo; deixaríamos o mundo tranquilo! O inferno porque, se lhe conhecêssemos os tormentos, quereríamos evitá-los custasse o que custasse”.
“O sinal da cruz é temível ao demônio, pois é pela cruz que nós lhe escapamos... Deve-se fazer o sinal da cruz com grande respeito. Começa-se pela cabeça: é o chefe, a criação, o Pai; em seguida é o coração: o amor, a vida, a redenção, o Filho; os ombros: a força, o Espírito Santo. Tudo nos lembra a cruz. Nós próprios somos feitos em forma de cruz”.
“No Céu seremos alimentados pelo sopro de Deus... Deus nos colocará como um arquiteto coloca as pedras em um edifício, cada um no local que lhe convém”.
“O Céu fundia-se na alma dos santos. Era um escoamento do Céu, no qual eles se banhavam e se afogavam... Assim como os discípulos no Tabor não viram mais senão Jesus, as almas interiores, no Tabor do seu coração, tão pouco veem senão a Nosso Senhor. São amigos que nunca se cansam um do outro”.
“Há uns que perdem a fé e só veem o inferno ao entrar nele.”
“Os condenados serão envolvidos pela cólera de Deus, como o peixe n’água. Não é Deus quem nos condena, somos nós pelos nossos pecados. Os condenados não acusam a Deus; acusam-se a si mesmos; dizem: “Perdi a Deus, minha alma e o Céu por minha culpa”.
“Ninguém foi jamais condenado por ter feito demasiado mal; porém muitos estão no inferno por um só pecado mortal do qual não quiseram se arrepender”.
“Se um condenado pudesse dizer uma só vez: “Meu Deus, eu vos amo!” Não haveria mais inferno para ele... Mas, ai, essa pobre alma perdeu o poder de amar que recebera, e de que se não soube servir. O seu coração está seco como a uva quando passa sob a prensa. Não há mais felicidade nessa alma, não há mais paz, porque não há mais amor!...”
“O inferno tem sua fonte na bondade de Deus. Os condenados dirão: “Oh, se ao menos Deus não nos tivesse amado tanto, nós sofreríamos menos: o inferno seria suportável!... Termos sido, porém, tão amados! Que dor!!!”

Ao lado dos pensamentos profundos, o Padre Vianney os tinha fortes e empolgantes. Chamava ao cemitério a casa comum; ao purgatório, a enfermaria do bom Deus; à terra, um entreposto.

“Nós só estamos na terra, dizia ele, por entreposto, por um momentinho... Parece que não nos bulimos e, entretanto, marchamos a passos largos para a eternidade, como o vapor”.
“Diziam a um moribundo: “Que se deverá pôr sobre o vosso túmulo? — Poreis: Aqui jaz um insensato, que saiu deste mundo sem saber como entrou nele”. Há muitos que saem deste mundo sem saber o que a ele vieram fazer, e sem se inquietarem tão pouco com isso. Não façamos assim também”.
“Se os pobres condenados tivessem o tempo que nós perdemos, que bom uso fariam dele! Se tivessem sequer meia-hora, essa meia-hora despovoaria o inferno”.
“Morrendo, nós fazemos uma restituição: restituímos à terra o que ela nos deu... Um punhadinho de pó do tamanho de uma noz: aí está o que viremos a ser. Há muito de que nos ufanarmos!”
“Para o nosso corpo, a morte não passa de uma barrela.
“Há que trabalhar neste mundo, há que combater. Teremos bastante tempo para repousar em toda a eternidade”.
“Se compreendêssemos bem a nossa felicidade, quase poderíamos dizer que somos mais felizes do que os santos no Céu. Eles vivem dos seus rendimentos; não podem mais ganhar; ao passo que nós podemos a cada instante aumentar o nosso tesouro”.
“Os mandamentos de Deus são os ensinamentos que Deus nos dá para seguirmos o caminho do Céu, como as placas que se afixam à entrada das ruas e no começo dos caminhos para lhes indicar os nomes”.
“A graça de Deus ajuda-nos a andar e ampara-nos. É-nos necessária como as muletas aos que sofrem das pernas”.
“Quando a gente vai confessar-se, deve compreender o que vai fazer. Pode-se dizer que se vai despregar Nosso Senhor.”
“Quando haveis feito uma boa confissão, haveis acorrentado o demônio”.
“Os pecados que ocultarmos reaparecerão todos. Para bem ocultarmos os nossos pecados, devemos confessá-los”.
“As nossas faltas são um grão de areia ao lado da grande montanha das misericórdias de Deus”.

O Padre Vianney dava muito lugar, no seu ensinamento, às comparações e às imagens; tomava-as emprestadas à natureza amada e conhecida da multidão a que se dirigia, às pinturas do campo, as emoções da vida rural. As recordações da infância haviam conservado todo o seu frescor, e ele não podia resistir à inocente alegria de reviver, um momento ainda, nas suas palestras de velho, em meio às mais vivas simpatias da sua jovem idade. Há, nesse volver do pensamento para os dias mais graciosos da vida, algo que se assemelha a uma posse antecipada da ressurreição. À moda de Nosso Senhor, ele tomava os acontecimentos mais conhecidos, os fatos mais vulgares, os acidentes que se produziam a seus olhos para imagens da vida espiritual, e fazia deles o tema das suas instruções. O Evangelho é cheio de símbolos e de figuras próprias para conduzir a alma à inteligência das verdades eternas, pela comparação daquilo que é mais sensível neste mundo. Assim também, as alusões, os tropos, as metáforas, as parábolas, as imagens coloriam todos os discursos do Cura d'Ars. O seu espírito habituara-se a elevar-se a Deus e às coisas invisíveis por motivo das coisas visíveis. Não havia um só dos seus catecismos em que não figurassem várias vezes riachos, florestas, árvores, aves, flores, orvalho, lírios, bálsamo, perfume e mel. Todos os contemplativos têm gostado dessa linguagem, e a inocência dos seus pensamentos apegou-se com predileção a todas as coisas encantadoras e puras com que o Autor da criação embelezou a sua obra. “O homem bom, diz Nosso Senhor, tira boas coisas do tesouro do seu coração” (Mt 12, 35). Os suaves escritos de S. Francisco de Sales são um modelo desse gênero, caro a todos os místicos. Ninguém se admira de achar essas graças da linguagem e esse gosto fino no Bispo de Genebra. Mas esse pobre cura do campo, onde aprendera a formar os seus esplêndidos ramalhetes? Quem lhe havia feito penetrar essas finezas? Quem lhe dera de se servir delas com um tato tão delicado e tão engenhosa oportunidade? Escutemos:

“Qual bela pomba branca que sai do meio das águas e vem sacudir as asas sobre a terra, o Espírito Santo sai do oceano infinito das perfeições divinas e vem bater asas sobre as almas puras, para destilar nelas o bálsamo do amor.
“O Espírito Santo repousa em uma alma pura como em um leito de rosas.
“Sai de uma alma onde reside o Espírito Santo um odor como o da vinha quando está em flor.
“Aquele que conservou a inocência do seu batismo é como um filho que nunca desobedeceu ao pai...
“Quando a gente conservou a sua inocência, sente-se levado para o alto pelo amor como uma ave é levada pelas asas.
“Os que têm a alma pura são como águias e andorinhas que voam nos ares...
“Um cristão que tem a pureza da alma é na terra como uma ave que alguém tem presa por um fio. Pobre avezinha! Aguarda apenas o momento em que cortem o fio para alar-se.
“Os bons cristãos são como essas aves que têm asas grandes e patas pequenas, e que nunca pousam porque não poderiam mais elevar-se e seriam presas. Por isto, elas fazem os ninhos na ponta dos rochedos, no telhado das casas, nos lugares elevados. Do mesmo modo o cristão deve sempre estar nas alturas. Desde que abaixamos os nossos pensamentos para a terra, ficamos presos. (Animas ad volandum: as almas são feitas para voar, dissera o profeta Ezequiel - Ez 12, 20).
“Uma alma pura é como uma bela pérola. Enquanto está oculta numa concha, no fundo do mar, ninguém pensa em admirá-la. Porém, se a mostrais ao sol, essa pérola brilha e atrai os olhares. É assim que a alma pura, que é ocultada aos olhos do mundo, brilhará um dia diante dos anjos, ao sol da eternidade.”
“A alma pura é uma bela rosa, e as três pessoas divinas descem do Céu para lhe respirar o perfume”.
“A misericórdia de Deus é como uma torrente transbordada: arrasta os corações à sua passagem..."
“Mais depressa perdoará Deus um pecador arrependido do que uma mãe tirará o filho do fogo”.
“Os eleitos são como as espigas de trigo que escapam aos ceifeiros, e como os cachos de uva depois da vindima.”
“Imaginai uma pobre mãe obrigada a largar o cutelo da guilhotina na cabeça do filho: eis aí Deus quando condena um pecador!”
“Que felicidade para os justos quando, no fim do mundo, a alma embalsamada dos perfumes do Céu vier buscar o seu corpo para fruírem de Deus durante toda a eternidade!
Então os nossos corpos sairão da terra como o linho que passou pela barrela... Os corpos dos justos brilharão no Céu como belos diamantes, como globos de amor!”
“Que grito de alegria quando a alma vier unir-se ao corpo glorificado, a esse corpo que não será mais para ela um instrumento do pecado nem uma causa de sofrimentos. Ela se rolará no bálsamo do amor como a abelha se rola nas flores... Eis aí a alma embalsamada para a eternidade!...”

Vê-se que o Cura d'Ars era poeta sem suspeitá-lo, poeta na mais alta e mais sincera acepção da palavra: quer dizer que, dotado excelentemente da faculdade de sentir, seu coração se abria para deixar escapar a nota justa e o acento verdadeiro. É realmente a mais simples e a melhor maneira de ser poeta.

“Uma vez, dizia ele, eu ia ver um doente; era na primavera; as moitas estavam cheias de passarinhos que atormentavam a cabeça a cantar. Eu achava prazer em escutá-los e me dizia: Pobres passarinhos, não sabeis o que estais a dizer! Que pena! Estais cantando os louvores de Deus!

Não julgaria a gente ouvir S. Francisco de Assis?

... “O nosso santo Cura, escrevia um ouvinte seu dos mais inteligentes, é sempre igualmente admirável na vida, nas obras e nas palavras. Esta última palavra admira-vos talvez? E, entretanto nada é mais verdadeiro.
Há algo de prodigioso na satisfação, posso dizer no entusiasmo enternecido com que a multidão se comprime para ouvir os seus pretensos catecismos. E essa multidão é composta de homens pertencentes a todos os graus da escala social. Tenho ouvido eclesiásticos distintos, pessoas do mundo, sábios, artistas afirmarem que nada os havia tocado tanto quanto essa expansão de um coração que contempla, que ama, que geme, que adora. Quase poderíamos recolher os Fioretti do Cura d'Ars. Nada tão gracioso e brilhante como a pintura que ele fazia da primavera há poucos dias!...”

E algumas linhas mais abaixo, depois de falar de poesia, acrescentava: “Ontem, o nosso velho S. Francisco de Assis estava mais poético que nunca, em meio às suas lágrimas e aos seus rasgos de amor; falando da alma do homem, que só deve ter aspiração para Deus, exclamava ele:

“O peixe procura acaso as árvores e a campina? Não, afunda-se nas águas. A ave pára porventura sobre a terra? Não, voa nos ares. E o homem, que é criado para amar a Deus, possuir a Deus, encerrar a Deus, que fará de todas as forças que lhe foram dadas para isso?...”

O Padre Vianney gostava de contar a fresca e poética lenda de São Mauro, que, indo um dia levar o jantar à S. Bento, achou uma grande serpente; pegou-a, pô-la no pano da veste e disse, mostrando-a a São Bento: “Padre, eis o que eu achei”. Quando o santo patriarca e todos os religiosos estavam reunidos, a serpente pôs-se a silvar e a querer mordê-los. S. Bento disse então: “Pequeno, volta a levá-la para onde a apanhaste”. E quando S. Mauro partiu, ele acrescentou: “Meus irmãos, sabeis por que esse animal é tão manso com esse menino?... É porque ele conservou a inocência do batismo”.


O Cura d'Ars referia também com complacência o episódio de São Francisco de Assis pregando aos peixes, e esta página encantadora dos Fioretti só podia ganhar em ser interpretada por ele: “Um dia, dizia ele, S. Francisco de Assis pregava numa província onde havia muitos hereges. Aqueles malcriados tapavam os ouvidos para o não ouvirem. Então o santo levou o povo para beira-mar, e chamou os peixes para virem escutar a palavra de Deus, já que os homens a repeliam. Os peixes vieram para a beira d'água, os grandes atrás dos pequenos. S. Francisco fez-lhes esta pergunta: “Sois gratos a Deus por vos haver salvo do ilúvio?” Os peixes inclinaram a cabeça. Então S. Francisco disse ao povo: “Vede, esses peixes são reconhecidos aos benefícios de Deus. E vós, ingratos? Vós os desprezais!”


O Padre Vianney entremeava aos seus discursos felizes reminiscências da sua vida de pastor.

“Deveríamos fazer como os pastores que estão no campo durante o inverno, — a vida é bem um longo inverno! — fazem fogo; mas de quando em quando correm a apanhar lenha de todos os lados para alimentá-lo. Se soubéssemos, como os pastores, alimentar sempre o fogo do amor de Deus no nosso coração por orações e boas obras, ele não se apagaria”
“Quando não tendes o amor de Deus, sois bem pobres. Sois como uma árvore sem flores e sem frutos”.
“Na alma unida a Deus reina sempre a primavera”.

Quando falava da oração, as comparações mais amáveis e mais engenhosas acudiam-lhe em turba aos lábios:

“A oração é um orvalho embalsamado; mas é preciso orar com um coração puro para sentir esse orvalho.
“Sai da oração uma doçura saborosa, como o suco que escorre de uma uva bem madura.
“A oração desprende-nos a alma da matéria; eleva-a ao alto como o fogo que intumesce os balões.
“Quanto mais a gente reza, tanto mais quer rezar. É como um peixe que nada primeiro na superfície d'água, que mergulha em seguida e que vai sempre mais adiante. A alma mergulha-se, abisma-se, perde-se nas doçuras da conversação com Deus.
“O tempo não dura na oração. Não sei se se pode desejar o Céu. Oh! Sim, o peixe que nada em um riachozinho acha-se bem, porque está no seu elemento; mas está ainda melhor no mar. “É preciso, quando se reza, abrir o coração a Deus como o peixe quando vê vir a vaga.
“Deus não precisa de nós: se nos manda rezar, é que quer a nossa felicidade, e a nossa felicidade só nisso se pode achar. Quando ele nos vê vir, inclina o coração bem baixo para a sua criaturinha, como um pai que se inclina para escutar o filhinho que lhe fala.”
“De manhã é preciso fazer como a criança que está no berço: mal abre os olhos, olha depressa pela casa à procura da mãe. Quando a vê, põe-se a sorrir; quando não a vê, chora”.

Falando do sacerdote, ele se servia desta bela e tocante imagem:

“O sacerdote é para vós como uma mãe, como uma ama para um menino de meses: dá-lhe a comida; ele tem só que abrir a boca. A mãe diz ao filho; “Toma, meu filhinho, come”. O sacerdote diz-vos: “Tomai e comei eis aqui o corpo de Jesus Cristo. Guarde-vos ele e vos conduza à vida eterna!” Ó belas palavras!... Uma criança quando vê a mãe, atira-se para ela; debate-se contra os que a retêm; abre a boquinha e estende as mãozinhas para abraçá-la. A vossa alma, em presença do sacerdote, lança-se naturalmente para ele; corre-lhe ao encontro; mas é retida pelos laços do corpo nos homens que dão tudo aos sentidos, que só vivem para o cadáver.


“Nossa alma está enfaixada no nosso corpo como uma criança nos seus cueiros: só se lhe vê o rosto”.


odos ficarão impressionados com o que há de verdadeiro, de exato e de empolgante nessa última imagem. Ao lado dessas comparações graciosas, o Padre Vianney tinha outras enérgicas e originais. Queria ele exaltar os benefícios do sacramento da penitência? Fazia-o com o auxílio de metáforas e apólogos:

“Uma vez passou por nossa casa um lobo raivoso que devorava tudo. Achando no seu caminho um menino de dois anos, agarrou-o entre os dentes e carregou com ele: mas uns homens que podavam a vinha lhe correram atrás e arrancaram-lhe a presa. É assim que o sacramento da penitência nos arranca das garras do demônio”.

Tinha que fazer o paralelo dos cristãos com a gente do mundo? Dizia:

“Não acho nada tão para lamentar quanto essas pobres pessoas do mundo. Têm nos ombros um manto forrado de espinhos: não podem fazer um movimento sem se picarem; ao passo que os bons cristãos têm um manto forrado de pele de lebre”.
“O bom cristão não faz caso dos bens da terra: foge deles como um rato que sai d'água".
“Infelizmente nós não temos o coração bastante livre nem bastante puro de todo afeto terreno, Tomais uma esponja bem seca e bem limpa; molhai-a no licor, ela se encherá até ficar intumescida. Mas se não estiver seca nem limpa, não carregará nada. Assim também, quando o coração não está livre e desprendido das coisas da terra por mais que o molhem na oração, ele não tira nada”.
“Quando nos abandonamos às nossas paixões, entrelaçamos espinhos em volta do coração”.
“Nós somos como toupeiras de oito dias. Mal vemos a luz, metemo-nos pela terra adentro”.
“O demônio diverte-se até ao último momento, como se diverte um pobre homem enquanto os policiais não o vêm prender. Quando os policiais chegam, ele grita atormenta-se: mas nem por isto o largam".
“Quando a gente morre, é muitas vezes como uma lâmina de ferro enferrujada que é preciso pôr no fogo”.
“Os pobres pecadores são entorpecidos como serpentes durante o inverno”.
"O caluniador é semelhante à lesma que, passando sobre as flores, deixa nelas sua baba e suja-as".
“Que diríeis de um homem que trabalhasse o campo do vizinho e deixasse o seu sem cultura? Pois bem! Aí está o que fazeis. Remexeis continuamente na consciência dos outros, e deixais a vossa inculta. Oh! Quando a morte chegar, que pesar teremos de havermos cuidado tanto dos outros e tão pouco de nós! Porque é de nós, e não dos outros, que teremos de dar contas... Pensemos em nós, na nossa consciência, que deveríamos sempre olhar como olhamos as mãos para saber se estão limpas”.
“Temos sempre dois secretários, o demônio que escreve as nossas más ações para nos acusar, e o nosso anjo que escreve as boas para nos justificar no dia do Juízo. Quando todas as nossas ações nos forem apresentadas, quão poucas haverá agradáveis a Deus, mesmo entre as melhores! Tantas imperfeições, tantos pensamentos de amor-próprio, satisfações humanas, prazeres sensuais, rodeios egoístas, se acham misturados a elas! Elas têm boa aparência, mas só têm a aparência: como estes frutos que parecem mais amarelos e mais maduros porque um verme os picou”.

Vê-se por estes fragmentos que o P, Vianney era da escola de todos esses amáveis contemplativos que não desdenhavam exornar com as graças ingênuas da expressão a austeridade das suas ideias, seja por uma misericórdia condescendência para com seus discípulos, seja por atrativo natural que experimentam os que são bons para o que é belo. Não é tão comum nem tão fácil como se pensa amar a natureza: para isto é preciso sair de si, considerar o mundo exterior com desinteresse e com respeito, e buscar nele não prazeres, porém lições. Estranho erro crer que só os que abusam da natureza é que a amam e conhecem! Esses pretensos amantes da natureza são-lhe meros profanadores. O cristianismo, tão frequentemente acusado de calcar aos pés a natureza, foi o único a ensinar o homem a respeitá-la e a amá-la verdadeiramente fazendo aparecer o plano divino que a sustenta, ilumina e santifica. Era sob esta luz que o P. Vianney considerava a criação; percorria-lhe todos os graus para adorar nela os vestígios de seu Deus. Reencontrava Aquele que é soberanamente belo nas criaturas belas; mas tão pouco desdenhava as pequenas. Em paz com todas as coisas e tornado de alguma sorte a inocência primitiva e à condição do Éden quando Adão via as criaturas na claridade divina e as amava com fraternal caridade, o seu coração transbordava de amor não só aos homens, mas a todos os seres visíveis e invisíveis. Sentia-se respirar nas suas palavras uma afetuosa simpatia pela criação inteira, que lhe aparecia sem dúvida na sua nobreza e na sua pureza originais. Ele via nela uma irmã que, de outro modo exprimia os mesmos pensamentos que ele e cantava o mesmo amor. Lembremo-nos da sua apóstrofe aos peixinhos. Onde os outros só enxergavam belezas perecedoras, ele descobria, com uma segunda vista, as santas harmonias e as relações eternas que ligam a ordem física com a ordem moral, os mistérios da natureza com os da fé. Assim fazia também no domínio da história. Os séculos os acontecimentos e os homens eram para ele meros símbolos e alegorias, profecias e cumprimento, vozes que interrogam e se respondem, figuras que mutuamente se repetem.


Nada de belo, de tocante e de patético como a aplicação que o P. Vianney fazia da lenda de Santo Aleixo à presença real de Nosso Senhor. No momento em que a mãe de S. Aleixo reconhece o filho no corpo inanimado do mendigo que viveu trinta anos debaixo da escada do seu palácio, exclama: “Ó meu filho! E havia eu de conhecer-vos tão tarde!!!” A alma, ao sair desta vida, verá enfim Aquele que ela possuía na Eucaristia e, à vista das consolações, das belezas, das riquezas que ela desconheceu, exclamará também: “Ó Jesus! Ó minha vida! Ó meu tesouro! Ó meu amor! Havia eu de conhecer-vos tão tarde!...


Às vezes o Cura d'Ars tirava de acontecimentos recentes e de circunstâncias que o haviam pessoalmente impressionado, induções morais e considerações edificantes posto que ele pusesse nisso certa reserva, recolhiam-se assim de quando em quando preciosos dados sobre fatos que, não fora isso, ficariam para sempre na sombra.

“Porque Nosso Senhor não se faz ver no SS. Sacramento em toda Sua Majestade, dizia ele um dia, vós vos portais aqui sem respeito; mas, entretanto é Ele!” Ele está no meio de vós!... Como esse bom bispo que estava aí, esses últimos dias; toda gente o empurrava... Ah! Se soubéssemos que era um bispo!...”
“Nós damos a nossa mocidade ao demônio e os nossos restos a Deus, que é tão bom que se digna ainda de sustentar-se com eles... Felizmente nem todos fazem assim. Havia aqui uma grande donzela das primeiras famílias da França, que partiu esta manhã. Tem apenas vinte e três anos. É bem rica, bem rica!... Ofereceu-se em sacrifício a Deus para expiação dos pecados e pela conversão dos pecadores. Usa uma cinta toda guarnecida de pontas de ferro; mortifica-se de mil modos; seus pais não sabem de nada. Ela está pálida como uma folha de papel. É uma bela alma, bem agradável a Deus, como ainda as há pelo mundo; é o que impede o mundo acabar”.
“Vieram, um destes dias, dois ministros protestantes que não acreditavam na presença real de Nosso Senhor. Eu lhes disse: "Acreditais que um pedaço de pão possa despregar-se sozinho e ir por si mesmo, pousar sobre a língua de alguém que se aproxima para recebê-lo?
— Não. — Logo, não é pão!” Depois o P. Vianney acrescentava: “Havia um homem que tinha dúvidas sobre a presença real; dizia: “Quem sabe lá! Não é certo A Consagração! Que é a consagração? Que se passa no altar nesse momento?” Mas ele desejava crer, e pedia a SS. Virgem que lhe alcançasse a fé. Escutai bem isto: não digo que tenha acontecido algures, digo que me aconteceu a mim: No momento em que esse homem se apresentava para receber a comunhão, a Sagrada Hóstia despregou-se dos meus dedos, quando eu estava ainda a uma boa distância, e foi por si mesma pousar na língua deste homem”.

Não empreenderemos um estudo sobre o conjunto da doutrina do Cura d'Ars. Bem que havia uma espécie de concatenação que lhe ligava as partes, mas não as inspirações súbitas que delas escapavam, os jatos de luz que se cruzavam em todos os sentidos. Era geral, os seus catecismos desafiavam a análise, e nós recearíamos desfigurá-los emprestando-lhes a unanimidade de um sistema teológico. Cingir-nos-emos a oferecer aos nossos leitores um resumo das práticas mais notáveis.






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