• Apostolado FERR

São João, o Discípulo Amado!



SÃO JOÃO, APÓSTOLO E EVANGELISTA

27 de dezembro


Por Dom Guéranger,

O Ano Litúrgico*


O APÓSTOLO VIRGEM

Mais perto do presépio de Jesus, depois de Estevão, está João, Apóstolo e Evangelista. Era certo que o primeiro lugar deveria ser atribuído a Santo Estêvão, que amava tanto a Deus, que derramou seu sangue em seu serviço; pois, como o próprio Deus declara, amor maior não há do que dá a vida pelos seus amigos[1], e o martírio é considerado pela Igreja como o maior ato de amor, e tem, por isso, consequentemente, o poder de remir os pecados, como um segundo batismo. Mas, ao lado do sacrifício do sangue, o mais nobre, o mais bravo e o que mais ganha o coração d’Aquele que é o Esposo das almas, é o sacrifício da virgindade. Agora, assim como São Estevão é tido como o modelo dos Mártires, São João é honrado como o Príncipe dos Virgens. O martírio valeu a Santo Estevão a palma e a coroa: a virgindade mereceu a João sublimes privilégios que, ao mesmo tempo em que provam o valor da castidade, colocam este Discípulo entre os membros mais destacados da humanidade.


São João teve a honra de nascer da família de Davi, na mesma família da puríssima Virgem Maria; foi por isso mesmo, parente de Nosso Senhor segundo a carne. Essa mesma honra pertencia a São Tiago Maior, seu irmão, filho como ele de Zebedeu e com São Tiago Menor e São Judas, ambos Filhos de Alfeu. Quando nosso santo estava no auge de sua juventude, ele deixou, não apenas seu barco e redes, não apenas seu pai Zebedeu, mas até mesmo sua noiva, quando tudo estava preparado para o casamento. Ele seguiu Jesus e nunca mais olhou para trás. Daí o amor especial que o nosso Senhor lhe deu. Outros eram discípulos ou apóstolos, João era o amigo de Jesus. A causa desta parcialidade de nosso Senhor foi, como a Igreja nos diz na Liturgia, que João sacrificou sua virgindade ao homem-Deus. Vamos, nesta festa, enumerar as graças e privilégios que vieram a São João do seu ser O Discípulo a quem Jesus amava.


O DISCÍPULO AMADO

Só esta expressão do Evangelho, que o evangelista repete várias vezes – O Discípulo a quem Jesus amava[2] – diz mais do que qualquer comentário poderia fazer. São Pedro, é verdade, foi escolhido por nosso Divino Senhor para ser o chefe do Colégio Apostólico, e a Rocha sobre a qual a Igreja deveria ser edificada: ele, então, foi mais honrado, mas São João foi mais amado. A Pedro foi mandado amar mais do que os outros; por três vezes ele foi capaz de responder a Cristo que assim o faria, mas João foi o mais amado por Cristo do que o próprio Pedro, porque convinha honrar assim sua virgindade.


A castidade dos sentidos e do coração tem o poder de aproximar de Deus a quem a guarda, e o poder de atrair Deus até nós; por isso que, no momento solene da Última Ceia, daquela fecunda Ceia que deveria ser renovada em nossos Altares até o fim dos tempos para reanimar a vida das almas e curar suas feridas, João se colocou perto de Jesus, e não só desfrutou desta honra insigne, mas que, nas ultimas expansões do amor do Redentor, este filho de sua ternura mereceu apoiar sua cabeça sobre o peito do Homem-Deus. Então bebeu da luz e do amor em sua fonte divina, e este favor que era já uma recompensa, foi também a origem de duas particulares graças que recomendam de um modo especial a veneração de São João em toda a Igreja.


O DOUTOR

A Sabedoria divina desejava dar a conhecer ao mundo o Mistério do Verbo e confiar à palavra escrita aqueles profundos segredos que até então nenhuma pena humana tinha sido autorizada a escrever, e esta tarefa foi colocada sobre os ombros de São João. Pedro já tinha sido crucificado, Paulo já tinha sido decapitado, e os demais apóstolos já tinham sucessivamente selado sua doutrina com o seu sangue; só São João restava de pé no meio da Igreja; já a heresia, renegando os ensinamentos apostólicos, tentava destruir o Verbo divino, não querendo reconhecê-lo como Filho de Deus, consubstancial ao Pai. João foi convidado pelas Igrejas para falar, e ele o fez em linguagem celestial. Seu Divino Mestre tinha reservado para ele, limpo de toda impureza, a glória de escrever de seu punho mortal aqueles sublimes mistérios que seus irmãos tinham somente a missão de ensinar: O Verbo, Deus eterno, e o mesmo Verbo feito carne pela salvação do homem.


Daí nosso evangelista se elevou, como a Águia, até o Sol Divino; e contemplou-o sem deslumbrar-se, porque a pureza de seu coração e sentidos o fizeram digno de por-se em contato com a Luz incriada. Se Moisés, depois de ter conversado com Deus na nuvem, veio da entrevista divina com raios de luz maravilhosa envolvendo seu rosto, quanto mais radiante devia ser o venerável rosto de São João, que tinha repousado no próprio Coração de Jesus, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento[3], como são sublimes seus escritos! quão divino é seu ensinamento! Daí a Igreja aplicar a ele o símbolo da Águia, como mostrado ao Profeta Ezequiel[4], e confirmado pelo próprio São João em sua Revelação, ao que acrescentou, por toda a tradição, o outro belo nome de Teólogo.


O APÓSTOLO DO AMOR

Como a castidade, separando o homem dos afetos grosseiros e egoístas o eleva a um amor mais puro e generoso, o Salvador concedeu a seu Discípulo amado, além da primeira recompensa que consiste numa profunda penetração nos Mistérios divinos, uma segunda que foi a efusão extraordinária do amor, graça essa consequente de sua pureza angélica. João tinha guardado em seu coração os discursos de Jesus: tornou-os conhecidos pela Igreja, e especialmente aquele divino sermão da Última Ceia, no qual o Redentor derramou toda a sua Alma, que, tendo amado os seus, amo-os até o fim[5]. Ele escreveu suas Epístolas para dizer aos homens que Deus é Amor[6]; que aquele que não ama, não conhece a Deus[7]; que a caridade perfeita expulsa o temor[8]. Até o fim de sua vida, até nos dias de sua velhice, não deixou de inculcar o amor que os homens devem ter uns pelos outros, seguindo o exemplo de Deus, que os amou! E assim como tinha anunciado mais que os demais Apóstolos a divindade e os esplendores do Verbo Encarnado, assim também se mostrou que era por excelência o Apóstolo daquele infinito Amor que o Emanuel veio para acender na terra.


O FILHO DE MARIA

Mas o Senhor tinha mais um presente verdadeiramente digno do Discípulo virgem e predileto. Ao morrer na cruz, Jesus deixava Maria nesta terra; José já tinha entregue sua alma a Deus há alguns anos. Quem, então, velaria por tão sagrado tesouro? Quem seria digno de recebê-lo? Jesus enviaria seus Anjos para proteger e consolar sua Mãe, por não haver ninguém que merecesse tamanha honra? Do alto da Cruz, olhando para baixo, Jesus vê o Discípulo virgem: tudo está determinado. João será um filho para Maria, Maria será uma mãe para João; a castidade do Discípulo o fez digno de receber tão gloriosa herança!



Como diz São Pedro Damião, a Pedro foi confiada a guarda da Igreja, a Mãe dos homens; mas a João foi confiada Maria, a Mãe de Deus. Ele guardará como um bem próprio, ao seu lado fará as vezes de seu divino Amigo; a amará como a sua própria mãe; e será amado por Ela como um filho.


A GLÓRIA DE SÃO JOÃO

Rodeado de tanta luz, inflamado com tanto amor, será, por acaso, estranho que João seja considerado como o ornato da terra e a glória da Igreja? Contai, se for possível, os seus títulos, enumerai as suas qualidades. Ele é parente de Jesus por Maria; é Apóstolo, Virgem, o Amigo do Esposo, a Águia divina, o Teólogo, o filho de Maria; além do mais, é

Evangelista, pelo relato que deu da Vida de seu Mestre e Amigo; é um Escritor sagrado, pelas três Epístolas que escreveu sob a inspiração do Espírito Santo; é um Profeta, pelo seu misterioso Apocalipse, onde são guardados os segredos do tempo e da eternidade. O que lhe falta? A palma do martírio? Não, porque embora não tenha consumado seu sacrifício, chegou, porém, a beber o Cálice de seu Mestre[9], quando, depois de ser cruelmente flagelado, foi jogado num caldeirão de óleo fervente, diante da Porta Latina, em Roma, no ano 95. Ele foi, portanto, um Mártir no desejo e na intenção, embora não de fato; e se o Senhor, que queria conservá-lo em sua Igreja como um monumento de seu apreço pela castidade e das honras que a esta virtude reserva; se o Senhor suspendeu milagrosamente o efeito de tão atroz suplício, o coração de João tinha já aceito o martírio com todas as suas consequências.[10]



Tal é o companheiro de Estevão no Presépio, onde se encontra o nosso Menino Jesus. Se o protomártir brilha com púrpura de seu próprio sangue, a brancura virginal do filho adotivo de Maria não será mais deslumbrante que a própria neve? A beleza imaculada dos Lírios do filho adotivo de Maria não pode se misturar com o esplendor das rosas da coroa de Estêvão? Glória, então, seja ao nosso Rei recém-nascido, cuja corte brilha com tão alegres cores! Sim, o estábulo de Belém é um paraíso na terra, e vimos a sua transformação. Primeiramente contemplamos Maria e José sozinhos no estábulo junto do presépio; logo depois desceu uma multidão celestial de Anjos cantando o maravilhoso Hino; em seguida chegaram os Pastores de coração simples e humilde; depois, entrou Estêvão, o Coroado, e agora João, o Discípulo Amado; enquanto esperamos os Magos, veremos ainda outros entrando nesta cena tão comovente para aumentar o esplendor da festa e alegrar ainda mais os nossos corações. Quão belo é este nascimento de nosso Deus! Por mais humilde que pareça, ainda assim, é quão divino! Qual foi o rei ou imperador deste mundo que recebeu junto ao seu berço de ouro honras como essas dadas ao Menino de Belém?


Unamos nossas homenagens àquelas que recebe de todos esses bem-aventurados membros de sua corte; e, se ontem reavivamos nossa fé ante a vista da palma sangrenta de Estevão, despertemos hoje em nós o amor da castidade, com o cheiro dos celestiais perfumes que emanam das flores da virginal coroa do Amigo de Cristo.



MISSA DE SÃO JOÃO APÓSTOLO


* Traduzido e adaptado das versões espanhola e francesa.

[1] 1 João 15,13.

[2] João, 13,23; 19,26; 21,7; 21,20.

[3] Col 2,3.

[4] Ezequiel 1,10; 10,14.

[5] João, 13,1.

[6] 1 Jo 4,16.

[7] 1 Jo 4,7.

[8] 1 Jo 4,18.

[9] Mt 20,22.

[10] Morreu provavelmente em Éfeso, no reinado de Trajano (98-117).




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